terça-feira, 25 de outubro de 2011

Do moderno ao milenar

Uma das maiores virtudes de um grupo de viagem é saber que estar em grupo é sempre mais interessante, mas que as vezes é preciso dar voz aos desejos particulares e seguir sozinho. Era o nosso último dia em Paris e as vontades se dividiam. Fafá queria continuar os lerês e ir ao Louvre. Eu e a Tissi, que já conhecíamos a cidade, queríamos fazer algo completamente diferente. Então fomos juntas até a estação de Metro do Les Pyramides. A Fafá ficou por lá e nós decidimos em ir até o bairro La Défense.

(Em constante crescimento. Foto tirada desse link)

O porquê da escolha é uma pergunta difícil de responder, mas acho que nossa principal motivação foi conhecer um local distante e que não tem exatamente NADA a ver com o resto da capital francesa. Paris é exemplo de preservação patrimonial e para a construção de novos prédios as empresas seguem padrões bastante restritos. O La Défense é o oposto. O local é marcado por dezenas de arranha-céus espelhados, fazendo deste o maior centro financeiro da cidade. Outro fato que o distingue do resto da capital é a sua idade: o bairro é um bebê em comparação à milenar cidade-luz. A primeira torre foi erguida somente em 1966.

O bairro é muito distante, mais especificamente no ponto final da linha 1 dos metrôs de Paris. Quando chegamos ao local me lembro que a primeira coisa que fiz foi esticar o pescoço e levantar bem a cabeça. Fiquei uns cinco minutos só olhando para cima, para a grandiosidade daqueles prédios realmente enormes...

(O Grande Arco. A subida até o teto do arco é mas estava fechada a visitação)

O símbolo do local é o Grande Arco, um arco com 112 metros de altura coberto de mármore branco. Ele foi erguido no ano de 1989 em comemoração ao bicentenário da Revolução Francesa. O projeto é do arquiteto dinamarquês Otto von Spreckelsen, que o considera como uma versão moderna do famoso Arco do Triunfo e, da mesma forma, uma obra em homenagem aos ideais humanitários (não por menos, os dois arcos estão geograficamente alinhados).

Passeando pelo La Défense vimos coisas curiosas, como pequenas construções em formas circulares e uma estátua de um polegar de 12 metros, o Dedo de César, uma das esculturas mais reproduzidas no mundo. No mais, o bairro parecia morto. Não sabíamos se o culpado era o frio, o natal, o dia de domingo... ficamos nos perguntando se valia a pena conhecer o local e chegamos a conclusão de que se você já estivesse cansado da arquitetura parisiense, aí sim, poderia passar por lá.

(Dá um joia!)

Mas se tinha um local movimentado, esse era a Mercado de Natal. Enorme e cheio de lojas bonitas, eu e a Tissi passamos mais ou menos uma hora passeando pelas lojinhas e olhando de tudo um pouco: comidas, roupas, chapéus e objetos com cheiros especiais.

Voltamos ao centro da cidade e depois de uma voltinha pelos sempre belos jardins do Louvre, seguimos ao Museu d'Orsay. Já falei aqui que considero esse o melhor museu de Paris (entre os que eu visitei, claro). Em primeiro lugar, o espaço destinado ao museu é em si uma obra de arte. Foi construído pela Companhia dos Caminhos de Ferro de Órleans para servir como estação ferroviária de Paris, mas também para ser apresentada durante a Exposição Mundial de 1900, por isso todo o requinte. E o local é mesmo exuberante. Suas paredes e teto são totalmente cobertos por flores de mármore e vidros, que oferecem luminosidade natural. O grande relógio na parede de entrada é o ponto alto da sua decoração.

(Atenção para os fotógrafos frenéticos: aqui é proibido e a fiscalização é pesada. Foto tirada desse link)

Mas a estação funcionou até o ano de 1939, quando sua infra-estrutura e seu tamanho se tornaram pequenos para receber a expansão do sistema ferroviário da cidade. O governo voltou os olhos novamente para aquele espaço só em 1973, com o objetivo de fazer um museu reservado à obras da segunda metade do século XIX, período de grande inovação artística. As reformas começaram e o local foi reaberto ao público em 1986, com coleções de pinturas, esculturas, design e fotografias. O lado direito do museu é o que eu mais gosto pois traz artistas da estética impressionista como Van Gogh, Edouard Manet e Claude Monet.



(Sabe aquelas imagens que a gente nas aulas de arte e se pergunta onde estão? Estão lá. A esquerda, auto-retrato de Van Gogh. A direita, Almoço sob o bosque de Manet. Fotos tiradas desse e desse link)

Admito que para entrar sem pagar burlamos a fiscalização...! A França tem uma lógica bizarra. Crianças e estudantes entre 12 e 25 anos sempre pagam meia. O estranho é que em certos lugares, como no Museu d'Orsay, não importa se você é estudante ou não, mas sim que você tenha até 25 anos. E a Fafá tinha 26. Então eu e Tissi passamos, voltamos pro início da fila e entregamos o cartão pra Fafá. Era isso ou 7,50 euros para a entrada.

Voltamos para o hotel... mas eu tinha uma missão: resgatar o Teichmann, um amigo brasileiro que estava morando na Alemanha mas ia fazer a viagem de fim de ano com a gente. Enquanto as meninas dormiam, eu subia e descia a Gare de Lyon com medo de nos desencontrarmos... Até que desisti e voltei pro hotel. Então ele me ligou. Voltei pra estação. Ele me ligou. Voltei pro hotel! Que alegria encontrar com ele!

O Teichmann é uma pessoa peculiar. Já morou na Alemanha por doze meses quando tinha 17 anos, já viajou a dezenas de países da Europa, mas nunca tinha colocado os pés na França. Era pra ele ter chegado bem antes e passeado conosco, conhecido o Louvre, visitado o bairro de Montmartre. Mas uma coisa era a que ele mais queria fazer: subir a Dama de Ferro.

(Chegamos em Paris às 9h da manhã, mas só a noite, quando por uma coincidência nos deparamos com Torre Eiffeil ao fundo a Fafá gritou "Ahhh, eu to em Paris!". Clichê ou não, ela estava certa. Estar na capital francesa é ver a torre)

O símbolo-mor da capital parisiense foi construído no ano de 1889 para a Exposição Mundial de Paris. Anos antes do evento, o governo abriu inscrições para um concurso que iria escolher um projeto de design e arquitetura que fosse capaz de mostrar ao mundo o savoir-faire francês. Gustave Eiffel ganhou o concurso e o apoio... do governo. E só. Dizem que a população não gostou do projeto e achou a torre um tanto quando feia. Mas sua estrutura inusitada e seus 324 metros (foi a construção mais alta do mundo até 1930) chamou a atenção de todos e rapidamente se tornou famosa.

