sexta-feira, 16 de março de 2012

Relacionamento entre blogs e empresas: algumas diretrizes importantes para estabelecer parcerias consistentes


Este texto foi motivado e elaborado a partir de pautas e discussões levantadas pelos membros da Rede Brasileira de Blogueiros de Viagem (RBBV) acerca do relacionamento entre empresas e blogueiros. Este material é uma síntese dos principais pontos levantados durante as discussões entre os representantes dos blogs e integrantes do grupo citado.

Com a crescente ampliação do alcance das mídias sociais e da validação da experiência pessoal, cada vez mais indivíduos comuns buscam nos blogs, nos relatos pessoais, informações diversas que fazem parte do seu cotidiano: de tecnologia à arte, de beleza à saúde, de alimentação ao turismo. O certo é que há uma grande variedade de assuntos e experiências sendo discutidos e uma grande variedade também de perfis no que diz respeito a blogs.

O que, originalmente, teve início como um espaço que se assemelhava a um diário pessoal tomou outro rumo: o da profissionalização, sem contanto perder a pessoalidade do discurso. Eis que surge, então, um novo perfil no mercado, o de ProBlogger.

O ProBlogger, ou blogueiro profissional, trabalha, tira seu sustento ou parte do seu sustento do seu espaço. Muitas pessoas abriram mão de seus empregos tradicionais, muitos de estabilidade, para investir em um projeto independente, cuja credibilidade é construída ao longo do tempo e, principalmente, pela fidelidade de seu leitor.

Diante da ampliação do alcance das mídias sociais e de sua credibilidade, as empresas também passaram a enxergar nos blogs e nos demais representantes desse perfil de mídia um espaço promissor. As empresas veem a possibilidade de utilizar a credibilidade destes meios, construída gradativamente, para divulgar seus produtos. Assim, o relacionamento entre empresas e blogs começou a ser delineado. Diante de algo novo, de uma configuração nova, o estranhamento sempre é presente. Como lidar com este novo tipo de mídia (que também não é tão novo assim)?

Neste processo de profissionalização de blogs e de construção de relacionamento entre blogueiros e empresas, os parâmetros ainda estão sendo construídos. Há, no entanto, pontos que são sensíveis a esta nova configuração e que algumas empresas devem levar em conta desde o primeiro contato. Dessa forma, poderão conquistar parceiros constantes, que contam com credibilidade e que têm uma trajetória que precisa ser respeitada. Com isso, o respeito será também para com os leitores.

O mercado de blogs é profundamente heterogêneo: há blogs dedicados a assuntos distintos e de trajetórias distintas. Há blogs novos, recém-criados e cheios de potencial – que devem ser levados em conta – e há blogs antigos, que já têm uma história e trajetória tecidas ao longo do tempo. Todos podem conquistar seu espaço e estabelecer parcerias sérias e consistentes.

Ao procurar os blogs, as empresas devem considerar alguns fatores:

- Estudar cada blog selecionado para possíveis parcerias para compor propostas distintas.

Nenhum blog é igual. Talvez o primeiro grande erro de uma empresa, ao entrar em contato com um blog, seja o de não levar em conta essas diferenças. Cada nicho é um nicho, cada blog é um blog. Quando uma empresa faz uma proposta comercial, por exemplo, única para todos os espaços, ela está esquecendo de levar em conta a heterogeneidade destes blogs.

Para uma empresa começar com pé direito o relacionamento com um espaço, é preciso estudá-lo antes: analisar a consistência do seu conteúdo, ver há quanto tempo está no mercado, seus parceiros anteriores, ações, postura. Não basta pedir o número de acessos, de visitantes únicos, de seguidores no Twitter ou na Fanpage. Até porque alguns, infelizmente, usam de meios tortos para fabricar estes mesmos números.

Obviamente, estudar todos estes pontos em consonância exige um pouco mais de tempo e de dedicação. Talvez seja isso o que vai ajudar uma empresa a ser bem vista pelos seus possíveis parceiros e impedir que ela fique “queimada” entre eles. No final das contas, os blogueiros acabam trocando informações, entre outras razões, para avaliar se esta empresa é confiável, se a parceria é consistente. Um diálogo existe entre os blogueiros, por mais que não exista uma associação. Afinal somos independentes.

Então, repetindo, vale a pena gastar um pouco mais de tempo para delinear uma proposta para cada blog que esteja no radar, levando em conta todos os parâmetros citados acima, para que seja feita uma proposta justa e coerente.

- Consulte as opções que o blogueiro tem a oferecer nas propostas. Trate-o como um profissional. 

Outro ponto importante: se uma empresa nos enxerga como um meio relevante e profissional de produção e compartilhamento de conteúdo, nos trate dessa forma. Muitas empresas acham absurda a ideia de pagar um blogueiro pelo seu trabalho, mas pagam milhares de reais em anúncios em meios tradicionais, que já não são mais tão eficientes quanto foram no passado. Investir em blogs é certeza de atingir um público segmentado e de qualidade. Exatamente por isso é que as empresas querem relacionamentos com os blogs – para alcançar o público consumidor de uma maneira mais pessoal, mais eficiente, direta e com o respaldo do blogueiro. Por que então, muitas vezes, as negociações comerciais envolvendo dinheiro ficam limitadas à mídia tradicional e as propostas para os blogs não incluem remuneração real?

Lembrem-se, um blogueiro profissional tira toda a sua renda ou parte dela de seu espaço; trabalha, muitas vezes, horas para por um post no ar; faz e edita fotos etc. Investe tempo, dinheiro, esforço e emoção no seu trabalho.

Empresas: não percam de vista que as negociações estão sempre abertas. Façam suas propostas, ouçam a proposta do profissional que foi contactado e, sobretudo, não envolva parâmetros, valores e nomes de outros blogs na sua negociação. Não traga para a negociação frases do tipo “blog tal cobra tanto, então por que você cobra este valor?”. Isso fere a ética e o profissionalismo de uma empresa.

Como foi citado no item anterior, cada blog é um blog, cada um possui uma trajetória, fidelidade de leitores e formas de trabalhar: com publieditorias (sempre sinalizados como publieditoriais), banners, ações de marketing, fam trips, permutas… Há várias formas de montar parcerias. Ouça, negocie, saiba o que ele tem a oferecer.

