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terça-feira, 26 de abril de 2011

O que vale a pena em Ilhéus

"E, de repente, o avião se desviou da rota pa ra o sul, e a cidade apareceu ante os olhos dos viajantes. Agora não voavam mais sobre o mar verde. Primeiro foram os coqueiros e logo depois o morro da Conquista. O piloto inclinava o avião e os passageiros que iam do lado esquerdo podiam ver, como num postal, a cidade de Ilhéus se movimentando"

Assim começa o livro São Jorge de Ilhéus, publicado em 1944 por um dos maiores escritores brasileiros, saudoso Jorge Amado. Através de diálogos interessantes e uma descriçãodetalhada da região, o autor narra as conquistas da terra no sul da Bahia em uma época que o cultivo do cacau era a fonte, de renda e mazelas, do estado.

Independente das questões culturais e humanas - que são muitas - Jorge Amado descreve uma Ilhéus cheia de encantos, mesmo quando a pobreza toma conta do cenário. Na sua forma de escrever fica visível uma fascinação pela cidade.

Hoje, é difícil encontrar a Ilhéus de Jorge Amado. Por vezes, reconheço algumas paisagens e lugares. Mas só. O principal problema não é encontrar a rua x ou a praia y. O mais difícil é encontrar seu ponto de vida. Mas sim, Ilhéus ainda tem belas paisagens para quem vem de longe. A principal a gente encontra no centro, no entorno da rua Coronel Paiva.

(Catedral de São Sebastião. Uma das poucas no Brasil que mal couberam na foto)

Ali fica a Catedral de São Sebastião, uma bela e imponente igreja que começou a ser construída no ano de 1931. Do lado de fora ela é suntuosa, traz pilares, abobadas e detalhes em estilo neoclassico. Do lado de dentro o oposto: a igreja é super singela. As obras da catedral só terminaram em 1967. Na contramão da maior parte dos monumentos da cidade, ela passou por uma grande reforma em julho de 2010 e está muito bem conservada.

Ao lado está o bar Vesúvio, um dos cenários mais importantes de Gabriela, Cravo e Canela, outro romance de Jorge Amado que traz Ilhéus como pano de fundo. O bar foi construído entre os anos de 1919 e 1920. O local já foi ponto de encontro dos intelectuais baianos. Hoje, é um bar comum, que vive do turismo proporcionado pelo escritor baiano já que é pouco apreciado pelos moradores da região (inclusive pelo preço).

(O Bar Vesúvio traz uma estátua do Jorge Amado admirando a catedral)

Numa das ruas paralelas, próximo ao porto, está outro bar famoso. O Bataclan era um cabaré famoso - igualmente citada nos livros de Jorge Amado - que teve seu apogeu entre os anos de 1926 e 1932. Era frequentados pelos magnastas locais e já foi palco de grupos de dança nacionais e até internacionais, como argentinos e franceses. Além da sala, o cabaré funcionava também como cassino e bordel. Com a lei que proibia os cassinos no país, porém o Bataclan declinou. Hoje, reformado, o cabaré é um cyber-café agradável, com espaço para exposições culturais e lançamentos de livros.

Além desses monumentos, algumas belezuras naturais também merecem uma visita. Uma delas é o Rio do Engenho. Algumas agências de turismo organizam passeio de barco pelo rio que corta a cidade. Além das belas paisagens "aquáticas" ali perto está o povoado do Rio do Engenho, que data de antes de 1550. O povoado foi tombado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional por trazer, entre outros, ruínas da fazenda de Santana, uma das primeiras do país.


(Não precisa nem dizer que durante o nascer ou o pôr do sol o passeio é ainda mais agradavel. Foto tirada desse link)

Para curtir uma prainha và as praias do norte, na rodovia entre Ilhéus e Itacaré. Tem um conjunto de 8 praias pouco frequentadas pelos turistas sendo que algumas delas nem pertencem a Ilhéu smais.

sábado, 23 de abril de 2011

Quando olhar incomoda

As ruas de pedrinhas, perto do aeroporto, anunciavam uma cidade ao menos charmosa. Era só ilusão. A cada esquina que o carro dobrava via-se prédios com pinturas descascadas e cerâmicas caindo do céu. As casas se amontoavam: paredes coladas, puxadinhos de todos os lados, tijolos a vista. As plantas nos canteiros centrais e nos jardins particulares - com algumas exceções - muito mal cuidadas. Dos postes, fios e mais fios saíam de todos os lugares. Antes que algum detalhe prenda sua atenção, não se engane. Turista: Ilhéus é um erro.