Como sempre, a fila para a subir a Torre Eiffel estava imensa. Mesmo em uma segunda-feira, a noite, no inverno, ela dava voltas. Me esqueci que em Paris sempre é alta temporada. Já era noite quando chegamos lá em cima. A vista continuava linda, mas os pontos turísticos não estavam mais tão visíveis. Demos a volta completa e tiramos mil fotos, mas não demoramos muito para descer pois o vento estava congelante.

(Vista noturna do Champs de Mars do alto da Torre Eiffel)

A pergunta então foi: "e aí francesinhas, pra onde a gente vai agora?". Tínhamos de mostrar Paris para um turista em três horas úteis. E pela nossa experiência o melhor lugar era o Champs-Elysées. A avenida mais famosa da cidade que ostenta o Arco do Triunfo com certeza estaria cheia de gente, de comércio e de atrações àquela hora da noite. Isso sem contar que era o ponto mais bonito (quiça de toda a Europa) para se ver no natal.

Andamos por toda a avenida. Entramos em diversas ruas para ver os monumentos do 8º arrondisement, como o Grand Palais e a Igreja de Santa Madalena. Chegamos até a Place de la Concorde, que guarda uma linda fonte e o famoso obelisco egípcio de 3300 anos, ofertada pelo presidente do país à nação francesa em reconhecimento ao primeiro tradutor dos hieróglifos. Ali também estava a Roda Gigante que a gente via lá da outra ponta da avenida. O preço por cabeça? 30 euros. Demos meia volta instantaneamente e continuamos a andar.

(Roda gigante no final da Champs-Elysées. Ao lado direito, o obelisco egípcio. Foto tirada desse link)

Apesar de ser só o início da nossa eurotrip, nos divertimos como se não houvesse amanhã. Até o frio passou. Andamos uns oito quilômetros em três horas. Passeamos pelas barraquinhas do mercado de natal, conversamos com estranhos, zombamos do excesso de ostentação da capital francesa, subimos em monumentos histórico para tirar fotos e, claro, como não podia deixar de ser com um grupo de brasileiros, não paramos de falar um segundo.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Lindas paisagens (e outras nem tanto) de uma Paris em neve

Depois de uma ceia de natal meio melancólica, fomos espantar a tristeza da melhor forma que um turista poderia fazer em Paris: passeando. Nossa amiga de intercâmbio também estava na capital francesa com seus pais e combinamos de nos encontrar no Jardim de Luxemburgo ,às 11h da manhã. Assim, acordamos cedo, colocamos nossas roupas - o que no inverno significa gastar muito tempo - e pegamos o metrô em direção ao 5º arrondissement, o mais antigo da cidade.

(O Jardim de Luxemburgo, símbolo da região)

Sem querer, passamos por um monte de monumentos históricos. Aliás, a graça de Paris é exatamente essa: a cidade inteira tem um monte de monumentos históricos. É como se estivéssemos em um museu a céu aberto. É só se distrair e... voilà, algo grandioso para ser visto. Foi por causa disso que começamos a brincar que, se houvesse algum prédio ou estátua que não pudéssemos identificar, pelo menos saberíamos que ele é um patrimônio público, com mais de 200 anos de história e que tem relação com a Revolução Francesa.

Entre esses estava o Panteão, monumento em estilo neoclássico construído entre os anos de 1758 e 1790. O prédio foi uma promessa do rei Luís XV à Santa Genoveva, a qual atribuiu a cura de uma forte gripe. O local passou de igreja católica à templo republicano e à museu da história da França, o que faz com que os elementos que marcam sua arquitetura permitam ao visitante percorrer a própria história da França. Hoje, ele serve à honra de importantes personagens e eventos que marcaram o país.

(O local estava fechado a visitação. Uma pena, pois ele parece impressionar tanto por fora quanto por dentro. Segunda foto tirada desse link)

Ao redor, uma série de prédios monumentais (como praticamente tudo em Paris). Mas uma linda construção ali do lado se destaca. A igreja de Saint-Étienne-du-Mont é injustamente pouco cohecida. O estilo gótico não é nem de perto tão bonito quanto o de outros pontos turísticos, por exemplo a Igreja de Notre-Dame, mas a graça está na fachada irregular. A torre de um lado só, as pequenas janelas, os detalhes, ora triangulares, ora redondos, fazem a igreja se parecer a um brinquedo de madeira esculpido a mão.

(A bela e singela Saint-Étienne-du-Mont)

Chegamos então ao Jardim de Luxemburgo. A mim, que o vi no auge do verão, foi um choque. Não me pareceu bonito, sequer charmoso. E não adianta as estátuas no meio do caminho, as fontes congeladas e sequer o palácio de Luxemburgo ao fundo. Jardim que é jardim precisa de verde. A neve que cobria os 23 hectares do local o deixou comum, por vezes sombrio. Sem contar que é impossível ficar ali por muito tempo sem sentir os dedos congelando. Demos uma volta cautelosa para não escorregar naquele rinque de patinação e fomos embora. Entramos no Subway mais a frente para esquentar o corpo. Comemos um sanduíche também, mas o almoço pareceu somente uma desculpa.

Nesse ponto nos separamos e então seguimos pela margem do Rio Sena até chegar à Île de la Cité, onde fica a famosa Catedral de Nossa Senhora, mais conhecida como Notre-Dame. No fundo, ela é uma das igrejas mais estranha que eu já vi. Ela é retangular, com duas torres que parecem inacabadas e não tem nenhuma cruz. Mas ainda assim é uma das mais bonitas. Apesar da sua arquitetura inusitada, as estátuas e os detalhes preciosos da igreja deixam qualquer pessoa boquiaberta. Percebe-se então que os mais de 180 anos de construção não foram jogados fora. Por dentro ela é igualmente bonita. Juntam-se então dois pequenos detalhes: as rosáceas de vitrais. Com 13 metros de diâmetro, são as maiores de toda a Europa.

(No Natal uma grande árvore fica na frente da igreja. Dentro, é possível ver o presépio)

Mas se você achar a igreja de Notre-Dame inusitada, experimente dar uma voltinha do lado de fora. Ela é completamente diferente vista do lado esquerdo ou do lado direito, e ainda mais random se vista por trás, aonde se vê uma torre que liga uma série de arcos com detalhes pontiagudos. O diferente, nesse caso, não quer dizer feio. Na saída, um passeio sem pressa às margens do Rio Sena ainda dentro da Île de la Cité.

