segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Capital injustiçada

– Estou indo para Salvador!
– ...
– Você já foi?
– Sim.
– O que achou de lá?
– Bom... mas um pouco feia, suja...

(Largo Cruzeiro de São Francisco, no centro histórico de Salvador. Lugar onde, diz a lenda, os ambulantes atacam os turistas. Foto tirada desse link)

Esse foi um dos diálogos (por vezes, monólogos) que tive antes de ir pra Salvador, no mês passado. Tentei conversar com várias pessoas. Os que nunca tinham ido não souberam emitir opiniões. Os que já visitaram a cidade, falaram que não gostaram. Só uma pessoa disse que era legal e me indicou alguns passeios... e então descobri que ele tinha nascido lá. Por que raios as pessoas não gostavam de Salvador? Seria feia, suja e chata como me disseram? Viajei decidida a entender. E o que eu entendi é que a capital baiana é uma cidade injustiçada.

Cheguei em Salvador no dia 8 de dezembro com um sol que só a Bahia tem. Como o nosso hotel era no bairro de Ondina, percorremos 30 quilômetros desde o aeroporto. Foi quando tudo o que me disseram sobre a cidade começou a cair por terra. Passamos por ruas feias e bonitas, por bairros pobres e ricos. Alguns muros pichados, algumas calçadas esburacadas, mas muitos prédios interessantes e árvores por todos os lados. Naquele trajeto eu já percebi que nos próximos quatro dias o que eu ia encontrar era uma capital comum, com seus contrastes urbanos e que aquele alarde todo sobre Salvador ser feia era... só alarde.

(O praia do bairro de Ondina. Em uma palavra: simples)

O bairro em que fiquei era simples. Não tinha um mar exuberante, uma orla bem cuidada ou pontos turísticos indicados pelo guia. Era modesta e familiar. Ótima para um banho no meio da tarde ou um passeio sem maiores pretensões. Então pensei: vai ver todas as praias de Salvador são assim, sem grandes atrativos, e por isso as pessoas que esperam praias como as de Trancoso se decepcionam. Mas a teoria foi por água abaixo quando, no mesmo dia, visitamos o Farol da Barra. O mar ali era incrível. A água misturava diferentes tons de azul e estendia-se por quilômetros.

(O sol e o fundo do mar, os culpados pelos vários tons de azul da praia da Barra)

A teoria foi por água abaixo mais uma vez quando, dois dias depois, passeamos pelas praias do Norte, mais especificamente Flamengo, Stella Maris e a famosa Itapuã. Elas têm menos infraestrutura, mas também menos movimento. As águas por aquelas bandas são mais limpas e a natureza mais conservada. Algumas apresentam um colorido particular ao misturar coqueiros verdes e guarda-sóis coloridos. Sem dúvida uma bela imagem.

A prova de fogo seria no dia em que visitássemos o centro da cidade. Sobre o Pelourinho já tinha ouvido coisas horríveis. A primeira recomendação é que eu andasse com a cabeça baixa e não conversasse com ninguém. Qualquer sinal de simpatia seria motivo para um guia ambulante ou mesmo um vendedor de fitinhas de Bonfim me oferecer os seus serviços insistentemente. Uma amiga falou que certa vez o homem insistiu tanto que bradou "essa é de graça" e sem a menor cerimônia pegou o seu braço e foi amarrando uma fita. Depois estendeu a mão e disse: "dois reais". A cara que ele fez foi tão feia que ela nem conseguiu argumentar.

(Eu, ao contrário, tirei até foto da baiana de graça)

A segunda recomendação era que eu não ficasse triste se não encontrasse o centro histórico que esperava, bonito, colorido e bem cuidado. Disseram que antes a cidade era um brinco, mas que de uns tempos pra cá (alguns associam o fato com a saída de Antônio Carlos Magalhães do poder) tudo estava sujo e mal cuidado. Lembro de há muitos anos ter lido uma matéria sobre as ruas da capital baiana terem virado banheiros ao ar livre e que a prefeitura tinha que tomar alguma medida, seja campanha ou multa, para impedir que os homens urinassem em qualquer lugar.

Mas, a despeito de tudo e de todos, encontrei um centro histórico bonito e conservado. Ruas estreitas de paralelepípedo, casinhas coloridas e lamparinas à moda antiga. As grandiosas igrejas ainda chamavam a atenção. Admito que alguns pontos turísticos estavam em péssimo estado de conservação, como por exemplo a Igreja de Santa Bárbara aonde foi filmado "O Pagador de Promessas". Também admito que as ruas cheias de placas e artesanatos pro lado de fora, em uma tentativa constante de chamar a atenção dos turistas e vender mais, me irritou bastante.

(Nada contra o lindo artesanato baiano, claro. Foto tirada desse link)

Com relação aos vendedores ambulantes, nada contra. Ofereceram seu trabalho como em outro lugar qualquer, com a insistência típica de uma cidade que recebe muitos turistas. Os guias também eram numerosos, mas necessários. Vi franceses, italianos, tchecos, espanhóis, americanos... A cada esquina um país diferente e, com eles, um guia turístico que explicava em outra língua as nuances da história do Brasil, que fez de Salvador a capital nacional por mais de 200 anos.

Nesse mesmo dia fui ao Elevador Lacerda e de lá eu pude ver a cidade baixa. Essa parte, sim, bem feia. Não sei se eu diria feia, mas descuidada. Prédios antigos com janelas esburacadas e uma pintura preta de tão velha. Quando desci andei um pouco pelo centro e quando pegamos o táxi para voltar ao hotel, aí sim, vi uma cidade suja e despedaçada. Mas não me chocou. Quem disse que o centro de Belo Horizonte é bonito? Quem disse adora passear pelo hipercentro de São Paulo?

(A Cidade Baixa era pequena, mas com o tempo e a falta de planejamento urbano ela se tornou enorme e em alguns pontos com uma grande concentração demográfica)

Posso ter dado sorte, mas a impressão que tenho é que Salvador merece mais do que andam falando por aí. O estado da Bahia tem uma das culturas mais ricas do país e a capital não fica por menos. A gastronomia é deliciosa, a religiosidade é alvo de músicas e livros e a "cultura culta" é celebrada por artistas de renome. Hoje, Salvador é uma das cidades com os mais fortes núcleos de teatro, dança e música do país (e não estou falando de comédia romântica e axé). Além disso, a cidade mudou muito mas ainda preserva suas belas praias e suas belezas históricas. Um passeio que quem já fez deveria fazer de novo... e relaxar!

3 comentários:

  1. Salvador é linda, mas é quente como o inferno no verão. Desde que você possa dar uma passada na praia isso não é problema algum. =)

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  2. Moro em Recife, já fui a Salvador e não gostei. Já uma amiga minha foi e adorou. Mas recifense é chato e não gosta de baiano, o que contribui muito pra muita gente daqui torcer o nariz quando o assunto é Bahia e qualquer uma de suas cidades. A verdade é que se me perguntassem se Salvador valeria a visita, eu diria que não, que Fortaleza e Natal são mais legais. E quando o foco é o mar e a praia, Pernambuco é muito melhor que todos esses juntos. =P Menos Recife, a praia daqui não é das melhores.

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