quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Tempo de mudanças

Eu estava pronta para começar mais um post. Ia escrever sobre a viagem que fiz no início de setembro pela Costa do Sol, no sul da Espanha. Seria mais um texto sobre uma viagem legal. Seria só mais um texto.


Comecei a pensar no por quê dos meus textos. E até no por quê do meu blog. Por que escrever um blog de viagens? Para que serve? As informações que eu posto aqui devem levar em consideração o que os leitores buscam? Ou eu deveria trazer coisas que eles não buscam pelo fato de que, antes do meu texto, eles sequer sabiam que essa coisa existia? Qual o meu papel como blogueira e jornalista? Qual a minha implicação frente ao objeto que descrevo?

Acho que poucas pessoas têm a oportunidade de refletir sobre o próprio trabalho e uma série de circunstâncias me fizeram ter a sorte de ser uma delas.

Em mais de três anos de blog eu escrevi algumas centenas de textos, recebi algumas dezenas de comentários e vi o número de visitantes do Eu mundo afora chegar a cifra dos milhares. Criei twitter, página no facebook, perfil no pinterest e tentei manter o meu leitor sempre informado. Revejo com orgulho tudo o que criei, mas com um olhar crítico.

Há algum tempo eu me preocupo consideravelmente com as implicações do turismo. Quase todos os cantos do mundo são possíveis vítimas de um ciclo vicioso que consiste em um lugar ser explorado e relatado por alguém, o relato cair no gosto do público, o público buscar esse lugar, esse lugar se adaptar ao público e assim deixar de ser o que era antes. Esse processo faz com que cidades, paisagens e até mesmo tradições percam as suas peculiaridades. Algumas ilhas da Tailândia, por exemplo, já não podem ser símbolo de calma e tranquilidade. A hula-hula no Havaí já deixou de ser apresentação para se tornar representação, exibida fora do seu contexto habitual.

O processo não é sempre igual e em cada parte há uma série de variáveis. Uma cidade demora anos ou mesmo décadas para se transformar em destino dos sonhos. As vezes ela nunca o será. Alguns povoados não se importam com o fluxo de turistas e não mudam por causa da nova rotina. Outros se adaptam e melhoram.

(Na Livraria Lello, em Porto (Portugal) a maior parte das pessoas entra, dá uma olhada, atrapalha o caminho, tira uma ou duas fotos e vai embora. Nem se lembram que aí se vendem livros)

Ainda que a transformação causada pela atividade turística não seja universal, ela é cada vez mais forte. Exemplos como o fechamento de praias por grandes resorts, a cobrança de entradas para a visitação de igrejas, o aumento considerável do valor dos alimentos e a mudança dos hábitos da população local visando sua adaptação à rotina turística mostram a influência dessa atividade.

Poder descobrir novas paisagens e conviver com outras culturas é um desses privilégios inolvidáveis. Quem viaja sabe o prazer que é chegar em um local onde tudo é novo. Passar o dia caminhando por ruas até então desconhecidas, observar as estruturas que dão vida ao ambiente, sentir um novo sabor ao experimentar uma mistura de tempero exóticos, ver um mundo de pessoas (in)visíveis, que choram, riem e sentem, quiçá, as mesmas emoções que sentimos. Mas hoje vivemos um grande paradoxo: as cidades se adaptam para receber um turista que, na verdade, quer conhecer este local exatamente por suas particularidades.

A mídia tem um grande poder nisso tudo, não só pela exposição que faz dos destinos turísticos, mas pela forma como se dá essa exposição. Uma pessoa que jamais viu um certo local tende a acreditar no que vê e a sentir o que sente o narrador de tal relato. É preciso pensar mais no que será exibido, ler mais o que será escrito, sentir mais profundamente a alma de um certo local - se é que ela existe - antes de apresentá-lo ao público.

Em busca de respostas para esse monte de perguntas, resolvi deixar o blog parado por um tempo. Prefiro esperar a continuar com a mesma fórmula que, para mim, já não faz sentido. Não vou apagar nenhum texto, sequer mudar seu conteúdo. Vou reorganizar e recomeçar. Aguardem!

