
(O sol, as cores e o flamenco. Estão todos juntos em qualquer canto da cidade. Foto tirada desse link)
Mas fui surpreendida. Sevilha é uma cidade de encher os olhos. As construções históricas como a linda Plaza de España, os prédios coloridos a perder de vista, o chão de pedra por vezes irregular, as laranjeiras apinhadas de frutas e o flamenco que saía dos restaurantes de tapas e invadia as ruas docemente. Isso sem contar naquele povo de fala peculiar que faziam tudo sem pressa nenhuma. A Espanha está aqui.
Várias cidades em uma só
Chegamos às 6h da manhã na rodoviária Plaza de Armas, um pouco desconjuntados pelas horas de sono dentro do ônibus. Fomos tomar café no tradicional bairro de Triana, famoso por ser o berço de alguns dos mais famosos toureiros, cantores e dançarinos de flamenco do país. O local sempre foi marcado pela presença significativa dos trabalhadores das classes menos abastadas da cidade e do povo cigano Romaní, o que fez o bairro se dividir entre la cava de los civiles e la cava de los gitanos. Hoje os ciganos são poucos pois foram expulsos do local em 1970. A história oficial conta que a culpa foi da pressão imobiliária, mas dizem que, na verdade, a pressão veio mesmo do governo fascista de Franco.
(Imagem desde o centro de Sevilla. Vê-se o rio Guadalquivir e a calle Betis, uma das mais famosas ruas de Triana. Foto tirada desse link)Dessa vez nada de albergue. Seguimos de carro até o apartamento do irmão do nosso amigo, com espaço mais que suficiente para nós cinco. Tínhamos pego o ônibus de madrugada exatamente para não pagar mais um dia de albergue, dormir no ônibus e acordar prontos para passear na cidade. Mas a cama parecia irresistível demais e acabamos dormindo.
(Uma cidade horizontalmente pequena e cuidadosamente vaidosa. Foto tirada desse link)Acordei por volta de meio dia com o sol no meu rosto. Fazia 19º graus. Há três dias eu estava batendo queixo em um frio de -5º e agora, de uma hora para a outra, eu andava nas ruas sem sentir os meus pés congelarem. Aqueles dias de sol no meio de dezembro já valeram os euros gastos com a viagem. E enquanto andava pelas ruas aproveitando o clima, me deparava com um lugar mais que especial.
Sevilha é uma das cidades mais importantes do país desde a História Antiga. Passou por momentos bons e momentos de crise até que em 1492 se tornou o centro econômico do império espanhol e passou por um grande desenvolvimento. Nessa época foi construído grande parte do centro histórico da cidad. A ascensão de Sevilha durou até a crise do século XVII, pois a partir dessa data grande parte da força comercial se transferiu para Cádiz, sem contar na nova epidemia de peste que assolou a cidade e matou cerca de 60 mil pessoas, quase a metade da população.
A cidade foi se recuperando com o tempo. Hoje é a quarta maior do país e se destaca em diversos quesitos. O turismo com certeza é um deles. Isso sentimos por conta própria quando começamos a andar pela cidade. O Palacio de San Telmo foi o primeiro edifício a chamar a atenção, principalmente por causa das cores vermelho e amarelo da sua fachada. A construção em estilo gótico começou em 1682 com o objetivo de ser um colégio-seminarista. Mas o local foi um verdadeiro faz tudo e serviu a Sociedade Ferroviária, a Universidade de Literatura e até à residência oficial da família Borbón. Na década de 1990 o local passou então por uma série de reformas para abrigar a Junta de Andalucía.
Com o terremoto de 1365, a Giralda perdeu as esferas de cobre que coroavam a torre. Por isso que os dois terços inferiores datam ainda do século XII e o terço superior foi feito no século XVI. A estátua no alto do miranete representa a fé e foi a última peça instalada pelo arquiteto Hernán Ruiz a pedido dos responsáveis pela catedral. As pessoas passaram a lhe chamar "giralda", palavra que significa "cata-vento com forma de figura humana ou animal". Com o tempo, o nome passou a respresentar toda a torre e a estátua em si passou a ser conhecida como Giraldillo.(A visão que só o Giraldillo tem da cidade. Foto tirada desse link)
Colado ao miranete árabe, uma catedral de inspiração gótica. A Catedral de Santa Maria da Sede de Sevilha começou a ser construída em 1401 após a demolição da antiga Mesquita de Alfama. Por ego ou por revanche, a direção católica fez questão de fazer uma grandiosa o suficiente para se impor a antiga construção muçulmana. E assim nasceu a maior igreja gótica do mundo. Como sua construção durou anos a fio, além do estilo gótico é possível encontrar traços renascentistas, barrocos e neogóticos.