(Notre-Dame vista de costas é praticamente outra igreja)

Três em um

Os nossos próximos passos juntavam exatamente a vontade de cada uma de nós. A Fafá queria visitar o Moulin Rouge, a Tissi queria reproduzir os passos da Amélie Poulain, e eu queria voltar a Igreja do Sagrado Coração, o local mais alto da capital francesa e de onde é possível ter uma das mais belas vistas da cidade. Todos os caminhos levavam ao bairro Montmartre.

(Engraçado como, pensando agora, esses passeio dizem muito sobre a personalidade de cada uma de nós)

Paramos na estação Pigalle e fomos direto para o Moulin Rouge. Do lado de fora, ele perde metade do seu glamour quando ainda há luz do sol, sem os néons que cercam a fachada do cabaret. Do lado de dentro, o tapete vermelho e as fotos das modeletes seminuas (ou totalmente nuas) que já se apresentam por ali não deixam a desejar. Infelizmente, não é possível entrar. As portas se abrem às 23h para os endinheirados dispostos a pagar em torno de 100 euros pelo espetáculo.

Fomos então dar uma voltinha pelo Boulevard de Clichy, aonde ficam as sexy-shops da cidade. O engraçado é que a rua parece concentrar realmente TODAS elas. São lojas de diferentes tamanhos para diferentes públicos com tudo o que se pode imaginar. No meio desse mundo de fantasias sexuais e vídeos pôrnos, uma porta levava ao Museu do Erotismo, no qual a Fafá conta tudo no seu blog Norma Lúcia e os visitadores.

Na subida ao Sacré-Coeur fomos passando por pontos que foram cenários do filme Le fabuleux destin d'Amélie Poulain, um dos maiores sucessos do cinema francês. A comédia romântica é uma representação - por vezes idealizada - da rotina dos moradores de Montmartre, bairro que ficou famoso no século XIX por ser ponto de encontro de artistas e intelectuais como Cèzanne, Va Gogh, Renoir e Monet.

(As ruas de Montmartre assim como a Place du Tertre funcionam, hoje, em função do turismo)

Símbolo desssa época é a Place du Tertre, aonde habilidosos pintores reproduzem as paisagens de Paris e também o rosto das pessoas. O local é pouco visitado pelos moradores, mas enche de turistas, fato que faz os habilidosos artistas receberem também o adjetivo de insistentes.

Quando chegamos ao Sacré-Coeur já era noite. Naquele 25 de dezembro, uma legião de fiéis fazia fila na igreja. Apesar do sem número de turistas que passeavam pela basílica, a missa transcorria normalmente, com um silêncio forçado, mas respeitoso. Por isso saí rapidinho. A paisagem do lado de fora já bastava. O branco "insujável" do mármore que recobria a igreja era tão claro que acabava com a necessidade de iluminação. Melhor assim, pois as luzes da cidade lá em baixo pareciam ainda mais fortes. Na volta, uma paradinha no Moulin Rouge enfim iluminado (e glamourouso).

(Estupendo mesmo no escuro)

Como na caixa de bombom

Se minha segunda viagem a Paris valeu por algum motivo, esse motivo foi ver o Champs-Elysées todo iluminado pelas luzes de Natal. Valeu a noite sem a família, a ceia com lasanha de microondas, o hostel de quinta categoria, as batatas da perna doendo, os dedos dos pés congelados. Quando ia ao supermercado de Clermont via a caixa de bombons da Lindt com aquela imagem que a mim era o resumo do natal parisiense. Uma foto não reproduz, mas acredite: é ainda mais bonito que na caixa.

(A caixa de bombons da Lindt e o cenário na vida real. Paisagens de tirar o fôlego. Foto tirada desse link)

O frio parou. Eu não tinha pressa nenhuma de sair daquele lugar. No fim de um dos lados, o Arco do Triunfo. No outro, uma imensa roda gigante. Além das luzes a avenida recebia também um mercado de natal. Ao longo dos dois lados da via tinham barraquinhas de madeira vendendo artesanatos, lembranças, roupas, comidas e bebidas. Sem contar as lojas e restaurantes que ficavam abertos para aproveitar o movimento. Milhares de pessoas passavam pelo local. Escutamos todas as línguas possíveis e percebemos que tinha um mundo de brasileiros por lá, brasileiros que saíram do verão de 40 graus para cair no inverno de -5. Pareciam aproveitar como nós! Era o espírito de natal. Chegou tarde para mim, mas veio naquela noite.

Curtição na capital francesa

Quando os pés moídos e dormentes encontraram a porta de entrada do albergue eles pediram por um descanso. Mas dormir pra quê, afinal? Quando subimos a escada do albergue escutamos uma risada em unísono descer pelos corredores. Logo depois, algumas palavras em português. Paramos na porta, demos um "oi" e pronto, estávamos em casa.

(A noite no Champs Elysées... pena que a avenida ficava a quilômetros (e euros) de distância)

Era um grupo de mais ou menos 8 brasileiros, que juntos com alguns mexicanos iam sair para beber uma em qualquer bar perto do hotel. Recebemos o convite logo de cara. Os bares do nosso bairro estavam todos fechados ou fechando. Parece que a lei de Clermont-Ferrand, se aplicava a toda a França. As boites podem ficar abertas até o amanhecer, mas os bares têm alvará para funcionamento até no máximo 2h da manhã, sendo que a maioria fecha meia-noite. Sentamos no primeiro que encontramos e então foi um falatório só. Enquanto os turistas se aproveitavam do nosso francês, a gente ria da indignação deles com relação aos grosseiros parisienses. Estava na cama de novo às 3h da manhã, torcendo para dormir o suficiente para o próximo dia.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Natal entre amigos e lasanhas

Nunca passei o Natal fora de casa ou longe da minha família. Para mim, 24 de dezembro é um dia realmente especial, daqueles em que deixamos tudo o que não for relacionado ao espírito natalino para trás. Eu normalmente acordo cedo, ajudo minha mãe com as rabanadas, assisto um pouco de TV, ligo para alguns amigos especiais, me arrumo e vou para a casa de algum parente comer uma boa ceia de natal.

(A imagem de uma ceia de natal perfeita)

No dia 24 de dezembro do ano passado eu também acordei cedo... e só. Com muitas roupas de frio, uma mochila nas costas e um bilhete na mão, saímos da nossa residência em Clermont-Ferrand às 5h da manhã e pegamos um trem para Paris, a cidade que escolhemos para passar a noite de Natal.

Apesar de cansada, dormi pouco. Viajar de trem no inverno europeu é incrível. Tenho um quebra-cabeça de uma cidade nevada da qual não sei o nome. É uma cidadela com casinhas de madeira e gelo branco sob os seus telhados. Os postes com luminárias à moda antiga mostram o caminho que um possível habitante pode fazer para para chegar ao lago central. Ao redor, pequenos arbustos verdes, daqueles que conseguem resistir ao inverno rigoroso. Sempre que o montava ficava horas olhando pra paisagem imaginando onde seria. No trem para Paris vi um monte de pequenos vilarejos que podiam ser meu antigo quebra-cabeça.