19 comentários:

  1. Sabe que quando fui a Bali me deparei com um lugar totalmente diferente daquilo que imaginava, o turismo desenfreado mudou a ilha e para encontra-la na sua forma mais rica, é preciso olhar com calma, nos pequenos detalhes, para ver que apesar de escondida, a cultura e a religião se encontra nas pessoas!
    Entendo sua busca de respostas e talvez elas não apareça, mas não deixe de blogar e ajudar os turistas a terem consciência do porque se viaja :)

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    1. Oi Mirella! Difícil isso né? Concordo com você que é preciso olhar os detalhes. Ainda que a maioria não o faça, tem muita gente comprometida com esse turismo mais rico em experiências.

      Não vou parar de postar, não. Se fosse esse o objetivo seria um post de despedida, e não de até logo. Estou buscando a melhor maneira de adaptar o blog a minha visão de turismo. Não demoro ;)

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  2. Reflexão interessante e oportuna. Tenho lido algo semelhante em outros sites e blogs a respeito de lugares que têm que entrar "no quadrado" para entrar no cenário do turismo e, depois, perdem este mesmos turistas que não querem mais visitar algo quadrado...
    Tive um sentimento nesta linha quando visitei Praga. Senti que a cidade estava muito "quadrada" e cheguei a me assustar quando me convidaram para conhecer a "Rodeo Drive" de Praga. Algo diferente e bem mais pulsante aconteceu na mesma viagem quando visitei Budapeste e consegui absorver bem mais da cultura e da história daquela região com pessoas mais autênticas e menos "conformadas"...

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    1. Interessantíssima a sua experiência, Drika!
      Esse tipo de situação faz a gente refletir e torna a viagem ainda mais rica!

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  3. Acho que você deixou a parte ruim pesar mais do que tudo, Juliana (aviso que eu sou uma otimista).

    Sim, o turismo pode trazer muitos problemas, mas também traz benefícios. Existem países e cidades que com o turismo conseguiram melhorar e muito a vida da população. Vários países no Caribe por exemplo, que não são ricos em recursos naturais e tem população com pouca educação só estão conseguindo melhorar a sua economia e tirar as pessoas de pobreza com o turismo. A República Dominicana por exemplo, que divide a ilha com o Haiti, é um destes países. Pode-se argumentar que os resorts estão deixando o destino "quadrado", sim, pode até ser. Mas que o turismo move o país e emprega grande parte da população, melhorando a sua vida, isso é inegável (até mesmo muitos haitianos trabalham na RD).

    Como tudo na história do mundo existe uma evolução, é só olharmos pra trás que vemos como o homem primeiro destruiu e depredou, conquistadores destruíam a cultura dos conquistados, só depois de muito tempo que se começou a preservar. Acredito que o turismo segue pelo mesmo caminho, os destinos vão começar a se preocupar mais e mais em se preservar e manter a sua identidade, mesmo oferencendo uma infra-estrutura turística melhor.


    E com turistas na era de informação cada vez mais bem preparados, tendo interesse de pesquisar antes de viajar, os destinos poderão cada vez mais se manter como são, autênticos. Esse novo turista não é igual ao turista de antes, que se conformava em ver tudo da janelinha do ônibus de excursão. Ainda existe o turista antigo, certamente, mas o processo de mudança está acontecendo...e os blogs fazem parte desse processo, de levar informação a esse novo turista.

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    1. Não deixei o lado ruim me contaminar não, Lu. Como disse no comentário da Mirella, se eu tivesse em estado de desilusão total esse post seria de despedida e não de até logo!

      A questão é que o turismo traz muitas coisas boas, mas também traz coisas ruins e como agentes de comunicação não podemos fechar os olhos para isso. Vários destinos melhoraram com o turismo, mas será que as mudanças foram boas para todos? Quem ganha com o turismo? A verdade é que as vezes a gente só tem uma versão das coisas e esquece que existe muita gente sem voz. Isso da República Dominicana é genial. Mas eu não acho que isso melhorou a vida deles de forma "inegável". O melhorar de vida é uma coisa muito pessoal e hoje em dia somos levados a acreditar que ao ganhar um salário e um contrato essas pessoas estão melhorando de vida, mas se escutamos o que elas têm pra dizer talvez não seja assim. Ou talvez elas achem que melhoraram de vida porque foram levadas a acreditar que isso é melhor... mas muitos resorts não criam empregos, e sim exploram a mão de obra local (um simples exemplo: http://www.cambio21.cl/cambio21/site/artic/20120206/pags/20120206162501.html)