(Uma catedral de um quarteirão inteiro. Foto tirada desse link)O melhor de Sevilha
Depois do passeio pelo centro histórico nos embrenhamos nas ruas do bairro de Santa Cruz, um dos mais bonitos da cidade. O bairro é um verdadeiro labirinto de ruas estreitas que, propositalmente ou não, criam correntes de ar e ajudam as pessoas a se refrescarem do calor. Isso sem contar o grande número de laranjeiras com sombras a dar e vender.
E por falar em laranjeiras, vocês não acharam que eu ia sair de lá sem experimentar ne? Eu escutei mil vezes que elas não eram para comer. "As laranjas das ruas são azedas. As pessoas só usam para fazer doce, ou nem isso". Mas sei lá, vai que eu dava sorte? Não dei. Elas são mesmo um porcaria.
Servem mesmo para dar graça ao bairro, que começou a tomar forma ainda no século XIII, quando o rei Fernando III de Castilla conquistou a cidade. Ali se concentrou a comunidade judia que construiu casas sem muita riqueza de detalhes, mas bastante originais. As paredes brancas têm suas bordas pintadas em tons amarelo ou vermelho e muitas das janelas e varandas são adornadas com flores de ferro. A surpresa maior, porém, está entre uma rua e outra. Uma das características mais marcantes de Santa Cruz são os pequenos pátios e praças que aparecem vez ou outra, como a Plaza Doña Elvira, na qual paramos para descansar e tirar algumas fotos.
Mas o melhor ainda estava por vir. Voltando um pouco à história de Sevilha, a cidade deixou de ser o centro econômico do país no século XVII, logo depois das grandes navegações. Na sua recuperação, dois momentos foram decisivos. O primeiro aconteceu em 1929, com a Exposição Iberoamericana, e o outro em 1992 e a Exposição Universal. Ambas tinham como objetivo a modernização, o fomento ao turismo e a exposição ao mundo das potencialidades da cidade.
Na última foi construído um enorme parque tecnológico com tudo de mais moderno que o mundo sabia fazer até então. Hoje, o local abriga o parque temático Isla mágica que, assim como a Exposição Universal de 1992, tem como tema o descobrimento das Américas. Na primeira, ao invés da criação de bairro, foram criadas diversas atrações ao longo da cidade. É aí que entra o monumento mais bonito que eu já vi em toda a minha vida: a Plaza de España.
O local é um semi-círculo com 50 mil m² de pura beleza. Em volta de toda a praça há um enorme prédio de cor alaranjada, construído com tijolos e decorado com mármore e cerâmicas coloridas. Nas pontas norte e sul da praça há grandes torres e do pátio do palácio saem quatro pontes que levam enorme espaço aberto destinado a recreação, passeio, exposições e apresentações. Embaixo das pontes, um rio artificial no qual as pessoas podem andar de barco.
O local começou a ser construído em 1914 e era a obra que mais tomou tempo, esforço e dinheiro do governo da época. Criticaram o tamanho do monumento, o porquê da sua importância e até a criação do rio artificial, já que Sevilha sempre sofreu com a escassez de água. Aviso aos antigos indignados: valeu a pena.
Saí dali extasiada. Voltamos ao apartamento para tomar banho e sair para aproveitar a noite. Mas o lazer aqui merece um post separado.
Anda !! nunca habia leido una reseña tan interesante de Sevilla !! .. Gracias a ti, Sevilla figura entre mi lista de ciudades por conocer !!! Felicitaciones, muy buen post !!
ResponderExcluirAi, que delícia relembrar a lindeza de Sevilha! Vc esqueceu de citar as bicicletas, Ju! Essa cidade é fantástica.
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