terça-feira, 8 de novembro de 2011

Maratona madrilenha

Se eu tivesse que fazer uma lista com os dias em que eu mais andei por uma cidade, 28 de dezembro do ano passado seria um deles (junto com o dia em que fui tirar meu visto no Rio de Janeiro e o dia em que fiquei passeando a esmo por Grenoble a espera de alguns amigos "presos" na montanha). Não sou dada a frescuras e preguiças, muito menos em uma viagem. Acredito ser normal, quase imprescindível, andar uns bons 4 ou 5 quilômetros se você quer mesmo conhecer um lugar em pouco tempo. Mas o que aconteceu em Madrid foi uma verdadeira maratona.

(Prédios charmosos na Plaza de Oriente)

Isso aconteceu por dois motivos. O primeiro era o fato de que tínhamos que deixar o albergue antes do almoço e não teríamos aonde ficar depois. O segundo, e mais importante, era que tínhamos somente um dia para conhecer uma capital inteira, pois meia-noite estaríamos embarcando para Sevilha. Assim, arrumamos nossas malas e perguntamos se podíamos deixar as mochilas no albergue e voltar às 10h da noite para pegá-las. Conseguimos o favor sem custo adicional.

O dia estava lindo. Frio, sem sol, mas com um céu azul que só vendo. Não tinha ideia de onde começar. Estava pronta para subir de novo e perguntar à dona do albergue quais lugares ela nos recomendava passear quando me lembrei como é bom tem um homem - com mapa - no grupo. Passamos por ruas que misturavam a arquitetura de diferentes séculos. Os edifícios eram beges, rosas, amarelos, vermelhos, mas ainda assim, clássicos.

Chegamos então à Plaza de Oriente, localizada no centro histórico de Madrid. O espaço foi desenhado em 1844 e está cheia de passeios e belos jardins. No centro, uma estátua do século XVII famosa por ser considerada a primeira estátua equestre do mundo. Nela está representada o antigo rei Felipe IV. Não bastasse a praça ser um charme por si só, ela ainda está cercada por algumas das construções mais importantes do país, como o Teatro e o Palácio Real, residência da família real espanhola. Peraí. Família real?

(Estátua equestre e palácio real ao fundo... uma pequena parte dele)

Todo um império

Fiquei uns cinco minutos brigando com o Teichmann e pedindo para ele parar de me fazer acreditar que a Espanha ainda vivia uma monarquia. Então fui no fundo do meu cérebro na tentativa de rastrear antigas aulas de histórias e reportagens sobre o assunto... Foi quando me dei conta de que ele estava certo. Tinha me esquecido completamente que a Espanha tinha uma família real com direito a rei, rainha, herdeiros, luta pelo poder e ego inflamado.

(Em todo o passeio do Palácio, estátuas humanas tentam ganhar um dinheirinho com os turistas)

Talvez a minha dúvida tenha surgido depois de ter me encantado com uma Espanha até então moderna e independente, dona de monumentos históricos que tomavam novas formas de acordo com os usos que seus habitantes faziam deles. Mas os traços da monarquia realmente estavam lá. A começar pelo palácio... enorme! Uma foto panorâmica não seria capaz de pegar toda a extensão daquele prédio. Não por menos. Com 135m², esse é o maior palácio da Europa Ocidental.

A construção dessa obra faraónica, erguida sob as ruínas do antigo Real Alcázar que pegou fogo em 1734, durou 154 anos. O palácio parece ter duas partes principais. Ao fundo, a residência oficial com seus mais de 3 mil cômodos que incluem centenas de quartos, salões luxuosos e outros tantos camareiros responsáveis por deixar tudo em ordem a pedido da realeza. Na frente, um pátio enorme com poucas plantas para receber eventos e pessoas importantes. Os súditos ficam a tirar fotos.

(O pátio do Palácio)

Descobri mais tarde que realeza atual não mora nesse, mas em outro edifício, o Palacio de la Zarzuela. Assim, hoje, o Palácio Real é usado para reuniões, grandes cerimônias ou eventos. Aos visitantes ilustres, a sorte de poder entrar em um verdadeiro museu e se deparar com obras de artistas como Caravaggio, Diego Velázquez e Francisco de Goya. Aos reles mortais - como eu - tudo isso por 5 euros a meia, com direito a um passeio no jardim que de tão grande se tornou um parque.

Mas outros edifícios e monumentos na capital espanhola também fazem lembrar a realeza. Saindo do Palácio Real pela calle Mayor e depois pela calle de Alcalá se chega à Plaza de Cibeles, aonde está o Palácio das Comunicações. A ideia inicial era construir um prédio de estilo arquitetônico único para abrigar o correio da cidade. O governo então organizou um concurso e aprovou por unanimidade o projeto do arquiteto Antonio Palacios, mesmo debaixo de críticos que diziam que o tal desenho destoava do ambiente. A construção durou cerca de doze anos e ao final foi considerado um símbolo de progresso.