- Sobre propostas nebulosas de ceder conteúdo a um blog e embutir links de clientes nos textos, sem comunicar aos blogueiros.

Há empresas que, infelizmente, adotam esta prática. Neste caso, esta se compromete a ser uma espécie de “colaboradora” do seu blog, enviando textos com links embutidos em palavras-chave, promovendo um cliente, sem custo algum, lesando o blogueiro. Esta “colaboração” na verdade é uma forma de promover o cliente da empresa sem repassar nada ao blogueiro.

- Sobre premiações

Algumas empresas encontraram em concursos um meio de se promover. Criam uma premiação, alegando que vão eleger o melhor blog na categoria x, mas exigem que os participantes coloquem selos em seus blogs (banners com links diretos para o site que promove a premiação) e que façam campanhas nas redes. No fim das contas, a ideia não é homenagear um blog, mas divulgar vastamente o nome da empresa, atrair tráfego para seu site e reforçar seus links junto às ferramentas de busca.

Há casos ainda em que a empresa diz que elegeu os melhores blogs para participar e, à medida que os “indicados” declinam do convite, convocam outros, os transformando em meros “tapa-buracos”. É um desrespeito ao trabalho dos blogueiros. Clareza e ética são pontos cruciais!

- Sobre propostas para escrever posts em troca de remunaração irrisória ou indigna.

Produzir conteúdo – textos, fotos, vídeos – é o trabalho do blogueiro. É no que ele investe seu tempo e esforço. O bom conteúdo atrai os visitantes para o blog e é a base para que o blogueiro construa sua credibilidade e conquiste a fidelidade dos leitores. Há empresas que desconsideram isso e que fazem propostas indignas. Existem casos de ofertas de “parceria” em que o blogueiro é convidado a escrever em troca de um cupom da empresa ou em troca de um valor tão pequeno que não compra nem um hambúrguer. Não há “parceria” que possa ser construída nessas bases.

Tendo em vista a crescente consolidação de blogs profissionais no mercado e da relevância do alcance das mídias sociais no contexto atual, é preciso que muitas empresas que nos contactam, visando estabelecer parcerias, trabalhem seu olhar com relação a este novo mercado, já que faz uso do mesmo para ampliar o seu alcance. Que as relações não sejam unilaterais e extorsivas e que todos tenham a possibilidade de crescer juntos e não apenas de servir de “escada” para muitos. Se uma empresa busca consolidar sua credibilidade e profissionalismo diante do mercado, que este processo comece desde a construção de relacionamento com os seus possíveis parceiros.

(Texto escrito por Janaína Calaça, editora do blog de viagem Jeguiando, com colaboração e revisão de Elisa Araujo, sócia e diretora comercial do Viaje na Viagem)

- Blogueiros e membros da Rede Brasileira de Blogs de Viagens que participaram da discussão sobre o relacionamento entre empresas e blogs e apoiam a causa:

Janaína Calaça e Erik Araújo - Jeguiando
Ricardo Freire e Elisa Araújo - Viaje na Viagem
Pedro Serra - Blog sem Destino
Maurício Oliveira - Trilhas e Aventuras
Sut-Mie Guibert - Viajando com Pimpolhos
Érika Marques - Blog Outros Ares
Carol May Rodrigues - Dicas e Roteiros de Viagens
Natália Gastão - Ziga da Zuca
Renata Inforzato - Direto de Paris
Leonardo Marques - Melhores Destinos
Jackeline Mota - Viaje Sim!
Thiago Cesar Busarello - Vida de Turista
Flávia Peixoto - Viajar é tudo de bom
Átila Ximenes - Blog Vou Contigo
Edson Maiero - Photo Travel 360
Camila Navarro - Viaggiando
Claudia Beatriz Saleh - Aprendiz de Viajante
Raquel Gonzaga / Rodrigo Nominato - Aventure-se.com
Mô Gribel - Por Onde Andei
Patrícia Camargo - Turomaquia
José Henrique Amormino Fonseca - Aventuras e Expedições
Marcio Nel Cimatti - A janela laranja
Clarissa Donda - Dondeando por aí
Jodrian Freitas - Aventura Mango
Lucia Malla - Uma malla pelo mundo
Gleiber Rodrigues - Andarilhos do mundo
Diego Fontenele Lemos - Blog de Viagens
Ana Catarina Portugal - Turista Profissional
Tatiane Dias e Christian Borchardt Jr - Sair do Brasil
Luiz Jr. Fernandes - Boa Viagem
Tiago Reis - Rotas Capixabas
Eliane Ceccon - 1001 Roteirinhos
João Aguiar - Viajando no Mundo
Daniel Duclos - Ducs Amsterdam
Tássia Corina - Com os pés no mundo
Juliana Afonso - Eu mundo afora

terça-feira, 13 de março de 2012

Marco zero de Santiago

Como em quase toda cidade, centro é centro. É cheio de gente, de carro, de comércio. É cheio de cheiros e barulhos. E o centro de Santiago é um exemplo disso. Ali, o dia começa com os comerciantes puxando os seus portões de ferro, funcionários colocando suas placas nas ruas e ônibus trazendo sempre mais e mais pessoas. Nesse ambiente o turista se torna visível e invisível. Afinal, no meio daquele monte de gente, ninguém repara nele. Mas é no meio daquele monte de gente, apressada, que ele se torna peculiar.

(Amor a bandeira)

A própria cidade compartilha desse paradoxo. Por um momento a gente esquece que está em Santiago... ou em Buenos Aires, ou em São Paulo, ou em Madrid. Os estímulos visuais são tantos e o fluxo comercial é tão alto que a cidade se torna simplesmente um espaço para as atividades. Mas eis que, no meio de tudo, em uma rua qualquer, um edifício antigo ou um monumento histórico nos faz lembrar onde estamos. E a cidade reaparece.