(Cabaré Bataclan, imortalizado nos livros de Jorge Amado. Tentei de todas as formas tirar uma foto sem pegar os fios elétricos. Não deu)

Durante a semana que passei na Costa do Cacau, dormi na cidade todos os dias. Respirava sua maresia e apreciava suas paisagens da janela da minha pousada na beira da Praia da Avenida. Sempre que ia a outro município passava no centro da cidade e via sua ruas, sua população e todos os seus hábitos. Era sempre um alívio sair dali.

O descaso da população, e principalmente do governo, é visível. A impressão que dá é que não há plano diretor ou leis sobre a construção de imóveis. Seja no centro ou nas rodovias que levam às praias, a cidade é uma grande bagunça. Olhar incomoda.

Na hora errada

Antes da vassoura-de-bruxa infestar as plantações da região, Ilhéus foi a cidade com a maior produção de cacau do mundo. Rica e bem desenvolvida, era conhecida como a "Princesinha do Sul". Quem morava ali tinha dinheiro e classe. Os fazendeiros eram cultos e seus filhos iam estudar nos grandes centros urbanos do Brasil ou mesmo no exterior. No convento e igreja Nossa Senhora da Piedade vi algumas fotos dessa época. A cidade era belíssima! Tinha praças largas, jardins bem cuidados e construções organizadas.


(Nesse site, uma ideia da Ilhéus dos anos 1950)

Ilhéus ainda é relativamente rica. Possui o 6º maior PIB do estado da Bahia, com uma economia baseada em turismo, agricultura e indústria. Mas a cidade que eu vi está a anos-luz de distância daquela que Jorge Amado relata nos livros Terras do Sem-fim, São Jorge de Ilhéus e o famoso Gabriela, Cravo e Canela. A Ilhéus pela qual ele se apaixonou era aquela que vi nas fotos em preto em branco, nas paredes do convento.

O que sobra

Mas algo de interessante Ilhéus deve ter para que o turismo seja uma de suas fontes de renda. Sim. Não é preciso tirá-la do roteiro, mas algumas pontos devem ser destacados:

Regra nº 1: não se hospede no centro

Tudo o que disse sobre Ilhéus se restringe ao centro da cidade, aquela parte cheia de comércio e movimento. O problema é que é que Ilhéus toda parece um grande centro. Não há bairros residenciais bonitos ou uma região histórica separada. Assim, a solução é se hospedar nas praias afastadas da área urbana.


(Mesmo as praias urbanas podem dar belos visuais. O mesmo acontece com os monumentos, como a Igreja Matriz de São Jorge dos Ilhéus. Quando bem cuidadas, são um colírio para os olhos)

Regra nº2: cuidado com as fotos

Um dos motivos que nos fazem escolher uma cidade como roteiro turístico potencial é as imagens do lugar. A internet está cheia de belas imagens, como no site Brasilhéus e Férias Brasil. Mas todos sabem que hoje até o Microsoft Office é capaz de corrigir imperfeições. Não peço incredulidade total, mas um pouco de noção (o que nos leva para a 3ª regra, algo a ser seguida em TODAS as viagens)

Regra nº3: não espere demais

A maior parte das pessoas cai em duas armadilhas. Uma delas é esperar a Ilhéus dos anos 50. Atenção, ela não existe. A outra é se encantar com os relatos de quem foi para ficar em algum resort. Eu cai nas duas, principalmente na segunda. Tenho amigos que já foram para a cidade e voltaram contando maravilhas. Hotéis cinco estrelas são sempre hotéis cinco estrelas: é difícil dar errado.