quinta-feira, 3 de setembro de 2009

5 mil km de bicicleta pela costa brasileira - Personagens (3)

"Ir longe" foi a única prerrogativa para Aurora Noeli Veiga dos Santos, 61 anos, professora aposentada de geografia e história. Ela queria viajar, e ir longe! Até aí tudo bem: com os atuais meios de transporte ir longe é fácil. Difícil é decidir fazer o trajeto de bicicleta. E foi exatamente o que Aurora escolheu.

(Foto tirada desse link)

Ao fim de sua última aula, algumas amigas, também professoras, lhe perguntaram:
- Como é que vai a mais nova aposentada?
- Péssima. Eu nao sei o quê que eu vou fazer da minha vida...
- Ah, tem tanta coisa pra fazer. Tem tricô, hidroginástica, bingo, dominó...
- Ah, mas assim vocês me matam de tanta animação!
- Tu não tens assim, um sonho, uma coisa que quer fazer desde menina?
- Olha... tenho.

Desde menininha Aurora já falava que queria ir longe, muito longe.

- Eu tenho vontade de viajar pra um lugar que eu nunca fui.
- Pra China?
- E eu lá falo chinês? Não, é aqui no Brasil mesmo. Sei lá, tem tanto lugar pra conhecer. Tem Santos, Búzios, Florianópolis, Salvador, Maceió, Recife... Já sei: vou deixar Deus decidir por mim.

Assim, Aurora pegou uma caneta esferográfica e a jogou no mapa do Brasil afixado em uma das paredes da sala. Onde a caneta batesse, esse era o seu destino.

- Fortaleza!
- Dizem que lá e lindo. É só voce pegar um avião!
- Ah, avião não. Tenho medo.
- Vai de carro.
- Eu não dirijo.
- Ônibus?
- Mais perigoso do que avião.
- Navio...?
- Tenho enjoô.

Uma viajem de Tramandaí até Fortaleza levaria cinco horas se fosse feita de avião, 4 dias se fosse de carro, 1 semana se fosse de navio. Mas Aurora escolheu uma coisa mais lenta ainda:

- Eu vou de bicicleta!
- Bicicleta?

E partiu. Aurora saiu do Rio Grande do Sul no dia 1º de janeiro de 2003. Batizou sua bicicleta de Serena. "Meu coração batia muito muito forte e eu estava muito, muito emocionada mesmo, mas eu comecei a respirar profundamnte e pensar: não, eu preciso seguir a minha viagem". E seguiu circundando a costa brasileira. De Tramandaí, sua cidade natal, passou por Torres (RS), Laguna (SC), Garopaba (SC), Florianópolis (SC), Camboriú (SC), Caiobá (PR).

Chegando à Ilha do Mel, no Paraná, Aurora parou para pedir informação a um hippie que estava sentado a beria mar vendendo suas pulseiras.

- Moço, por favor, por aqui eu vou pra Paranaguá?
- De qualquer lugar a gente pode ir pra qualquer lugar, sacou?
- Profundo...
- Tive outra sacação: não é voce que anda pelo mundo. é o mundo que gira e você passa pelas coisas, entendeu?
- Ahn...
- Veja só que sincronicidade: eu escrevi uma poesia para uma amiga que eu ia mandar pelo correio, mas a vovó me deu uma ideia.

Ele disse: "num tem maneira mais original de mandar uma carta do que pela senhora. A senhora aceita levar um carta para uma amiga?"

- Levo ué!
- Mas ela mora longe...
- Quê que tu chama de longe?
- Recife.

Aurora nem pensou e disse: "tudo bem, não tem problema. É minha rota. Eu vou passar por lá. Se Deus quiser eu vou entregar a carta pra sua amiga". E seguiu viagem. Depois de Ilha do Mel Aurora e Serena passaram por Santos (SP), Ubatuba (SP), Trindade (RJ), Cabo Frio (RJ), Búzios (RJ) e chegou a Guarapari (ES). De lá conversou com suas amigas por telefone.