O centro de Santiago é uma mostra disso. Várias vezes estive no olho do furacão e precisei de algo para me lembrar que eu estava na capital chilena e não em outro lugar qualquer. Só escapei desse vai-e-vem depois que entrei no Mercado Central, um dos espaços mais conhecidos da cidade. Apesar de ele parecer um edifício  bastante clássico do lado de fora, devido às paredes de cores brancas e amarelas e os toldos em cada uma das suas entradas, ele era bastante diferente do lado dentro pois foi feito em estrutura metálica. O Mercado Central foi inaugurado em 1872 para ser usado como uma biblioteca. Tempos depois, porém, o local já se tornou o que é hoje: um verdadeiro espaço gastronômico.

(Não importa a data: o Mercado Central parece estar sempre decorado para alguma festividade. Ao fndo, os detalhes da sua estrutura de ferro)

O mercado funciona como um grande armazém aonde ficam expostos todo tipo de comida. Frutas e temperos são parte importante do local e ali você encontra de pimentas pretas a cerejas amarelas (deliciosas, por sinal). Mas o grande chamariz são os frutos do mar. Bancas e mais bancas vendendo peixes, camarões, caranguejos gigantes, ostras frescas e os piures, uma espécie de pedra que tem - misteriosamente - algo comestível por dentro. (Sou da teoria que vale a pena experimentar coisas novas em lugares novos, mas há exceções. E se até o Andrew Zimmern (do programa Bizarre Foods) diz que os piures estão na lista dos piores pratos, eu acredito).

Bom mesmo é sentar em um dos restaurantes no pátio do Mercado Central para almoçar. Sem pressa. Quem procura rapidez no atendimento está perdido pois há muita gente para ser atendida e os pratos demoram. Por vezes, até os garçons demoram. A comida desses restaurantes também não é a melhor do mundo. O local é conhecido pelo frescor dos seus alimentos e não necessariamente pelo sabor das suas receitas. O peixe do meu pai tinham um molho estranho, a base de queijo e limão, e os meus modestos camarões, por exemplo, estavam frios e pouco apetitosos. Mas culpo a minha falta de conhecimento... Se eu pudesse voltar, apostaria em opções simples pois a grande sacada do lugar é a qualidade e não o tempero.

O centro histórico

Saímos do Mercado Central em direção a Plaza de Armas. Apesar de a diferença entre um ponto e outro ser de quatro quarteirões e ambos serem considerados centro, a sensação é a de estar em outro bairro. Enquanto a região do Mercado Central é marcada pelo comércio e pelo burburinho dos seus consumidores, a região da Plaza de Armas é marcada, principalmente, pela história.

(Sem dúvida, o monumento mais imponente de toda a praça)

Desde a fundação da cidade por Pedro de Valdivia, em 1541, é ali que a história acontece. O espaço é ponto de encontro de marchas, movimentos, passeatas e anúncios oficias do governo. Não por menos, a Plaza de Armas é considerada o marco-zero da cidade. Além disso, ao redor estão alguns dos monumentos mais importantes de Santiago.

Um deles é a Catedral Metropolitana, o principal templo da igreja católica em todo o país. Inaugurada em 1800, a catedral foi a quinta construção realizada naquele espaço. A ideia de erguer um templo no ponto mais central da cidade surgiu tempos depois da fundação da cidade, mas até que o edifício atual fosse construído, as outras edificações foram destruídas, ou para a construção de templos com novas dimensões, ou por causa de terremotos.

A Catedral é linda por fora e por ter uma fachada pouco rebuscada, muitos esperam que o seu interior seja igualmente simples. Mas por dentro ela é ainda mais bonita. Não é cheia de ouro ou vitrais coloridos, mas impressiona pela grandeza, pelos detalhes das estátuas em madeira, das pinturas barrocas e dos pilares de mármore. Para completar o "conjunto religioso" da praça, há ainda o Palacio Arzobispal e a Paróquia El Sagrario.

(O prédio do Correio com sua arquitetura de influência francesa)

A Plaza de Armas segue tem ainda uma série de edifícios importantes. Um dos mais bonitos é o prédio Central dos Correios, que ainda pertence a estatal chilena e é utilizada como sede administrativa da empresa. O Palácio da Independência, construído em 1808, abriga hoje o Museu Histórico Nacional, espaço que tem como objetivo facilitar o acesso a história do país e que, para isso, apresenta uma exposição permanente sobre o tema.

(Monumento aos povos indígenas)

Mas a praça também é espaço de interação para residentes e visitantes. Ali há jardins e bancos para se sentar, fontes usadas por crianças para se refrescar, coretos onde homens de todas as idades - principalmente os mais velhos, sejamos sinceros - passam a tarde jogando xadrez, e espaço livre para os mais diversos usos. Isso sem contar nos cafés que colocam caeiras e guarda-sóis nas calçadas para um café na hora do intervalo.

O caminho natural para quem está na Plaza de Armas é seguir até o Museu de Arte Pré-Colombiano, que dizem ser o museu mais incrível de toda a capital. mas para o nosso azar ele estava passando por reformas e só vai abrir as portas novamente em 2013... O jeito era seguir para o próximo destino, o Palacio de La Moneda, sede da presidência da República do Chile. O edifício inaugurado em 1812 é uma das únicas construções coloniais que ainda está de pé, fruto de um planejamento inteligente que considerou os terremotos que abalam o território chileno e se preocupou em erguer o local em pedras bem largas e resistentes. Feito para ser a Casa da Moeda, o edifício se converteu na sede da presidência em 1845.

(Os lagos na frente do Palácio de La Moneda que parecem ter sido construídos para afastar as pessoas da porta... será?)

O local já foi pisoteado, bombardeado e então restaurado... e continua lindo. Principalmente durante o verão chileno. As árvores dos jardins do palácio estavam sem flores, em compensação o gramado era um tapete que misturava o verde das plantas e o rosa das flores que pareciam ter acabado de cair. Não vi o palácio por dentro, não vi a tal da troca de guardas (que a propósito acontece em dias específicos, sempre às 10 horas da manhã), mas nem importei. Sentei ali, como os grupos de amigos e os casais de namorado, sem culpa, só para ver o tempo passar.