(Hoje, o prédio assume uma série de responsabilidades da prefeitura. Foto tirada desse link)

Ele é mesmo muito bonito. Acima de cada janela há uma escultura bem detalhada, normalmente são brasões cabeças de personagens da época. A estrutura é bastate pontiaguda, principalmente por causa dos diversos e pequenos bastões ao final de cada torre.

E na mesma rua, um pouco mais a frente, está a Puerta de Alcalá, um dos cartões-postais de Madrid. Muitos a comparam com outras que parecem ter servido de inspiração, como o Arco do Triunfo em Paris ou o Portão de Brandeburgo em Berlim. O que poucos sabem é que a Puerta de Alcalá foi o primeiro arco monumental construído depois do fim do Império Romano e, por isso, inspiração para todos os outros.

(Sempre que vejo essa imagem essa música me vem a cabeça)

No mesmo lugar em que ela foi construída havia um monumento similar apesar de bem menos grandioso. Era uma das cinco portas que marcavam as entradas para a cidade de Madrid. Mas em 1788, a mando do rei Carlos III, foi criado o projeto. O ponto de maior curiosidade - ao menos para mim - foi descobrir que as quatro esculturas de crianças lá de cima representam as quatro virtudes cardinais: a justiça, a fortaleza, a prudência e a temperança.

Nem só de classe vive uma cidade

Saímos da centenária história dos reis espanhóis e suas construções monumentais e fomos para outra... ainda mais velha. Ela não era monumental, mas misteriosa. E na verdade parecia inacabada. Grande pilares de pedra que suspendiam um pilar ainda maior formanto duas grandes portas em sequência. Ao fundo, um quadrado de pedra que podia ser entendido como um templo de oração ou ate uma tumba egípcia. Quase.

(A curiosidade do menininho a esquerda é compreensível: no inverno, mesmo sem neve, a água do lago fica congelada)

A construção parecia inacabada porque ela estava, na verdade, destruída. Ela era parte do original Templo de Debod, um templo do antigo Egito com mais de 2.200 anos. Foi erguido a mando do faraó Ptolomeu IV e dedicado aos deuses Amón e Isis, respectivamente, pai de todos os ventos e deusa do nascimento e da maternidade. Mas que raios ele estava fazendo em Madrid? Em 1968 a Unesco fez um comunicado internacional pedindo ajuda para salvar os templos de Nubia que corriam o risco de desparecer devido à construção da represa de Asuán. O Egito doou então quatro dos templos salvos para distintos países. Além de Madrid, Holanda, Itália e Estados Unidos também ganharam um presente.

A fila estava imensa, mas nem foi um problema para nós pois ainda estavamos terminando almoço (vulgo sanduíche do Subway). Lá dentro vimos réplicas de como seria o templo se estivesse perfeito ainda nos dias de hoje. Além das maquetes o local estava cheio de objetos egípcios e imagens de farós e hieróglifos retransmitidas por luz nas paredes marrons do local.



(O monumento ao rei Alfonso e o Palácio de Cristal visto de lado. Dois detalhes em um mundo de imagens bonitas)

Mas o último passeio do dia é, para mim, um dos que mais vale o registro. Se estiver em Madrid, não deixe de ir ao Parque del Retiro, um espaço verde de 1,18km² cheio de construções antigas, estátuas importantes, fontes, lanchonetes, espaços para a prática de esportes e muuuita sombra para descansar. Três pontos merecem destaque. O primeiro é o monumento ao rei Alfonso XII com um lago na frente aonde as pessoas passeiam em barquinhos azuis. O segundo é o Palácio de Cristal, erguido em 1887 e que sempre serviu à manutenção e exposição de flores de todo o mundo (há dois anos, porém, ela passou a receber exposições temporárias de arte contemporánea). E o terceiro, como não podia deixar de ser, é a graça que os jardineiros fazem com as árvores locais: eles as recortam em forma de cones, flores, cérebros e por aí vai...

Adios Madrid!

Saímos ao entardecer e passamos na frente do famosíssimo Museo del Prado, um dos mais importantes e mais visitados museus do mundo. Era 6 euros para entrar, mas uma das exposições gratuitas era de graça até às 19h e faltava quarenta minutos para o fim. Mas a fila estava extremamente gigantesca... eu fui a única a realmente lamentar não ter chegado antes para entrar na fila.

(Museo del Prado lindo de morrer. Pela falta de fila, ainda era bem de manhãzinha. Foto tirada desse link)

Mas tudo bem. Voltamos ao centro madrilenho para comer alguma coisa e... andar ainda mais. Fomos ao famoso El Corte Inglés (uma Galerie Lafayette para todos os gostos, inclusive para os gostos dos mais pão-duros) e outras lojas da cidade e pequenos mercadinhos com souvenirs. Às 22h, voltamos para o albergue, pegamos nossas mochilas e fomos para a rodoviária pegar o ônibus que nos levaria até Sevilha.

(Para entrar em um lugar como esse com um grupo de quatro mulheres é preciso foco)

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