Três horas depois chegamos à cidade luz. Paris continuava a mesma. Linda como sempre! Alguns lugares perdem completamente o charme de acordo com o clima. Nenhuma cidade que têm praia é tão bonita no inverno quanto no verão. Nenhuma cidade com grandes montanhas é tão interessante no verão quanto é no inverno. Paris está entre o seleto grupo de lugares que não perde a graça em nenhuma época do ano. Com o sol de julho, a graça fica nos jardins bem cuidados e na descontração (por vezes tão rara) dos seus habitantes. Com a neve de dezembro, as casas parecem pinturas e a moda nas ruas ganha elegância.

(Com certeza as pessoas ficam mais elegantes no inverno... mas porque todo mundo tem também de ficar monocor? Foto tirada desse link)

O primeiro passeio

O clima foi a primeira grande diferença entre essa viagem e a que fiz em agosto. Tudo continuava lindo, mas estava tudo diferente. A cidade, que sempre me pareceu bege demais, estava ainda mais monocor. As roupas curtas e coloridas foram trocadas por sobretudos e écharpes de tons nude. Os franceses que me chamaram tanto a atenção pelo uso regular e constante dos espaços públicos agora passavam rápido pelas ruas em busca de um lugar quente.

Agora era ainda mais fácil ver a diferença entre turistas e nativos: nas praças e espaços públicos só tinham turistas, pois os franceses acostumados a aproveitar o sol no meio do ano preferiam esperar até o verão voltar. Em compensação, do lado de fora dos bares e restaurantes, só nativos ou turistas acostumados com o frio, pois nenhum turista (como eu, por exemplo) seria capaz de esperar 40 minutos por um prato e ainda comer do lado de fora. Esses ficavam todos dentro, de preferência perto do aquecimento.

(As ruas de Paris no dia 24 de dezembro)

O frio tornou os passeios mais curtos. Continuamos obstinadas a passa pelo maior número de locais possíveis e andávamos sem parar. Porém, de duas em duas horas procurávamos um lugar quente para descongelar os pés (que mesmo com duas meias e botas ficavam petrificados em contato com o chão) e esquentar um pouco o corpo. Os museus eram as melhores opções.

Por isso o nosso destino final naquela manhã seria a casa de Victor Hugo, considerado um dos maiores escritores da língua francesa, autor dos famosos Os Miseráveis e Notre-Dame de Paris, esse usado mais tarde pela Disney no longa O Corcunda de Notre-Dame. Demos uma voltinha pelo 12º arrondisement, onde estava nosso hotel e passamos pela Place de la Bastille, onde ficava a antiga prisão francesa de mesmo nome. Ali que aconteceu a Queda da Bastilha, um dos movimentos que deu início à Revolução Francesa no ano de 1789. Hoje, no local da prisão foi construída uma enorma praça com um obelisco no meio, em comemoração aos "três gloriosos", três dias de grande agitação durante a Revolução de Julho em 1830.

(Os moradores próximos usam a Place de Vosges para fazer caminhadas mesmo na neve)

Depois passamos pela Rue Saint-Antoine, que mais na frente se transforma na famosa Rue de Rivoli, um dos melhores locais para se fazer compras na cidade. As ruas transversais dão acesso à Place de Vosges, um local realmente peculiar. Ao contrário das praças e jardins normais, abertos e fáceis de serem localizados, a Place de Vosges parece estar propositadamente escondida entre os prédios ao redor. Alguns até podem pensar que se trata de um jardim particular, mas pelo tamanho do espaço seria quase impossível.

A casa do Victor Hugo fica em um dos prédios em frente à praça. O escritor foi morar nesse apartamento depois de deixar a família, aos 30 anos. Lá ele escrevia algumas de suas obras grandes obras, levava suas amantes e se encontrava regularmente com amigos, como Balzac e Alexandre Dumas. O espaço é bem organizado. Mostra como ele vivia, alguns dos objetos que ele utilizava e manuscritos originais. As melhores partes são os quadros presos às paredes que contavam como era seu relacionamento com amigos e família, sempre conturbados. Artistas...

(Um dos espaços da casa de Victor Hugo. Cores quentes e requinte nos utensílios)

Depois entramos no museu George Pompidou. O local é, por si só, uma obra de arte. Um emaranhado de estruturas de metal, plástico e túneis, todos do lado de fora. Sua arquitetura também faz parte do projeto do caráter contemporâneo que ele pretende passar, mas é quando se entra no museu é que se entende porque ele é assim: com todas as estruturas do lado de fora, além de uma estranha mas irreverente aparência, o museu também ganha mais espaço interno.

(As galerias do Pompidou guardam obras de artistas como Corbusier, Miró e Jean-Luc Godard)

Não visitamos as galerias, só as obras dos espaços de convivência. Então, já no centro da cidade, passeamos pelos lojas e pelas ruas de Paris. O tipo de passeio que pessoas com roteiro fechados demais deixam passar. Atenção aos turistas: um espaço para flanar por Paris, sem ficar procurando se localizar o tempo todo em um mapa, é fundamental.

A fadítica ceia de natal

Nesse passeio sem roteiro por Paris fomos parar no Quartier Latin, famoso bairro estudantil de Paris aonde está a a Universidade de Sorbonne e alguns dos barzinhos mais descolados da capital. Mas já estava tarde e a cidade começou a esvaziar. Não entendemos porque... foi quando nos lembramos, de repente, que era Natal. Com certeza as pessoas estavam voltando para suas casas para encontrar com os familiares e amigos. Não era o momento de ser turista em Paris pois as ruas estariam vazias e os monumentos fechados. Restaurantes também não eram uma opção, pois tudo era caro. Apesar de ser Natal, não podíamos nos esquecer que ainda éramos intercambistas.

(A noite foi chegando e sequer a place de Sorbonne, um dos pontos mais agitados da capital, tinha pessoas)

Passamos em um supermercado para organizar a nossa ceia. Precisávamos de algo barato, gostoso e que só precisasse de um microondas. Lasanha, é claro. Compramos uma de bolonhesa, um bom, suco e algumas bobagens achocolatadas.