(As cores do verão)

terça-feira, 6 de março de 2012

Onde a cultura se encontra

Quem vai a Santiago a procura de arte e cultura tem de visitar o bairro Lastarria. É ali que estão os melhores museus e alguns dos mais belos edifícios da cidade. Isso sem falar nas ruas cheias de cinemas, livrarias e cafés alternativos. A impressão que se tem ao passear por suas vias é que você não está no centro dos acontecimentos, mas sim no centro das discussões sobre esses acontecimentos.

(Feira de livros nas calçadas do bairro Lastarria)

Lastarria não é um bairro com grandes histórias porque ele guarda as grandes histórias. É ali que está, por exemplo, a Biblioteca Nacional, um edifício enorme (e lindo) inaugurado no ano de 1924. Ali estão guardados mais de 3 milhões de títulos, sendo que no segundo andar estão obras muito valiosas que datam do século XV. Foi impossível subir e ver essas raridades pois o terremoto que atingiu o país em 2010 abalou as estruturas do prédio, que ainda se encontra em reforma. Mas o terremoto não foi capaz de tirar a beleza das suas escadas de mármore e arquitetura em estilo neoclássico. No andar de baixo, além de toda beleza, o visitante encontra lanchonete. espaço para acesso a internet e - claro - um sem número de livros.

(Foto tirada desse link)

O passeio cultural continua no Museu Nacional de Bellas Artes. Alguns dizem que o local lembra o Petit Palais de Paris, por causa dos detalhes em art-nouveau. Pelo sim, pelo nçao, é mesmo um dos monumentos ais bonitos do país. O espaço fois construído em 1910 em homenagem aos 100 anos de independência do Chile.O local apresenta salas para a exposição de coleções temporárias. Entre elas tivemos a sorte de conhecer o trabalho de Pedro Pablo Valdés Bunster, um dos mais importantes escultores chilenos da atualidade. A sua obra tem como ponto principal a escultura feita a partir de uma grande diversidade de materiais, como ferro preenchido por barro, pedras e plástico, propondo a discussão sobre a durabilidade de tais produtos artísticos no tempo.

Foi engraçado encontrar com ele ali porque há algum tempo tinha visto uma de suas obras nas ruas de Santiago. Um cavalo, mais precisamente. A minha única reação para aquela escultura foi: "nossa, que coisa feia". E em um dia lá estava eu ao redor de cavalos e mais cavalos produzidos por Pedro. Mas depois dali passei a gostar da originalidade das coisas que ele fazia e, principalmente, da forma como a arte. Em uma das paredes do salão, essa frase flutuava: "Las obras son cáscaras empapadas del entorno, de los frutos y del espiritú de su época".

(Galeria com as obras de Pedro Bunster. Da feiúra à originalidade)

Perto dali há um museu totalmente diferente, mas com obras não menos instigantes. É o Museu de Artes Visuais. O prédio em si já causa um estranhamento porque, apesar dos seus seis andares, a impressão que se tem é bem menor de acordo com o seu espaço livre e disposição das obras nas salas.instalações, pinturas, fotos, montagens e vídeos são bastante inovadoras. Lembro de me entreter com várias peças. Uma delas era um quadro com a representação das rodovias de um mapa, mas na qual constavam realmente só as minúsculas linhas recortadas, com todo o cuidado do mundo.

(Chique e moderno... com um museu contemporâneo deve ser)

Depois de tanto estímulo visual (e cerebral) resolvemos parar em um dos cafés ao ar livre. Sem desmerecer todo o acervo cultural daquela manhã, mas o melhor do bairro não tem nada a ver com sua arquitetura ou seu clima intelectual, e sim com as pessoas que passam por ali. Estudantes com livros debaixo do braço, artistas querendo mostrar seu trabalho, casais underground, pessoas de estilo alternativo, de todas as idades. São elas que elegeram o Lastarria. É por causa delas que existe movimento nos cafés, filmes de menor alcance nos cinemas e feiras de livros pelas ruas. É a partir desse público ao mesmo tempo criador e consumidor que o bairro foi se moldando.

(Espaços alternativos por todo o bairro)

União entre história e natureza

No Lastarria, até o que era para ser um simples passeio de observação ganha contornos históricos e culturais. É o que acontece com o Cerro Santa Lucía, que une a paisagem da capital chilena a traços históricos importantes. De fato, a vista panorâmica de Santiago a partir do Cerro San Cristóbal é a melhor. Mas ele não passa de um morro com uma excelente localização. Já o cerro Santa Lucía surpreende logo na entrada, aonde uma construção amarela com direito a arcos de pedra, plantas exóticas e fontes d'água dá as boas vindas ao visitante (sem contar a simpatia os casal de 60 anos que toma conta do local!).

(A primeira imagem de quem entra no Cerro Santa Lucía)

Ao subir as primerias escadas, uma nova supresa: um pátio enorme se descortina na frente dos nossos olhos. No local, construções com a marca da realeza, mais fontes, mais plantas exóticas e escadarias que levam para construções de pedra ainda mais no alto. Foi no pé desse cerro que Pedro de Valdívia fundou a cidade de Santiago, em 1541. Também foi esse o lugar eleito para se transformar em fortaleza no período da Reconquista, em 1814. E mais tarde, devido às comemorações do centenário de Santiago, o governo aprovou um projeto de reestruturação local.

(Construções locais marcam a passagem da realeza - ou pelo menos de alguém com muito bom gosto arquitetônico)

O resultado disso foi que o cerro Santa Lucia se tornou uma atração em si só. Ninguém sobe suas escadas só para ver a paisagem de Santiago (e que paisagem), como no cerro San Cristóbal. Ninguém vai até lá só para conhecer um pouco mais da história da cidade, como em um museu qualquer. Se vai para se fazer tudo isso um pouco. Além de aproveitar a tranquilidade local para escrever, conversar e até namorar.

