sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Impressões sobre Brasília

Brasília sempre foi um ponto de interrogação na minha cabeça. Em primeiro lugar, porque cada um tem uma opinião diferente sobre a cidade. Bonita, feia, grande, pequena, palco de transformações políticas, espaço inócuo... ninguém sabe ao certo. Em segundo lugar, porque as opiniões das quais as pessoas concordam são feitas puramente de esteriótipos. E eu não acredito em esteriótipos (ao menos que eles sejam meus =P).


Finalmente conheci a capital do país e tive a oportunidade de passar todas essas questões a limpo. Durante a viagem, conversei com brasilienses e turistas sobre a cidade, sem saber ao certo se as minhas impressões seriam as mesmas até o último minuto. Ao repassar melhor todas as experiências e ver as fotos que tirei, posso dizer algumas coisas.

Brasília é incrível. Em quatro anos, aquele deserto, seco, totalmente plano, se transformou em uma cidade com recursos e serviços suficientes para assegurar a vida de milhares de pessoas. Claro que a construção da capital federal trouxe outra série de problemas (como dívidas públicas, deslocamentos forçados e expulsão de grupos indígenas). Ainda assim, eu me assusto ao pensar que em 62 anos de vida a cidade passou de alguns povoados para 2,5 milhões de habitantes.

(A maquete vista de frente. Aqui perto, a cabine do piloto. Ao fundo a cauda do avião. Dos lados, as asas)

Outro fator que me deixou admirada é o planejamento urbano. Brasília é a cidade mais organizada que já conheci na vida. Para quem não é muito bom com mapas (como eu) vá no Espaço Lúcio Costa, na Praça dos Três Poderes e gaste pelo menos meia hora observando a maquete do Plano Piloto. O corpo do avião, conhecido como Eixo Monumental, guarda as principais obras arquitetônicas da cidade. Nas asas, conhecidas como Eixo Rodoviário, estão os bairros nobres. E apesar das separações, tudo é simétrico: o número de ruas, o número de quadras, os tamanhos das quadras, a quantidade de edifícios em cada uma dessas partes... O planejamento está até no nome das ruas, que trazem números ao invés de flores da Amazônia ou de generais que não conhecemos. Apesar de os nomes dos quarteirões parecerem placas de carro, eles são muito mais inteligentes pois identificam matematicamente onde a pessoa se localiza.

(O resultado tão almejado por Lúcio Costa, visto da torre de TV bem no centro do Eixo Monumental. Simetria perfeita)

A única parte confusa é o funcionamento do governo local. Lembro que passei bons minutos com meu amigo tentando descrever Brasilia. O que ela é? Capital, município ou cidade? O que poucos sabem é que o Distrito Federal não tem municípios, mas sim regiões administrativas, e apesar de Brasília ser uma cidade, ela não é gerida por um prefeito, mas por um administrador. Só se vota de 4 em 4 anos, no governador do DF que, por sua vez, escolhe o administrador.

Brasília é um espetáculo arquitetônico. E essa afirmação está acima de qualquer suspeita. Ela é moderna e ousada, e vai continuar assim por muito tempo. O Congresso Nacional, o Palácio da Alvorada e até o sino da Catedral são diferentes de tudo o que existe no mundo. É a marca maior de Oscar Niemeyer. Com razão, Brasília é considerada patrimônio da Humanidade pela Unesco.

(Brasília é um delírio para os amantes da arquitetura. Do monumento a JK ao Pombal da Praça dos Três Poderes)

Ela é também a única cidade do Brasil com potencial para ser de primeiro mundo. Por quê? Ela tem espaço. Espaço para construir novas casas, novos edifícios, novas pistas de trânsito. Espaço para implementar metrôs e ciclovias. Pena é ver que o governo não dá a mínima pra isso pois não consegue nem impedir o tráfego intenso na hora do rush...

Geograficamente falando, Brasília é a personificação do Cerrado. Poucas árvores, de tamanho médio, espaçadas. Vez ou outra, viajando pelo Sudeste de carro, via essa paisagem, mas o mais comum era ver árvores típicas do cerrado em grande quantidade, com muitos galhos e folhas fazendo sombra... uma floresta mesmo. Em Brasília eu tive certeza que as fotos de Cerrado que os livros de Geografia tiram são da região centro-oeste.

(Sem mais...)

Inclusive, quando disse que Brasília tinha poucas árvores quiseram me matar. Desculpa mas sim, tem poucas árvores. E o pior é que elas tem poucas folhas e não fazem sombra. Por isso é tão difícil caminhar na capital: não existem áreas de respiro pois os quarteirões são gigantes e as plantas não são o suficiente para dar aquela refrescada. Por falar em clima, Brasília tem uma das maiores amplitudes térmicas que já vi. Você sua desgovernadamente pela manhã, de short e blusa curta, e treme de frio a noite, mesmo de casaco. E isso não acontece um dia só, mas o inverno inteiro.