(Hum... #soquenao. Foto tirada desse link)

Na volta, fomos comprar tickets de metrô e fomos pegas de surpresa por um vendedor, no meio da estação. Ele viu nosso sotaque e perguntou de onde éramos. Então começou a falar que já foi ao Brasil e que se encantou com a floresta Amazônica, um lugar que nenhuma de nós já tinha ido. Falou de espiritualismo, de rituais e tradições em meio aos índios. De como nossas riquezas naturais são exuberantes, como nosso país são abençoado e como a gente não era capaz de enxergar isso. Falou então que todos somos abençoados, que são as pessoas que se diminuem frente aos problemas externos e começou a nos pedir, por algum motivo, que a gente jamais deixasse alguém dizer que éramos menores do que realmente somos e que é nisso que também reside o espírito do natal, nesse (re)nascimento.

Fomos embora e então descobrimos que ficamos mais de trinta minutos conversando com ele, sem pensar no frio, sem pensar no tempo. Foi bem engraçado na verdade. Aquilo parecia não acontecer com mais ninguém. Porque com a gente? Porque no Natal? Fiquei sem respostas. O nome dele, a propósito, era Gabriel. Curioso...

(A farta (?) ceia que nos esperava no nosso albergue)

A recepção do albergue estava cheia. Tomamos banho e nos revezamos para ficar na fila do microondas. Depois de pronto, dividimos, brindamos, e voilà. No fundo, passei o Natal em família, parte da família que fiz durante o intercâmbio estava ali. Mas foi bem triste também... não teve o mesmo clima de sempre, a mesma sensação. Minha família me ligou mais tarde desejando feliz natal. Eles estavam todos reunidos na minha casa comendo escondidinho de bacalhau, peru, batatas assadas e salpicão (ah, salpicão...). Riram todos quando disse que minha ceia de natal consistia em uma lasanha de microondas. Pensando hoje, é mesmo engraçado.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Em Paris, sem dinheiro

Durante meu intercâmbio, fui três vezes para Paris. A primeira foi antes mesmo de chegar à Clermont. Eu estava com meu pai e esse fato muda completamente o tipo de viagem. Afinal, ele pagava tudo! Passei três dias na cidade luz dormindo em um ótimo hotel, comendo em restaurantes modestos - mas gostosos - provando os deliciosos macarons, experimentando um monte de guloseimas e visitando um sem número de lugares. E ainda sobrou tempo para comprinhas nas Galeries Lafayette.

(Na minha primeira passagem por Paris comer na Champs Elysées não era um empecilho)

O trajeto que fiz com meu pai está descrito nos posts "O que fazer em Paris" Parte 1 e Parte 2, mas com algumas mudanças de roteiro como, por exemplo, uma visita ao Centre George Pompidou, que eu era louca para conhecer, e ao Musée D'Orsay, que se tornou meu preferido.

A segunda passagem por Paris foi bem diferente... Era novembro e estávamos pensando em qual seria nossa viagem de final de ano. Clermont é uma cidade universitária e estaria vazia na época do natal pois os estudantes - estrangeiros e franceses - já teriam voltado para passar as festividades com suas famílias. Foi quando a Fafá disse que queria muito ir à Paris e que essa talvez fosse a única oportunidade... Além disso, meu amigo de colégio que estava na Alemanha ia viajar com a gente e ele, que estava no seu segundo ano de intercâmbio e já conhecia mais da metade da Europa, também nunca tinha ido para Paris (OI?). Estava decidido.






(Natal em Paris... não esperávamos nada menos que uma Torre Eiffel colorida e uma cidade cheia de pisca-piscas e árvores enfeitadas (com neve de verdade). A parte dos presentes e da família reunida... bem... deixa pra próxima ne?)






No dia 24 de dezembro, às 5h da manhã, Eu, Fafá e Tissi saímos de Clermont. A primeira diferença entre a viagem com meu pai e essa aventura de universitários pobres foi a hospedagem. Com meu pai fiquei no Ibis próximo à Torre Eiffel, com direito a um café da manhã recheado de croissants, brioches, queijo brie e suco de laranja natural. Para essa viagem, procuramos o albergue mais barato, sem se importar com localização ou comida. O meu maior aliado foi o Hostels Club, o site em que encontrava as melhores opções pelos melhores preços. Foi assim que reservamos o Hostel Blue Planet, no 12º arrondissement de Paris, bem longe de... quase tudo. Mas pertinho da Gare de Lyon, onde descemos de trem.

O preço da diária em quarto coletivo com café da manhã incluído era de 16 euros. Paris, no natal, por 16 euros? Não pensamos duas vezes. Chegando lá, tivemos a sorte de ter um quarto com três camas sobrando e ficamos juntas, com muita segurança e sem receio de assaltos. Os colchões eram meio sujos mas quarto era quentinho. Já o banheiro era uma porcaria. A porta não fechava direito, a ducha era péssima e o ralo estava entupido. Descobrimos que o café da manhã era, na verdade, três fichinhas. Duas para tirar croissants de uma máquina de produtos semi prontos e outra para pegar café na máquina de bebidas. De toda forma lucro, pois os hostels mais caros nem isso serviam.











(A esquerda, o espaço para café da manhã do Ibis. A direita, o espaço para café da manhã, almoço, jantar, cozinha, sala de convivência e sala de TV integradas do Blue Planet. Foto tirada desse e desse link)

Como em todo albergue, a cozinha/sala era a alma do local. Conhecemos um monte de gente e um grupo enorme de brasileiros. Foi quando senti outra grande diferença: em viagem com a minha família é raro conhecer alguém e ficar horas de papo, muito menos abrir mão dos passeios programados para se aventurar com uma turma que você nunca viu. Vida noturna então nem pensar. Dessa vez, resolvemos aproveitar a companhia dos hóspedes ilustres em alguns programas (e eles a nossa, já que ninguém falava francês).

Pelo visto, usamos bastante a cozinha do albergue. Claro. Comer e beber em Paris é sempre um grande desafio financeiro. Já no primeiro dia gastamos duas horas em um supermercado e compramos a ceia de natal (uma lasanha de microondas bem baratinha, para ser mas específica), sopas, legumes em lata e pratos semi-prontos de acordo com as refeições que faríamos dentro do hostel. Para as poucas refeições que faríamos fora do albergue, a opção era a famosa baguete.

Uma vez almoçamos no Flunch, um de fast-food com comida de verdade. Cada coisa tem um preço, sendo que o prato do dia é 6,50 euros. Por esse preço você paga a carne e, depois de passar a roleta... voilà: os acompanhamentos podem ser servidos a vontade. Saladas, arroz, macarrão, batata frita, legumes... Claro que a gente exagerou e passou umas duas horas com a sensação de estômago cheio.

(Croque Monsieur. Adivinhem em qual das viagens comi essa maravilha?)

Com meu pai foi tudo diferente. Nesse post, que fiz lá de Paris, dá pra perceber que comer e beber foi realmente delicioso. Gastamos de 15 a 20 em cada refeição, bem tipicamente francesa. O garçom trazia uma cestinha com pães e uma garrafa d'água. Depois chegava a entrada e então o prato principal. A sobremesa a gente comia longe dali. No último dia experimentei o famoso Berthillon, considerado o melhor sorvete da França.