A verdade é que o todo bairro tem cantinhos escondidos em que o melhor a se fazer é não passar batido e aproveitar. Sentar, descansar, ler. Conversar. O que faz de um espaço boêmio ou intelectual por excelência é a troca de informações e ideias entre as pessoas que estão ali. Se não há predisposição para conhecer (algo ou o outro) esses lugares perdem seu propósito. Infelizmente não fui ao bairro a noite, não voltei lá outro dia, não conheci direito as pessoas que estão ali. Mas acredito que seja um dos melhores lugares da capital para conversar com gente interessante e fazer valer a ideia de que onde há pessoas há tempo para um café!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A melhor festa do mundo

Era dia na Avenida Delfim Moreira e os foliões já enchiam a rua de cores. O brilho das fantasias de lantejoulas se misturava com a purpurina nos olhos, os confetes metalizados e as serpentinas voadoras. Todos cantavam e pulavam ao som do bloco de rua que animava a praia do Leblon aquele dia, o "Empurra que pega". De longe se avistava o trio elétrico com os cantores, instrumentistas e uma mulata que sambava como uma autêntica brasileira. No chão, a bateria tocava sambas enredo e marchinhas de carnaval a todo vapor. O som do bumbo, do chocalho e da cuíca eram acompanhados pelas vozes das milhares de pessoas que andavam junto ao bloco.

(Bloco Banda de Ipanema na terça-feira de carnaval. Só folia! Foto tirada desse link)

Em meio a tanta gente, um casal chamava atenção. Pareciam ter 60 anos e não tinham cara de brasileiros. Nem cara, nem roupa, nem trejeitos. Estavam no meio da muvuca e para ver a festa melhor resolveram subir no meio fio perto do calçadão. Não falaram mais nada. Estavam os dois de boca aberta e sorriso no rosto. Viram a bateria passar, o trio elétrico andar e aquele monte de gente dançar ao som da verdadeira música brasileira. Eles não sabiam se batiam palmas, se pulavam no ritmo dos tambores ou se tiravam fotos. Estavam atônitos. Estavam no paraíso.

Essa foi, para mim, a imagem mais marcante do carnaval no Rio de Janeiro. Em primeiro lugar, porque olhar para o rosto daquele casal é comprovar que fazemos sim uma das melhores festas do mundo. Em segundo lugar porque eu fiquei igual a eles em vários momentos. Desde o primeiro dia de festa eu não acreditava no que estava vendo. A cidade inteira parou para festejar o carnaval.

(A bateria passa na avenida...! Foto tirada desse link)

Claro que isso é um grande problema. Um país que para durante uma semana para cair na folia é, no mínimo, irresponsável. Apesar do ótimo policiamento, vários amigos foram assaltados. Apesar da limpeza super eficiente e 24 horas, o mar do Rio de Janeiro ficou um lixo no pós carnaval. E apesar de ter ficado conscientemente desligada do mundo durante cinco dias eu tenho certeza que muita gente aproveitou o feriado para fazer algo errado, ou aumentar as filas dos hospitais, ou atrasar o pagamento, ou impedir a aprovação de alguma lei do governo.

Ainda assim, eram milhões de pessoas que tentavam esquecer um pouco os problemas do cotidiano para sorrir. Vimos crianças de rua que não tinham o que comer, mas só nos pediam o pandeiro para dar uma batucada. Conversamos com mães que entravam no meio da folia para vender cerveja e comprar material escolar para os filhos. Não tem como não gostar de um país com um povo tão alegre assim...

(Fantasia e tamborim no bloco Bangalafumenga. Foto tirada desse link)

E com certeza foi em busca disso que aquele casal de estrangeiros veio para o Brasil. Alegria. O país tem paisagens magníficas, praias paradisíacas, florestas tropicais, comida farta e uma música de primeira. Mas o povo brasileiro é o grande chamariz. Claro que temos muitos defeitos. Já disse aqui no blog como o tal do "jeitinho brasileiro" já virou piada. O livro Raízes do Brasil, do sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda, explica bem como o povo usa sua simpatia e criatividade para burlar as leis e se dar bem em todas as situações. Mas bem, é por causa dessa alegria e cordialidade que se consegue certas coisas, não? Então sobre ser "alegre" não há discussão.

E a verdade é que talvez o povo brasileiro nem seja o mais feliz do mundo. O povo nepalense é muito feliz, mas sua felicidade é transmitida em forma de bem estar e paz interior. O povo canadense também é muito feliz e se orgulha da sua pátria e boa qualidade de vida, mas são contidos. Já o brasileiro é eufórico. Grita, gesticula, ri alto. A gente manifesta a nossa alegria para qualquer um. E de graça.

(Carnaval com direito a bondinho na Lapa, o bairro mais boêmio do Rio. Foto tirada desse link)

O Carnaval é uma exacerbação dessa alegria. O clima nas ruas é realmente extraordinário. Tudo é festa. De manhã tem bloco, de tarde tem bloco, de noite tem show. E quando não tem nada é só pegar uma garrafa e começar a batucar. Que sabe cantar e quem não sabe, são todos bem vindos. É só chegar no meio da rodinha, puxar um samba e esperar os outros seguirem. Em dez minutos já estão pulando de braços dados.

Essa é a maior certeza de que o verdadeiro carnaval está nas ruas. O desfile das Escolas de Samba deve ser lindo. Aqueles carros enormes, homens e mulheres fantasiados e uma bateria que se faz ouvir a muitos e muitos metros de distância. Um show a parte. Mas esse não é todo espetáculo. No Sambódromo  está quem tem dinheiro, quem pode ir. No Sambódromo a festa dura dois dias. No Rio o carnaval ainda não acabou. Durante o feriado foram mais de 500 blocos e quatro milhões de pessoas nas ruas.

(E tudo quanto é tipo de fantasia também. Nordeste, smurfs, gato de botas, cartão postal...Foto tirada desse link)

E para quem não quer folia o tempo todo, o Rio ainda é o Rio. A cidade maravilhosa, apesar de cheia, continua linda no carnaval. A água azul, a areia clara, o calçadão e o sol da estação mais quente do ano é capaz de revitalizar os ânimos dos foliões mais agitados. Até dá para curtir os blocos da areia. Ou em qualquer lugar da cidade. Alegria, sorrisos e música boa. Uma festa de deixar estrangeiros de boca aberta e brasileiros orgulhosos.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ares de metrópole

Há um bairro em Santiago que ainda não sabe a que veio. Sua paisagem mistura arranha-céus metálicos e casas residenciais de estilo colonial, parques cheios de árvores e largas avenidas. Assim é Providencia, um bairro com pessoas e usos tão diversos que fica até difícil classificá-lo. Centro comercial? Espaço para repouso? Talvez um pouco de cada um.