      No meu ponto de vista (e respeito o seu, caso não seja igual) um turismo responsável é um turismo que leva mais em conta a própria população que o os turistas. Eu já trabalhei com comunidades pobres e populações de periferia e digo que o avanço do turismo, para essas pessoas, faz pouca diferença. Claro que há bons exemplos, da mesma forma que há exemplos horríveis que eu poderia citar aqui. A questão é que eu, particularmente, sempre me surpreendo mais com a vida pulsante que há em uma cidade fora do roteiro turístico comum e me perguntou porque falar de museus já vistos e revistos se eu posso escrever sobre feiras de ruas ou espaços alternativos. Ou mesmo fazer um post sobre um palácio muito famoso, mas por outra ótica e não pelo simples visitar.

      Então, de certo modo, esse post é mais uma reflexão pessoal que eu quis dividir com os leitores e com os vocês, blogueiros, porque devemos parar um pouco e pensar na nossa participação no meio disso tudo. Eu, como jornalista e com as opiniões pessoais que tenho, me vejo no compromisso de fazer um outro jornalismo de viagem (mesmo que eu ainda não saiba o que seria esse tal "outro jornalismo de viagem"), inclusive porque eu acho que tem gente que já faz o básico e o faz muito melhor que eu.

      Ainda vou errar muito nesse caminho... e vou precisar da ajuda de você e dos blogueiros, e de momentos de reflexão como esse!

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  4. Concordo com a Luciana, Ju! O turismo às vezes pode ser destrutivo, mas ele pode ser um ótimo agente transformador. E para o bem! Temos que incentivar o turismo sustentável e tentarmos nós mesmos nos tornar turistas melhores. :)

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    1. O que a Lu disse é muito interessante Camila! Também estou de acordo com muitas coisas, principalmente com o fato de que o turista de hoje não é o turista de antigamente!

      O turismo tem muita coisa boa sim, mas temos que ser conscientes das sua conequências. Principalmente nós, blogueiros. Dá uma olhada na conversa com a Lu. Aguardo sua opinião! ;)

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    2. Ju, eu já ando pensand sobre esse assunto há um tempo também, principalmente desde que comecei a pensar em ir ao Sudeste Asiático e me deparei com a situação nas ilhas tailandesas. Essas minhas reflexões renderam um post ano passado no Blog Action Day sobre como podermos tentar minimizar nosso impacto negativo no turismo. Dá uma olhadinha: http://www.viaggiando.com.br/2012/10/blog-action-day-power-of-we.html

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    3. Que legal o post Camila! :)
      Gostei das questões que você coloca e das dicas!
      Temos que fazer com que esses questionamentos estejam sempre presentes na hora de viajar e de escrever nossos relatos!

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  5. Creio que o meu otimismo de um turismo supostamente sustentável caiu por terra diante dos fatos, na maioria dos destinos do Brasil e do mundo. Esse tal de turismo sustentável, sobretudo de grupos, não passa de discurso vazio.
    É como colocar o rótulo "verde" em empreendimentos capitalistas que são verdadeiros crimes sociais e ambientais.
    Há cerca de 3 anos, quando ainda não sabia bem o que publicar em meu blog, copiei de uma página da América Central esses textos abaixo que dão uma luz sobre o mito progressista do turismo.
    Traduzi livremente e publiquei em 4 partes. Vale a pena ler e refletir.
    Aí vai a primeira parte:
    http://viajantesustentavel.blogspot.com.br/2010/06/o-turismo-e-seus-mitos-parte-1.html
    Abraços.

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    1. Adorei o texto! Vou ler as outras partes ainda hoje.

      As vezes bate um desespero em pensar que 90% das empresas/organizações/pessoas usam o discurso do sustentavelmente correto em vão... A questão é que eu sou bem otimista e há bons exemplos por aí, principalmente no que diz respeito ao próprio turista, que está cada dia mais consciente.

      Vamos trocando figurinha!