(Essa é mais ou menos a imagem que me vem a cabeça quando penso em "impessoalidade")

Mas acima de tudo, Brasília é uma cidade impessoal. Alguns fatores: o concreto tomou conta da cidade. Tudo é cinza e o céu, azul, é o único responsável por colorir a paisagem. Grande parte da população tem carro. As pessoas não andam nas ruas. A organização excessiva acabou com o a beleza do caos. Essa tal impessoalidade é algo que difícil retratar pois é menos um fato e mais um sentimento... Em resumo, Brasília não parece ter sido feita por pessoas.

Mas a noite tudo se transforma. Participei da abertura da Cena Contemporânea 2012, ao lado do Museu Nacional Honestino Guimarães, mais conhecido como "o ovo", e parecia estar no meio de um evento internacional. Tinha gente de tudo que é jeito. Brasília é um fruto da migração nacional. O fato de pessoas de todas as partes do país terem abandonado suas casas para morar na capital federal fez a cidade se tornar um colagem do povo brasileiro.

(DJ Donna animando uma das noites na capital Federal. Foto de Miguel Mello, tirada desse link)

A noite, a impessoalidade dá espaço a diversidade Cabelos coloridos, de todos os tamanhos, semblantes diferentes, sotaques de todas as partes do país. Ninguém ali parecia ter saído do mesmo lugar. E cada um fazia o que estava afim: conversava, bebia, dançava do jeito que bem entendesse. Belo Horizonte também é uma capital, mas aqui tem um clima meio interiorano e as pessoas ainda se importam com o que o coleguinha ao lado está pensando do outro. Em Brasilia não tem nada disso. Eu fiquei admirada.

8 comentários:

  1. Juliana, você retratou muito bem Brasília!!!

    Já fui diversas vezes á trabalho, e cada ida descubro um lugarzinho novo, uma cor, um jeito diferente... Gosto muito de bsb, talvez seja uma cidade que não conquiste a primeira vista, mas depois da segunda, terceira e por aí vai...

    Beijos

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    1. Você está coberta de razão Érika!
      Talvez não seja da primeira, mas da segunda ou terceira...!
      Beijos!

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  2. Oi Ju,
    Visitamos Brasília uma vez só, e a primeira coisa a dizer sobre o post, é que está excelente. Vc conseguiu escrever sobre a cidade com um olhar det turista mas também com propriedade sobre as peculiaridades locais, parece que vc passou muito tempo vivendo lá. A sensação que tivemos foi de um leve "estranhamento" mesmo. No primeiro dia estávamos sem carro, e sentimos como a infra estrutura de transporte é complicada. Não é uma cidade planejada para pedestres. Sentimos também que parece uma cidade fantasma no final de semana (quando chegamos), você anda, anda, anda e não encontra ninguém nas avenidas...E o ar seco, a falta de árvores, tudo isto foi diferente...Mas depois, como você comenta, na volta da outra viagem, alugamos um carro, era dia de semana e percorremos os pontos principais, e pudemos sentir a diferença.Tudo cheio, conhecemos os Shoppings, os monumentos, tudo era cheio de vida e... organizado! Como a Érika comenta, ela vai se mostrando aos pouquinhos...
    Bjos!
    Marcia

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    1. Que ótimo relato Márcia!
      Pois é, no primeiro dia eu já percebi a sorte de ter amigos com carro para conhecer a cidade porque seria bem difícil me locomover só com transporte público!

      Não fiquei em Brasólia no fim de semana pois fui pra Chapada dos Viadeiros (mais detalhes nos próximos posts... heheheheh), mas como disse, a hora que senti que a cidade era mais viva foi a noite. Incrível!

      Beijos!!

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  3. Tô indo estudar 1 ano em Clermont-Ferrand e fui esse fim de semana pra Brasília tirar o visto. Adorei a cidade, achei uma experiência bem diferenciada e você a descreveu muito bem. Aguardo os próximos posts, pois não tive oportunidade de deixar o plano piloto e me aventurar pelo estado de GO.

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    1. Ahhh não sei se me comovo mais por Brasília ou por Clermont... Heheheheh!

      Fico feliz que tenha gostado do post! Com o tempo vou postando tudo o que vi por lá, inclusive na Chapada Diamantina... uma joia natural do Brasil!

      Beijos!

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  4. Olá Ju! Assim como você, adoro viajar e escrever sobre elas no meu blog.
    Gostei de ler a impressão de um estranho (para mim), sobre a cidade que moro. Engraçado que mesmo nascendo aqui, tenho as mesmas impressões. Algumas coisas não são difíceis de serem notadas. Tudo bate bem certinho com o nosso cotidiano, principalmente a parte de andar a pé ou pegar um bus. Digo que quem mora aqui sofre muito (tipo eu).
    Só tem uma coisa, os coleguinhas daqui, falam do lado (e demais). Odeio esta coisa de se importar tanto com tudo do outro. Talvez, eu note muito por que sou daqui e convivo ou em BH seja maior, mas, acho que isso é coisa de brasileiro mesmo! Que pena! Quando voltar, estamos aí!
    Beijos

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    1. Que interessante a sua visão sobre esse fato Pamela!! Eu realmente senti pouco... bem menos do que sinto em BH. Vai ver que é porque fiquei pouco tempo ou porque o festival que participei tinha uma pegada mais alternativa!

      Continue escrevendo e dando sua opinião. Nos mantemos em contato, ok?!
      Beijos!!

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