(Espaço para descansar ou trabalhar. Providencia tem ares de metrópole pois é um bairro para todos os tipos de uso)

Como o hotel em que estava hospedada era nesse bairro, posso afirmar com segurança: o Providencia pulsa a qualquer hora do dia. Se você ficar um pouco mais atento vai conseguir observar o cotidiano local. Quando o sol aparece, as ruas se enchem de carros e as calçadas de pessoas. Homens e mulheres, a passeio e a trabalho. Alguns têm como destino os prédios comerciais e os arranha-ceús metálicos. Outros estão ali a espera das lojas e supermercados, prestes a abrir.

O Providencia é mesmo um ótimo bairro para se fazer compras. Pode não ter os bazares descolados do Bellavista ou os preços acessíveis do Centro, mas tem uma ótima relação custo benefício. O negócio é fuçar. A rua Nueva de Lyon tem dezenas de lojas. O melhor é o brechó Nostalgico. Tem tudo o que os bons brechós oferecem, com a vantagem de que esse é realmente organizado. Ali também está o Edificio Dos Caracoles, que tem esse nome exatamente por seu formato em espiral. Boa parte das lojas vendem peças artesanais e únicas.

(Galerias ao longo do caminho e entrada para a loja Paris)

Ali perto você também encontra uma das filiais da rede de departamentos Paris. Ele me lembrou a Galeria Lafayete da França não pelo luxo, mas pela organização. As lojas Paris também são grandes galpões abertos onde as marcas disputam a preferência dos clientes sem precisarem erguer paredes ou muros. A cada andar há um tipo de produto a ser vendido, de roupas e acessórios a aparelhos eletrônicos.

O Providencia também é um ótimo local para comer. Ali estão as maiores redes de fast-food, as lanchonetes tradicionais, as docerias típicas e alguns dos melhores restaurantes da cidade. No almoço eles enchem de pessoas, normalmente trabalhadores. No fim de tarde, esses mesmos trabalhadores escolhem um bar para o happy hour, mas dividem o espaço com grupos de jovens, mulheres em momentos confidenciais e crianças se lambuzando de sorvete.

Claro que não experimentei todos, mas se me pedirem para lembrar de alguma comida que experimentei durante a viagem eu vou lembrar de dois restaurantes no bairro Providencia. Um deles é o Cafetto,  no térreo do Hotel Orly. O ambiente é pequeno mas super agradável. As vitrines do local deixavam a vista a paisagem do lado de fora, mas o que vem de dentro da cozinha é o que realmente interessa. Pedimos o prato do dia que vinha com entrada, prato principal, suco ou vinho e sobremesa. Um desse sai por menos de 20 reais e, se comparado aos preços e quantidades brasileiras (que sequer incluem uma taça de vinho), ficou bem barato. E delicioso! Sem dúvida a melhor refeição da viagem.

(O delicioso filé mignon no Cafetto)

O melhor jantar ficou para o Le Bistrot, restaurante francês no pátio do edifício Dos Caracoles. O cardápio tem pratos caros e refinados e opções baratas... igualmente refinadas. Pedi um crepe fermière, feito com frango, champignon, pimentão, cebola e queijo, além de um molho especial delicioso. Morei cinco meses na França, mas foi no Chile que comi o melhor crepe de todos os tempos.

(14 reais muito bem gastos, obrigada)

Como o Le Bistrot, existem ótimos restaurantes no bairro, o que garante um fluxo constante de pessoas também durante a noite. Com o expediente encerrado e parte do comércio fechado, as ruas do bairro Providencia encontram pessoas sem pressa. O horário para chegar no trabalho já não impede os pedestres de aproveitar o clima. Muitos ainda estão bem vestidos e normalmente são esses que estão em busca de uma noite mais agitada. Balada por aqui acontece, mas não costumam ser das mais agitadas. Bares com shows ou DJs são mais procurados.

E ainda que Providencia ofereça diversas opções de passeio, algumas pessoas estão ali só de passagem. Como o bairro está em uma região central, suas avenidas são destinos certos para quem quer ir de um lado para outro. O que não impede as pessoas que passeiam a esmo de aproveitar alguns dos pontos mais charmosos do bairro. Um deles é o parque das esculturas, um verdadeiro recanto de tranquilidade no meio da zona comercial da cidade. O parque tem como atração principal atração as 30 esculturas - muitas delas bastante instigantes - de artistas famosos. Isso sem contar os 21 mil m² de área verde.

(As obras são permanentes, mas dentro do próprio parque há um espaço para pequenas exposições temporárias)

Mesmo quem não para no parque encontra muito espaço verde pelas ruas da capital. Santigo é uma cidade muito arborizada, principalmente nas áreas mais residenciais. As ruas próximas ao parque são assim, lindas e tranquilas (menos na hora do rush). Uma hora ou outra você vai cruzar com o Rio Mapocho, importante curso fluvial que corta a cidade. Sua coloração marrom - um tanto quanto nojenta - não tem nada de natural. Suas águas costumavam ser cristalinas até os dejetos minerais, agrários, domiciliares e todos os outros serem despejados no rio. O governo já promoveu uma série de ações para despoluir suas águas e promete que até 2013 o local vai virar um grande parque.

E entre um passeio e outro, algumas surpresas. Para o meu espanto o Providencia também tem construções antigas, como a Igreja de Nossa Senhora da Divina Providência. De influência neo-renascentista, foi construída entre os anos de 1881 e 1890 para ser um orfanato, que funcionou até 1942 acolhendo cerca de 1200 crianças. Em 1955 o espaço aonde as crianças eram acolhidas foi demolido e no local só restou a capela e o claustro lateral.

(Porque o bairro chama Providencia? Agora parece claro)

Providencia tem de tudo. Negócio e ócio. Não há como dizer se as pessoas por ali são diversas porque o bairro tem de tudo um pouco ou se o bairro tem de tudo um pouco porque os frequentadores são tão distintos. E apesar de mesclar elementos tão diversos, o bairro não parece um monstro, mas uma verdadeiro metrópole. Afinal, metrópoles não param.