Por último, as compras. As únicas coisas que comprei nessa viagem foram um chapéu para tampar minhas orelinhas do frio e um porta vinhos que a gente ia dar de presente para o nosso anfitrião em Sevilha. Mais nada. Que eu me lembre cada uma de nós comprou um chapéu e esses souvenirs bestas de toda viagem, como cartões-postais, chaveiros, canecas. Ninguém comprou blusas, cachecóis, livros... sequer comida boa. Então porquê gastamos um bom tempo olhando lojas?

(Me diz pra quê, Tissiane, passamos uma hora no Marché de Nöel do La Defense?)

Para além das diferenças, a nossa viagem para Paris contou com uma triste ceia de natal, companhias agradáveis, passeios inusitados, mendicância e um par de boas risadas. Ela era só o começo da nossa viagem de fim de ano que eu começo a contar agora!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Opções para o gelado, mas gostoso inverno parisiense

Sendo um ás da patinação no gelo – como sou -, não pude perder a oportunidade de experimentar o rinque montado no primeiro andar da Torre Eiffel, entre o Natal e o Réveillon de 2010. Tudo bem que ele era minúsculo e lotado de gente querendo viver esse momento esporte-glamour. Mas, pasmem: era de graça. Claro, você já teve que pagar para subir na Dama de Ferro – o que não é barato. Mas a patinação em si, bem como o aluguel dos patins, é gratuita. Fiquei como criança que vê um doce, como homem que vê saia curta, como aluno em época de greve escolar: felizona!

(A Nadia Comaneci mineira fazendo algumas de suas acrobacias com seu companheiro de palco)

Até hoje não sei se isso é um evento anual, se 2010 foi o primeiro em que aconteceu, se é como olimpíadas, de quatro em quatro anos. O que importa é que eu, praticamente a Nadia Comaneci mineira dos patins (para continuar a metáfora olímpica...), fiz coreografias e tive muitos tombos no alto da Torre!

Aliás, fica todo mundo falando da beleza de Paris na primavera, da animação da cidade no verão... mas o inverno também traz coisas interessantes para a capital francesa. Tenho que admitir que só as conheci porque o meu intercâmbio universitário foi definido para o primeiro semestre letivo europeu: setembro a janeiro. De qualquer forma, vivi momentos legais e programas específicos de inverno que valeram passar frio!

(Momento propaganda: eles merecem! Foto tirada desse link)

Ainda assim, é bom descobrir os cafés que sejam em ambientes fechados e outros lugares estratégicos para se fugir do frio a cada meia hora de passeio. Não há como aguentar, nem com roupa de esqui, as temperaturas de inverno por muito tempo. E podem xingar as cadeias de restaurantes o tanto que quiserem: a Brioche Dorée foi minha grande companhia parisiense. Sim, ela tem menus prontos. Sim, ela tem opções pequenas, médias, grandes. Sim, ela existe por toda a cidade, igualzinha e com os mesmos atendentes mal educados. Mas ela é quentinha, tem café e sanduíches gostosos e cadeiras confortáveis pra se ler, descansar, abrir o guia turístico. Minha sugestão é o croissant de amêndoas. P-a-r-f-a-i-t! Outra dica: não se impressione com a palavra viennois (de Viena) na frente de alguns itens do menu: um café/chocolate vienense é apenas acrescido de chantilly.

Uma das opções clássicas de inverno, e que, apesar de clichê, não perde o charme, é a feira de Natal. As barraquinhas e estandes preenchem a Champs Elysées, do Palácio Real até o Arco do Triunfo, cheias de bebidas e comidas quentes, calóricas e maravilhosas. Beignets (“sonhos” recheados de chocolate ou geléias) serão seus novos amigos. Crepes doces e salgados de vários sabores. Vinho quente. Quelle merveille! Se você está de regime, não se preocupe. Passar frio emagrece...

(A Champs Elysées no Natal é o mais lindo clichê parisiense)

O inverno também foi, para mim, a temporada dos museus. Quentinhos e cobertos, são ideais para quem deseja um programa cultural ao mesmo tempo em que quer fugir do frio/chuva/neve. Fora os já über conhecidos Louvre, Georges Pompidou e d'Orsay, alguns outros também valem a visita.

O museu Carnavalet fica no meio da charmosa região boêmia do Marais, numa mansão linda e de época (começou a ser construída no século XVI. Põe época nisso.) Ele é um pouco complicado, com uma ordem de visitação que eu não entendi muito bem e acabei entrando na contra mão do sentido certo da visita algumas vezes. Contudo, ele tem um acervo enorme e belíssimo de toda a história da cidade, passando por um vastíssimo corredor de iluminismo e Revolução Francesa, como não poderia deixar de ser. Mas o mais belo, para mim, foi passear naquela casa tão antiga e aristocrática!

(Jardins do Carnavalet. À moda antiga... Foto tirada desse link)

La perto há o Museu das Bonecas! Minúsculo e escondido, ele exibe em vitrines bonecas de várias épocas diferentes, descrevendo (só em francês, infelizmente) as características e usos sociais dos brinquedos de cada momento. Bacana e visitável em cerca de uma hora! O estabelecimento também vale a ida pois fica perto de um charmosíssimo e pequeno jardim chamado Anne Frank, em homenagem à conhecida autora do Diário. Um lugar ótimo para se sentar e ver o tempo (um tempo curto, pois é inverno e frio!) passar, junto com as criancinhas brincando nos coloridos brinquedos de madeira.

Para finalizar, vou só citar mais um estabelecimento para comer (afinal, o que há de melhor para se fazer no inverno, não é mesmo?). Esse lugar não é especial para essa época do ano. É, aliás, em ambiente aberto. Mas é o melhor crepe que já comi na minha vida, então preciso divulgar: Le p'tit grec, na rua Mouftard, que fica no bairro dos estudantes: Quartier Latin. Essa pequena lojinha, com alguns banquinhos e uma mesinha de dois lugares, tem uns crepes gigantes e com milhares de ingredientes. Já comeu crepe com tomate, alface, ovo, presunto e queijo dentro? Pois é, lá tem. É praticamente o “PF” dos crepes. Super! Os dois “crepeiros” são verdadeiramente gregos, mas falam francês, inglês, espanhol... até português eles arranham! E os preços são os mesmo de crepes só de queijo que vendem pela cidade. Então coloque seus casacos, passeie pela rua com mais estudantes, gente tomando cerveja e albergues da juventude de Paris, e coma o melhor crepe de la vie!