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  6. Refletir sobre nosso trabalho é, antes de tudo, um sinal de maturidade. Muitas estatísticas mostram que nós influenciamos o turismo e, portanto, temos um papel importante e uma responsabilidade grande.
    Escrevemos e emprestamos nossa credibilidade aos leitores e isso pode e deve ser usado em benefício de um turismo melhor, mais consciente. No ano passado houve postagens mensais sob a tag #TurismoemDebate, idéia do Maurício Oliveira, que discutiu essa temática.
    Penso que é neste caminho que devemos trilhar.
    Aguardamos sua volta,
    Grande abraço

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    1. Eu volto daqui a pouco Jodrian! :)

      Estou organizando melhor o blog porque com respeito a temática do que entra ou não no Eu mundo afora já tenho bem definido na minha cabeça. Eu lembro das postagens do #TurismoemDebate e acho que a discussão é o caminho!

      Obrigada pela força. Grande abraço!

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  7. O sentido dessa discussão é que nos moverá à todos, num momento ou outro, em busca de um sentido mais coletivo em tudo o que fazemos. Pensar, sentir, discutir e cloncluir (ou não), como disse o Jodrian são sinais de maturidade, tão importante na vida.
    O turismo sempre irá alterar a vida das populações, mas isso pode ser encarado também pelo lado positivo, com implemento da renda, das condições de vida.Gosto quando chego num local e uma familia realizou o sonho de mandar um filho para a faculdade, percebo o orgulho quando dizem que vão dar aquilo que não tiveram, a autoestima engrandecida. Podemos pensar que é tão maravilhoso lugares selvagens e intocados, cheios de locais vivendo como nossos antepassados, mas será que é o desejo da maioria? Não nos cabe tais respostas.
    Desejo que todos possam visitar os lugares lindos que existem por aí, que pudessem ver parte do que já vi, vivi e senti. Se farão isso com gosto, com razão de ser, caberá a cada um. Quando escrevi o post sobre as estações de metrô de Lisboa uma pessoa me perguntou se não tinha outras coisas legais lá sobre o que escrever! Sabe minha resposta: não esperava me encantar com o colorido, assim simples, despretencioso. Fui na busca de sensações, muito mais do que correr de atração em atração. Fui passear e como gosto de dizer, de caminhar com os cabelos ao vento por aí!!
    Gosto muito do seu trabalho, assim como tantos outros, mas quem deve estar a vontade com ele é você. Saiba que ele é inspirador, permite que a gente possa viajar na sua viagem e isso é tudo de bom!! Para mim resta dizer que espero que retomes o mais breve possível.
    Abraços,
    Paula do Mochilinha

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  8. Como toda atividade econômica, o turismo acarreta benefícios e malefícios. E neste "jogo" acho que os blogs também podem ajudar ou piorar a situação. Cabe a cada um, tomar a responsabilidade nas mãos, e tentar tomar o caminho que lhe pareça mais correto.

    Mas o que eu queria mesmo dizer é: Não demore muito para voltar a escrever :)

    Beijos

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    1. É verdade Patrícia. Cabe a cada um de nós refletir (muito) sobre o que estamos fazendo e pensar não só no que queremos, ou no que querem os nossos leitores, como também no nosso papel para o desenvolvimento do setor e o bem estar de todos os envolvidos com o turismo!

      Obrigada pela força! Vou voltar já já ;)
      Beijos

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  9. Olá,
    Tudo bem?

    Meu nome é Vinicius, queria parabenizar o Eu Mundo A Fora. Ando visitando muitos blogs relacionados a viagem por motivos de trabalho e o seu me chamou a atenção pelo qualidade do conteúdo.

    Acho que você fez um ótimo trabalho com ele e gostaria de propor uma parceria; sou ligado a uma seguradora de viagem, e estamos sempre buscando sites interessantes para fecharmos parcerias de infográficos, artigos, etc.

    Estaríamos muito interessados em nos associarmos ao seu site!

    Já temos algumas ideias de posts que poderíamos escrever especialmente para seus leitores, com assuntos relacionados à dicas de lugares radicais, em torno do mundo ou alguns infográficos como o que está em anexo.

    O que você acha, podemos conversar mais? Seria um prazer conhecer melhor a equipe por trás do Eu Mundo A Fora, e criarmos conteúdo interessante para seus leitores!

    Agradeço desde já.

    Abraços,

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  10. Estamos com uma nova ferramenta de comparação online de preços e coberturas de assistência de viagem e seguro de viagem nacional e internacional. Esperamos sua visita. http://www.seguroviagemideal.com.br

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