(Visão da área residencial de Providencia do terraço do hotel)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O descontraído bairro Bellavista

A ânsia de chegar a uma cidade e conhecer os seus pontos turísticos mais famosos é tanta que os roteiros de viagem normalmente são estruturados de forma decrescente. No primeiro dia com certeza está o "essencial", no segundo dia, o essencial número dois, e assim a viagem segue até o último dia, que não apresenta nada muito significativo. Tanto que no final a correria dá espaço a uma relativa calma e os viajantes gastam seu tempo andando a esmo, descobrindo novas ruelas e bistrôs ou voltando aonde mais gostaram - muitas vezes, o mesmo lugar do primeiro dia.

(Ruas do bairro Bellavista. Clima de bairro boêmio ainda pela manhã)

Isso não quer dizer que o início é sempre a melhor parte. Quem viaja sempre espera novidades, e é esse sentimento que deixa as pessoas abertas às surpresas. E as surpresas, como todos sabemos, não têm hora para acontecer. Mas em Santiago a regra prevaleceu. Quando chegamos ao bairro Bellavista sabia que tínhamos começado pelo melhor. Pelas suas casas bonitas, ruas mais charmosas, bares badalados, clima de capital... o conjunto da obra. Se alguém fosse passar só um dia na capital do Chile eu diria: vá ao bairro Bellavista.

A tranquilidade matutina...

Realmente, não há paisagem mais bonita para os olhos do que as ruas de Bellavista. O bairro costumava ser um reduto católico e aristocrático, mas começou a mudar a partir dos anos 1920, quando ganhou construções de diferentes estilos arquitetônicos. As casas que se instalaram ali eram, ao mesmo tempo, modernas e clássicas, chiques e rústicas, imponentes e simples, e por serem assim começaram a chamar a atenção principalmente de artistas e pensadores, que deram ao local um toque de boemia.

(O famoso Como Água para Chocolate, inspirado no livro da mexicana Laura Esquivel e também na sua trama: no cardápio, pratos que aguçam os desejos)

Um dos artistas que resolveu criar raízes por ali foi nada mais nada menos que Pablo Neruda, um dos mais importantes poetas do mundo e prêmio Nobel de Literatura em 1971. Foi no Bellavista que Neruda construiu a sua terceira casa, um dos pontos mais importantes do bairro e quiça, de toda capital.


O ingresso que custa 2.500 pesos chilenos (algo em torno de 10 reais) dá direito ao visitante a fazer uma visita de 40 minutos acompanhado de um guia turístico. Não hesite. O passeio vale muito a pena. E você vai querer fazê-lo assim que chegar à porta de entrada e ver, lá de baixo, as curiosas formas geométricas da casa. O guia explica que Neruda era um apaixonado por mar e queria dar um aspecto de barco à sua residência. Por isso os tetos são baixíssimos, as paredes brancas e muitos dos quadros e objetos fazem referências ao oceano. A maior marca do seu apreço pelo ambiente marítimo é a sala privada, com uma janela panorâmica semelhante à de uma cabine de comandante com uma paisagem estonteante da Cordilheira dos Andes. Hoje, infelizmente, os lotes vagos, prédios e a poluição local não se parecem em nada com o que ele enxergava poucas décadas atrás.

(A "cabine do comandante" com sua visão panorâmico)

Outro espaço igualmente curioso é a sala que fica no pátio, cheia de objetos gigantes. Se não ouvi mal, a inspiração veio de Temuco, cidade onde Neruda passou sua infância e adolescência. Há muito tempo, quando parte da população não sabia ler ou escrever, as lojas não colocavam letreiros nas suas portas, mas objetos gigantes que simbolizavam os seus produtos, como sapatos ou relógios. O último cômodo a ser visitado, e alvo de olhares curiosos por parte de todos os presentes, foi a biblioteca. Ali está a sua medalha do Nobel e fotos com diversas celebridades, inclusive Vinícius de Moraes e Jorge Amado, amigos íntimos.

(Infelizmente não é possível tirar fotos de dentro da casa. Mas os pátios com parreiras que tampam o sol já dão uma ideia do local)

Mesmo com tantos objetos e palavras, o visitante sai dali com apenas um nome na cabeça: Matilde Urrutia. Neruda a conheceu durante seu exílio na Itália, quando ainda era casado. Mas Matilde foi uma daquelas paixões arrebatadores. Foi para manter relações secretas com sua amada que ele ordenou a construção da casa ainda em 1953. Quando sua mulher morreu, o poeta se mudou para a nova casa em Santiago nomeada de La Chascona, palavra que só existe no espanhol chileno e quer dizer algo como "descabelada" ou "cabelos eriçados", em homenagem a Matilde. Durante a visita o guia conta histórias sobre o casal e mostra objetos e poemas dedicados a ela. O romance entre eles termina em 1973, dias depois do golpe de estado que colocou Augusto Pinochet no poder, Neruda morre. Matilde se encarrega então de cuidar de todo o patrimônio do amado até sua morte, em 1985, na casa aonde viveram.

Depois de visitar a La Chascona fomos ver a paisagem que tinha sido um dos motivos pelo qual Pablo Neruda instalara sua casa no Bellavista. Para isso fomos  entrada do funicular que dá acesso ao Cerro San Cristóbal, um dos morros que integra o conjuntos de montanhas da cidade.

(Passageiros a bordo...)

A vista que se tem de Santiago do alto do cerro San Cristóbal é diferente é a mais bonita. Isso porque além de o morro ter 880 metros de altura ele proporciona um olhar panorâmico. É possível ver a capital chilena lá embaixo de praticamente todos os seus ângulos. Confesso que fiquei um pouco decepcionada pois em fotos de amigos me lembro de ver uma cidade rodeada pelos colossais picos da Cordilheira dos Andes e, por causa do nevoeiro de fumaça causado pela poluição do local, o chamado smog, não vi nem metade.

(A melhor foto dos Andes que consegui naquele dia não traz nem a metade da montanha)

Ainda assim é uma paisagem linda. O próprio cerro é um lugar legal para ir e fazer um piquenique ou mesmo para relaxar. A estrutura local conta com várias lanchonetes e - claro - as típicas lojinhas de souvenirs para os turistas gastarem seu dinheiro. A montanha se transforma em caminho de peregrinação por abrigar o Santuário de Imaculada Conceição desde 1908. Além da igreja, no alto da montanha há uma estátua enorme da santa, de braços abertos em adoração e olhar fixo no céu.