-- Como assim Aurora? Mais cartas?
-- Pois é. Eu contei a história do hippie da Ilha do Mel em Niterói aí me deram mais uma. Depois em Marataízes me deram mais outra, depois...
- E aí, tu vai entregrar todas?
- Faça chuva ou faça sol!
- Hoje tem um ano que tu saiu daqui sabia?
- Sabia. Ah, mas ta indo tudo bem, graças a Deus. Um dia eu volto.

Desligou o telefone e resolveu parar um moço ao seu lado:
- Por favor, é por aqui que eu pego a BR?
- É só seguir a vida toda por aqui.
- Tá, obrigada.

"Um ônibus me atropelou em plena via pública", lembra. Aurora foi obrigada a atrasar sua viagem. Foi direto do asfalto para o hospital. Quando acordou não reconhecia aquele local, muito diferente do trajeto habitual que incluia ruas, vegetação e, de vez em quando, vista para o mar.

- Onde que eu estou?
- No Espírito Santo?
- Eu morri?
- No estado.
- Ahhh... Graças a Deus. Quando é que eu vou poder ir a Fortaleza? É que eu estou viajando de bicicleta?
- Bicicleta nem pensar! Você vai ter que me prometer que vai voltar pra sua casa.
- É lógico...

Continuou o trajeto assim que chegou no hospoital. Vitória (ES), Santa Cruz (ES), Conceição da Barra (ES), Itaúnas (ES). Em Mucuri, na Bahia, o caminho parecia ficou um pouco mais confuso:
- Gozado Serena, a gente ta que ta rodando aqui há um tempão, nesse mesmo lugar.

Aurora tinha se perdido no meio de uma mata de eucalipto e não conseguia mais achar a saída.

- E agora meu Deus, como é que a gente sai desse labirinto? EI! ALGUÉM! EU QUERO VOLTAR PRO ASFALTAO! Calma Serena, calma. Olha, o jeito é a gente fazer uma oração bem caprichada. "Oh meu deus. Olha aqui ô. Eu estou aqui, eu preciso da sua ajuda. Me ajude por favor".

Um homem surgiu do meio do nada. Não era um príncipe encantado. Pelo contrário, era grande, gordo e tinha uma facão.
- Ai, to perdida - ela pensou.
- Ta mesmo.
- Essa faca aí...?
- É pra cortar.
- Então seja rápido por favor.
- Ahn?
- Essa faca aí num é pra cortar o meu pescoço?
- Não, isso aqui é pra cortar os palmito que tinha ali atrás. Aí eu ouvi seus grito e resolvi ajudar a senhora a voltar pro asfalto.
- Ai meu Deus, muito obrigada! Obrigada moço.

Naquele momento ele foi mesmo um anjo da gaurada caído do céu porque naquele lugar não tinha ninguém, não morava ninguém. Depois do apuro, Aurora e Serena passaram por Aracajú (SE), Maceió (AL), Recife (PE), João Pessoa (PB) e Natal (RN). "De Tramandaí, Rio Grande do Sul, a Fortaleza, Ceará, eu levei quase 3 anos para chegar". Quando viu a plaquinha que indicava "Fortaleza - 5 km" se encheu de alegria. Atravessou a divisa dos municípios como quem ganha uma medalha olímpica.

- Levou tres anos, mais de mil dias, mas a gente chegou Serena. Ai, eu nem acredito que eu fiz isso. Desculpa Serena, nós fizemos. Olha esse mar Serena, que lindo, dá até vontade de chorar...

Mas Aurora não vai parar por aqui: ela ainda vai levar sua bicicleta por mais um caminho. "Agora, tenho uma grande vontade de conhecer a região Norte e a partir da região Norte, de Boa Vista, pretendo ir para Caracas, na Venezuela. Depois Cuba, México, descer a América Central e a América doSul". Até um dia retornar a sua casa.

Essa história apareceu em uma edição do programa Retrato Falado do Fantástico. A partir do vídeo, adaptei à minha maneira. Para quem quiser ver o original (que de fato vale a pena) clique nesse link

2 comentários:

  1. Tô adorando o jeito como vc está driblando a época de não-viagens heheh

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  2. Essa história é muito linda...pena que não consegui ver o vídeo...ainda quero encontrar a Dona Aurora pelo meu caminho!!!

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