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sexta-feira, 20 de julho de 2012

A graciosa Colonia del Sacramento

Colonia del Sacramento é uma inspiração ao romantismo. E para iniciar a visita à charmosa cidade, nada melhor que entrar pelo portão principal, chamado Puerta de La Ciudadela. A porta e a ponte, estendida sobre o fosso, o forte, os pilares de pedra, os muros... tudo forma um maravilhoso espaço de interesse histórico e turístico.

(Atravessar a Puerta de la Ciudadela é como entrar em outro mundo)

Daí por diante é uma completa viagem ao tempo. No bairro histórico, tudo é encantador. As ruelas de pedra, a muralha, o píer, a Igreja Matriz, o porto de iates, as casas feitas a barro e pedra, os telhados desnivelados, as luminárias antigas a cada esquina, as ruínas do convento de São Francisco, os mais de 100 degraus para subir ao antigo farol.

Seguindo o Paseo de San Miguel, ao lado da Puerta de la Ciudadela, fica uma enorme muralha com vista para o Rio da Prata. A vista é linda e vale a pena subir nas pedras do muro para ver o resto da cidade e a imensidão do rio.

 (As muralhas e a imensidão do Rio da Prata, que se confunde com um mar)

Entre as histórias locais, uma delas me chamou atenção. Dizem que na famosa Calle de los Suspiros, havia um prostíbulo e os suspiros vinham dos quartos das “meninas” durante o trabalho. Lá podemos ver as casas mais antigas da cidade. Reza a lenda que quem subir e descer três vezes a pequena ladeira nunca mais terá problemas amorosos.

(Problema amorosos  nunca mais? Vale a pena tentar...)

A região próxima à Praça Matriz é uma das mais tranquilas e arborizadas do bairro histórico, ideal para se deixar levar pelas ruazinhas pitorescas, como a Calle 18 de Julio. Dá para passar horas por ali em busca do ângulo mais bonito para fotografar as casinhas e todos os modelos mais antigos de carro que você possa imaginar. Esses carrinhos são uma atração a parte: eles funcionam de todas as formas possíveis, como porta retrato, como vasos de jardim, com muitas plantas e flores, e até como bares, com mesa e bancos por dentro. Todos têm os pneus furados e funcionam como enfeites da cidade.

A cidade tem típicos azulejos pintados a mão espalhados em muros e casas. Logo, nada mais normal que possuir também um Museu do Azulejo. É o mais visitado dos museus locais e tem um acervo com mais de 3 mil peças de cerâmicas de origem francesa, espanhola e portuguesa dos séculos 18 e 19. O atrativo fica em uma pequena casa de estilo português erguida em 1750 e que ainda tem paredes e pisos originais.

(Um dos "enfeites" da cidade)

O farol de Colonia del Sacramento, localizado na Plaza Mayor, é único no Uruguai devido ao seu formato. Ele começa em uma base quadrada e se vai ganhando um contorno cilíndrico a medida que se torna maior. Foi construído sobre as ruínas do convento de São Francisco e inaugurado no ano de 1857.


Apesar dos seus 118 degraus, tem uma linda vista na parte mais elevada da cidade. Ok, para ser sincera, eu não subi os 118 degraus. Deu uma grande preguiça... mas eu não tenho dúvidas de escrever isto, pois subi as muralhas próximas à Puerta de La ciudadela e a vista já era incrível!


(Ruínas do convento e o farol de Colonia del Sacramento atrás)

Outro ponto de interesse é a basílica do Santíssimo Sacramento, que está localizada no centro histórico. Construída em 1680, é considerada a igreja mais antiga do Uruguai. Ela traz características arquitetônicas portuguesas e espanholas e já passou por várias reconstruções devido a conflitos nacionais. Ah, a entrada é gratuita.

(A igreja considerada uma das mais antigas do país)

A Plaza Mayor é uma ótima pedida para o fim de tarde. Ali estão vários restaurantes e pontos turísticos, além de ter um ambiente agradável, em meio às lindas árvores que dão sombra às ruas e que compõe o cenário retrô.

Os restaurantes à beira do Rio da Prata dão um sabor ainda mais apurado aos deliciosos mariscos, paella, ojo de bife, cordeiro ao hortelão ou o tradicional bife de chorizo com papas frito, e claro, acompanhando o saboroso vinho uruguaio ou as tradicionais cervejas Patrícia ou Norteña. Um dos restaurantes mais disputados pelos turistas é o excêntrico El Drugstore (Calle Vasconcellos, 179). Quadros e paredes coloridas, boa música e um cozinheiro que prepara os pratos na frente dos clientes fazem deste restaurante uma parada obrigatória, nem que seja só para fotos. Do lado de fora, além de mesas ao ar livre, pode-se fazer as refeições dentro de um carro antigo, adaptado para esse fim.

(Que tal almoçar em um coche a moda antiga?)