... E o agito noturno 

Bellavista são duas. Se de manhã os olhos se fixam nas cores e traçados de suas casas, a noite o que encanta é o clima boêmio e descontraído. Pela manhã o passeio é contemplativo. A noite a visita é para aproveitar. Aproveitar e se integrar.

(Fim de tarde nos barzinhos do bairro Bellavista)

Se você estiver a fim de se entrosar esse é o bairro perfeito. Há gente passeando nas ruas, entrando nos bazares e, principalmente, sentada nas mesas das lanchonetes, bistrôs e restaurantes a todo momento. O movimento começa na hora do almoço, mas aumenta mesmo no fim da tarde e não para até o amanhecer.


É importante lembrar que no verão de Santiago o sol se põe por volta das 21h30 então não é preciso esperar o céu ficar escuro para sair de casa. Principalmente se a saída for para jantar: alguns restaurantes são muito concorridos e só se consegue uma mesa chegando muito cedo ou fazendo reserva. Se a ideia é cair na balada, não há nenhuma regra de etiqueta que um bom brasileiro não saiba.


(Restobar Ky é considerado o bar mais cool da cidade. Fique atento ao endereço pois a casa é escondida e não há placas na porta. O local tem salões de todos os jeitos: dos minimalistas aos mais exóticos. As pessoas se senta em cadeiras, almofadas ou mesmo no chão. O importante é aproveitar a noite. Foto tirada desse link)

Saudosismo

Alguns dizem que o bairro Bellavista não é mais o de antigamente. Por causa das suas características singulares e do seu apelo turístico e comercial, ele tem se voltado mais para os visitantes do que para os habitantes da cidade. Um lugar que poderia representar essa afirmativa é o Pátio Bellavista. Aberto em 2006 em um antigo galpão industrial, o espaço que oferece uma série de lojas e restaurantes bastante chiques.

(Em épocas especiais há apresentações musicais)

Alguns acreditam que o galpão poderia ser transformado em outra coisa, as vezes um centro cultural. Outros acreditam que o local só serve aos ricos e endinheirados, como muitos dos bares e restaurantes da região que antigamente recebia todo tipo de gente. A questão permanece no ar, mas a bem verdade é que chilenos e estrangeiros frequentam as casas de paredes coloridas e janelas amplas que hoje se transformaram em bares e boates descolados, lojas vintages, teatros alternativos e centros culturais.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Viver bem em Santiago

Uma cidade do primeiro mundo. Essa é a impressão que se tem de Santiago, capital do Chile, um local cheio de encantos. Com suas ruas aconchegantes, mesas nas calçadas e candeeiros a moda antiga, a cidade transborda sofisticação.

(Candeeiros, plátanos verdes e prédios com varandas coloridas. Detalhes de uma bela capital)

Há dados concretos para considerar Santiago uma cidade do primeiro mundo. A capital chilena tem a terceira melhor qualidade de vida da América Latina, perdendo apenas para Buenos Aires e Montevidéu. É também a 53º cidade mais rica do mundo e apresenta um ensino escolar e universitário exemplares. Mas mesmo sem esses dados é fácil sentir que Santiago é uma cidade de primeiro mundo. E não é por causa da sua beleza. A beleza pode estar em qualquer lugar. A diferença é a mentalidade da sua população.

Não estou aqui criando critérios para dizer o que torna uma cidade desenvolvida ou não e muito menos querendo dizer quem é melhor ou pior. Mas é fato que as melhores cidades para se viver apresentam características similares. Abaixo, itens que me fazem classificar uma cidade como primeiro mundo - e que Santiago tem.

(Sofisticação urbana)

Serviços públicos eficientes: Cidades que prezam pelo bem estar do seus habitantes são aquelas que proporcionam serviços públicos de qualidade. O transporte é um excelente "medidor" pois além de ser usado por todos, todos os dias, é um dos mais difíceis de serem resolvidos. Para um transporte público de qualidade é preciso que ele tenha capacidade para todos os habitantes, que não seja absurdamente caro, que não atrase e que proporcione uma grande diversidade de equipamentos, como táxis, ônibus e metrôs, além de ciclovias e boas calçadas para os transeuntes. Santiago tem isso tudo. Não é a toa que você não vê pessoas estressadas, correndo para pegar metros, porque em 5 minutos passa outro. Também há pouco engarrafamento pois o transporte público funciona e o número de carros na rua diminui.

Espaços públicos: Em alguns países "o que é público não é de ninguém". É por isso que os monumentos ficam abandonados, os patrimônios são pichados, os jardins são mal cuidados, as praças são ocupadas por mendigos e os equipamentos públicos são roubados - já que não têm dono mesmo. As pessoas não criam um sentimento de pertencimento. Lembro que quando cheguei em Paris fiquei encantada ao ver praças, jardins e parques cheios de pessoas o tempo inteiro. Isso porque nos países de primeiro mundo "o que é público é de todos".

Limpeza: Lugares aonde as pessoas não jogam lixo na rua, não depredam patrimônios públicos e fazem de tudo para manter o local bem arrumado são diferentes. Não é só uma questão de beleza, mas sim de cultura. Quanto mais limpa uma cidade, maior é a vontade de fazer com que ela continue assim, e mais limpa ela fica. É um ciclo vicioso.  Afinal, se o que é público é de todos, não posso sujar uma rua já que ela também é minha. E nada melhor do que visitar, passear ou mesmo viver em uma cidade limpa, bonita e bem cuidada.

Povo educado: Educação não é ter uma população formada por jovens talentos universitários e empreendedores de sucesso (não que o Chile não possa se orgulhar do seu sistema de ensino). Quando falo em educação falo em cotidiano. Pedir licença, falra obrigado, dar informações sem se irritar, entender as necessidades do cliente, respeitar o pedestre. Basicamente se importar com o outro. Em Santiago as pessoas são educadas e isso se enxerga nos pequenos detalhes.