(A fila para comer no Au P'tit Grec valem todos os seus centavos de euro (e você nem vai gastar muitos deles). Foto tirada desse link)

Antes de se formar em Jornalismo pela UFMG, Marina Dias fez um intercâmbio de seis meses na cidade luz. Como é fácil perceber, o passeio era um pretexto para encontrar uma barraquinha de crepe e comprar um de nutella. E pasmem: ela conseguiu voltar ainda mais magra. Também gostava de tomar café e ficar observando os turistas perdidos e a falta de paciência do pariesienses com eles, mas odiava quando a falta de paciência era com ela. Mais notícias da Marina Dias no seu twitter.


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Corrida Maluca

Eis que surgem quatro indivíduos fantasiados de personagens do desenho animado Bob Esponja. Depois de uma dancinha esquisita na frente de um mundo de gente, Bob e seu fiél amigo Patrick (a estrela do mar) entram em um carro em forma de abacaxi. Depois de um longo apito, seus dois amigos empurram o carro ladeira abaixo. Parecem não ter freio. Fazem curva, desviam de obstáculos passam por um mini quebra-mola retangular e cruzam a linha de chegada. Mas o carro continua em movimento... até ser parado por uma enorme pilha de feno.

(Foi preciso segurar a máscara para ela não sair voando. Foto tirada do site oficial)

Esse foi o primeiro carro a se aventurar no Red Bull Soapbox BH, a corrida maluca organizada pela Red Bull no último domingo. Esta curiosa modalidade de corrida é uma competição realizada em diversos países do mundo, voltada para pilotos amadores que desejam se divertir. De fato, um mundo de pessoas sem medo do ridículo.

As regras eram simples: cada equipe pode ter quatro pessoas. Juntos, eles têm de ter uma ideia mirabolante, montar um projeto e passar pelo crivo da equipe julgadora. Para essa corrida foram escolhidos 50 projetos. Então é a hora de colocar a mão na massa e montar algo idêntico ou semelhante ao que está no papel. No dia da corrida é só descer. Sem freios de preferência. O primeiro lugar leva uma viagem para toda a equipe para assistir ai GP Brasil de F1 em Interlagos, com tudo pago. Os critérios são três: velocidade, originalidade do carrinho e performance dos participantes. O que significa que o carro pode quebrar e ser carregado até a linha de chegada e ganhar da mesma forma.

A corrida ia acontecer na Praça do Papa e quilômetros antes de chegar as ruas já estavam engarrafadas. Ao longo da semana escutei todo mundo dizer que ia participar. E quando a cidade inteira fala que vai a um evento pode saber: vai mesmo. Coisa similar aconteceu uma semana antes do St. Patricks Day, e deu no que deu. Mas ali a coisa era diferente. Claro que todos esperavam sol, sombra e cerveja gelada. Mas como a atração eram os carros foi fácil se divertir. E olha que o Red Bull Soapbox contou com 57 mil observadores.

Eu tentei ficar ao lado da pista de corrida, lotada. Então desisti e assisti àquilo tudo sentada de frente para o telão, embaixo de um sol de mais de 30 graus. A vantagem de olhar o telão é que eu conseguia mesmo ver toda a corrida, desde a apresentação dos participantes até eles serem arremesados ao feno. Foi MUITO engraçado!

Tinham equipe de todos os tipos, todos muito bem fantasiados. Alguns com ideias geniais, como o carro que era em forma de vaso sanitário. O condutor era o cocô e os ajudantes papéis higiênicos. Outro bem pensado foi o porjeto da Amy Wynehouse que se chamava Back to Black. O carro em forma de caixão vinha com uma coroa de flores e uma placa de número 27. Ao longo da descida, pétalas de rosas eram jogadas pela pista.



(A banana de pijama caindo de podre. Vídeo tirado desse link)

Mas a galera queria ver carros a altas velocidades. Quando alguém descia rápido, mesmo se batesse nas laterais, todos gritavam e batiam palmas. A cama dos Bananas de Pijamas e o carro de Cachorro Quente foram ovacionados: a velocidade era tanta que a inércia os fez sair do carro depois de pararem no feno. Não por menos, a equipe campeã ganhou por unir performance a uma descida sem freios. A Red Bule tinha um carro em forma de fogão a lenha e apostou na velocidade.

Abaixo, alguns dos projetos:

(A Caverna do Dragão mostrando que a união faz a força)


(Ao infinito e além...)


(Do lado de dentro, faixas de ambos os times e arquibancada lotada. Os detalhes incríveis do carro mineirão)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A saga para entrar no Rock in Rio

Cansada, mas empolgada. Era como eu estava quando peguei o ônibus que me levaria até o Rock in Rio. Já eram 18h e estava com os pés doendo de tanto andar. Também já tinha perdido o show da Joss Stone, um dos que mais queria ver depois de Jamiroquai. Mas nada seria motivo suficiente para me desanimar.

Chegamos à Cidade do Rock em 40 minutos. Depois de mais um quilômetro e meio de caminhada até a entrada do festival. Paramos ali para esperar a minha amiga com os ingressos. Do lado de fora, o som da Orquestra Sinfônica Brasileira chegava aos ouvidos. Eles fizeram um concerto especial, cheio de convidados, para homenagear a banda Legião Urbana. Dali, a única coisa que conseguíamos ver era a roda gigante construída especialmente para o evento. Se o brinquedo era daquele tamanho, imagina o resto do espaço.

(A Cidade do Rock foi feita para receber cerca de 100 mil pessoas a cada dia. Foto tirada desse link)
(Passo a passo. Foto tirada desse link)

Uma hora depois, fim do show da Orquestra. Já era 20h da noite. O nosso ingresso ainda não tinha chegado. Começamos a ficar aflitos. Sabíamos que ele ia chegar, mas estávamos perdendo todo o festival. Passavam vendedores ambulantes de cerveja, água, refrigerantes. Outros vendiam camisetas com os dizeres "Eu fui". Passou uma moça distribuindo biscoitos de chocolate com recheio de açaí, uma mistura bem bizarra. Na fome, pegamos (inclusive, mais de uma vez). Ficamos conversando, fazendo o tempo passar depressa.

20h30 da noite. O show da Janelle Monáe começara. Nada do ingresso. Algumas pessoas tentavam vender os deles por 150 reais... 100 reais... até que apareceu um grupo de 4 amigos vendendo um par de bilhetes, cada um por 50 reais. Tive o impulso de aceitar a oferta e abrir a carteira, mas já tinha depositado o dinheiro na conta da menina que me vendeu. Mais espera...

Mandei uma nova mensagem. Nesse momento - admito - perdi o pouco da calma que ainda me restava. Estava fritando de raiva. Fiquei três horas enrolando no shopping a espera do momento certo para partir quando enviaram uma mensagem às 18h dizendo "estou a caminho". E lá estava eu, novamente, enrolando mais outras três longas horas.

Meia hora depois, finalmente, elas chegaram.


(Ei você que me vendeu o ingresso: não leve a mal. Quando vocês chegaram e me perguntaram se eu estava com raiva de vocês eu disse que não porque realmente não estava mais. Ia entrar! Inclusive, muito obrigada! Mas admito que, como qualquer ser humano, foi difícil esperar...)

Rock in Rio na veia

A vista que se tem logo depois de entrar na Cidade do Rock é fenomenal. O palco principal, cheio de luzes e um mar de gente. Para todos os lados, estímulos visuais, luzes, lojas, pessoas, barulho. Decidimos que íamos passear pelo espaço e, no meio do show da Kesha, ir o máximo pra frente que fosse possível.

(A primeira visão de quem chega pelo lado norte)

Do lado direito do palco, o palco Sunset, a área VIP e uma montanha russa. Decidimos ir direto para o lado esquerdo. Tudo, absolutamente TUDO, era patrocinado. Os espaços interativos, os brinquedos de parque de diversão, os locais para tirar fotos... cada um deles levava o nome de uma empresa.

Surpresa mesmo foi chegar à Rock Street. O espaço era, sem dúvida, o mais charmoso de todo o evento. Ali, os produtores reproduziram um pedaço de New Orleans, a capital mundial do jazz. As casas foram construídas ao estilo arquitetônico da cidade, conhecida pelo seu legado multicultural e por sua influência no cenário musical, principalmente quando o assunto é jazz e blues. Cada casa era uma loja diferente: fotos, comida, chocolate, frutas, banco, guarda-volume e por aí vai. No meio de tudo, um coreto que recebia as mais diversas bandas do cenário musical e alternativo do Rio de Janeiro.

(Um refúgio para os pés doídos e ouvidos machucados)

Hora de se posicionar. Entre pessoas comuns, pais relutantes e adolescentes histéricas gritando o nome da Kesha a quilômetros de distância, fomos abrindo espaço. Não fazia questão de ficar na grade pois sabia que jamais chegaria lá. Tem uma hora no meio da pista que por mais esforço que você faça você não consegue transpor as pessoas e ir mais pra frente. A única coisa que eu queria era chegar perto o suificiente para vê-lo com meus olhos, e vê-lo bem. Porque se fosse pra eu olhar o telão tinha ficado em casa.

Com o fim do show da Kesha, mais espaço. Tirando algumas grandes cabeças a minha frente, fiquei em um local privilegiado. Contava os minutos. A direita tinha um espaço com tirolesa. As pessoas passavam rápido em cima das nossas cabeças. A vista que elas tinham lá de cima devia ser sensacional. Como desejei estar naquela corda...

(Por menos de um minuto, a melhor vista que se pode ter. Foto tirada desse link)


A banda entrou no palco. O som começou e o Jay Kay entrou cantando Rock Dust Light Star, hit do novo CD. Com sua tradicional tunica colorida e o cocar que remonta às misturas musicais do primeiro álbum, ele comandava a banda e se concentrava na música. Imendou com Main Vein, outra música pouco conhecida, e passou para Cosmic Girl. Aí sim, a galera reconheceu o nome que subia ao palco.

(Playlist. Foto tirada desse link)

Jay Kay não é lá a pessoa mais interativa do mundo, mas sempre manda bem quando começa a dançar e empolgar com a própria performance. Normalmente isso acontece depois da terceira música. Dito e feito.

Jamiroquai sempre foi um banda famosa pela qualidade sonora e o mais incrível no show foi como eles começaram as músicas sempre de uma forma diferente da versão original, ou estenderam o tempo do refrão, ou capricharam no solo do contrabaixo, a marca registrada. O destaque vai infinitas vezes para Love Foolosophy, que foi cantada em versão acústica para então começar de novo no ritmo que já é conhecida. Delirei, sério.



Infelizmente foi um show de poucas músicas. Festival tem sempre esse problema: se você não for o nome principal, não tem espaço para tocar de tudo e agradar a todos. Eles tocaram o tempo que lhes foi pedido, com uma pontualidade inglesa - para ser ainda mais redundante. Acho que eles deviam ter atentido o pedido da plateia que gritava por Space Cowboy do início ao fim do show...

De toda forma, não tenho do que reclamar. Foi como um sonho realizado. Na minha grande lista de coisas a fazer antes de morrer, posso riscar mais essa.


(Pertinho do palco!)

Saímos dali para dar espaço a verdadeiros fãs do Stevie Wonder. Fizemos bem. Comemos, nos sentamos e esperamos o início do show bem longe do palco. Uma hora depois ele começou. Chegamos um pouco mais perto e curtimos o som. Depois de um tempo o cansaço era visível... até o momento de crítico de eu começar a pescar andando. Então nos sentamos na graminha perto do Bob's mais próximo. Coloquei a mochila no chão e apaguei durante felizes 30 minutos. "O quê? Você dormiu no Rock in Rio?" Dormi. Eu e mais uma legião de pessoas, mortas como nós. Me arrependo um pouco pois me disseram que Stevie Wonder tocou Garota de Ipanema... enfim. Eu precisava de um cochilo para aguentar a volta.

Saímos tarde da Cidade do Rock. Caminhamos aquele um quilômetro e meio de novo e pegamos o ônibus. Ali eu percebi como é incrível ver uma cidade inteira se mobilizar para um evento. A rodoviária anunciava em todas as placas os números dos ônibus disponíveis. As centenas de ônibus que levavam e buscavam as pessoas da Cidade do Rock mudaram seu itinerário, seus horários e se revezaram para atender as pessoas. Os guardas municipais, a seus lugares desde às 14h da tarde, prontos para controlar o fluxo do trânsito. Isso sem contar nos policias que foram mobilizados para fazer a segurança local.

(Falaram que os primeiros dias de embarque foram tumultados. No quarto dia, pelo menos, estava uma maravilha... Foto tirada desse link

Fiquei impressionada. Muito bem impressionada, no caso. Em Belo Horizonte um simples clássico de Cruzeiro x Atlético faz a Antônio Carlos e a Catalão pararem. Isso sem contar o vandalismo das torcidas organizadas. A gente ainda tem muito o que aprender...

Ônibus para a Barra da Tijuca. Ônibus para a rodoviária Novo Rio. Taxi para o aeroporto do Galeão. Avião para Belo Horizonte. Ônibus-executivo do aeroporto de Confins até a Avenida Cristiano Machado. Ônibus da Avenida até a minha casa. Depois de quase 4 horas "em trânsito" cheguei em casa. Dormi sorrindo.