Também não podemos deixar de experimentar os deliciosos sorvetes ou os sofisticados cafés do Freddo, uma gelateria argentina que faz bem o seu papel em terras uruguaias e fica na Plaza Mayor, no coração do centro histórico.

O Porto dos Iates é um lugar de grande atrativo durante o ano todo. Suas águas calmas são perfeitas para a prática de esportes naúticos. De lá é possível contemplar a baía de Colonia del Sacramento.

E para aqueles que tiverem a oportunidade de passar a noite ou até mesmo de retornar à Buenos Aires no último horário do Ferry Boat, não deixem de assistir o pôr do sol. Os dois melhores lugares para fazer esse programa são o Paseo San Grabriel, bem próximo ao mástil de la bandera, na Punta San Pedro, ou na extremidade do cais de iates. É imperdível!

(Fim de tarde no Paseo San Gabriel)

Para saber um pouco mais sobre Carol Lemos e ver como a viagem começou é só clicar nesse link.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Do outro lado do Rio da Prata

Em frente à Buenos Aires, no lado oposto ao Rio da Prata, fica a encantadora e graciosa Colonia del Sacramento. Ela é a Tiradentes do Uruguai para os mineiros, ou a Paraty do Uruguai para os cariocas. Visitar o local é fazer uma verdadeira viagem ao tempo! Ruas de paralelepípedo, casas de barro e pedra, ladrilhos nas paredes e, por toda a cidade, antigas luminárias amarelas que decoram e dão arte às suas charmosas ruelas.
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(Arquitetura antiga nas casas, ruas e até na disposição das árvores)

Fundada por portugueses em 1680, Colonia del Sacramento ocupa hoje o posto de Patrimônio Cultural de Humanidade pela Unesco.

(Azulejos e lamparinas)

Ao desembarcar no porto da cidade, você tem a opção de comprar um city tour, o que, na minha opinião, é uma grande perda de tempo. É um pecado ficar aproximadamente 3 horas dentro de um ônibus quando há tanto o que aproveitar. Sem contar que existem opções muito melhores: logo na avenida principal você se depara com várias lojas de aluguel de carros, bicicletas, motos e os incríveis... Incríveis carrinhos de golfe. Poderia ter feito um programa mais saudável, como um passeio de bicicleta ou mesmo uma caminhada, já que a cidade é totalmente plana. Mas não resisti e fui de cara no aluguel dos carrinhos de golfe!

Mas fique atento ao chegar na avenida principal pois logo aparecem 3 ou 4 vendedores tentando lhe oferecer o melhor preço para o aluguel. É como desembarcar na Bahia. Existe uma enorme diferença entre o que o vendedor diz e os preços reais. Vale a pena pesquisar antes de alugar, principalmente porque o real e o dólar são supervalorizados no Uruguai e o peso argentino totalmente desvalorizado. Os preços do aluguel giram em torno de 140 reais por carro, com capacidade para 4 pessoas.

(O Kawasaki do dia)

Pesquisei o melhor preço e ali estava meu companheiro do dia... Aquele encantador carrinho de golfe vermelho. Como nunca tinha dirigido um destes, estava bem empolgada com essa nova ideia Mas sim, como qualquer turista de primeira viagem, ao dobrar a esquina vi um outro rent a car com preços ainda mais baixos... mas não, nem hesitei em parar para não passar raiva! No próximo post, conto como foi o passeio pela cidade. Abaixo, um guia detalhado sobre...

Como chegar a Colonia del Sacramento

Para se chegar à cidade por Buenos Aires, há três companhias de transporte fluvial via ferry: a Buquebus, Colonia Express e a SeaCat. A viagem tem um tempo médio de 1h em embarcações rápidas. O check in deve ser feito com pelo menos 1h de antecedência e malas grandes podem ser despachadas, assim como ocorre em aeroportos. Muitos turistas compram o pacote para sair bem cedo de Buenos Aires e retornar de Colonia no fim da tarde. Porém, se tiver tempo, vale a pena passar a noite na cidade e voltar no dia seguinte, ou até mesmo seguir adiante para Montevideo ou Punta Del Este. As poltronas dos Ferrys boats não são numeradas, mas existe a primeira classe. A companhia disponibiliza também uma lanchonete para matar a fome durante a viagem.

(Um enorme avião, com mais espaço para enfileirar as cadeiras)

A Buquebus é a mais tradicional das três companhias, possui diversas opções de horários de travessia e, portanto, possui preços mais elevados que variam dependendo da época. É a única que possui o transporte de carro. Durante a viagem, podemos fazer algumas comprinhas no free shop do ferry boat com preços mais baixos que no Aeroporto Internacional de Ezeiza (Buenos Aires) e de Guarulhos (São Paulo). Em embarcações rápidas para day tour em tarifa programada pode sair em torno de 450 pesos argentinos.

A Seacat é a mais nova companhia que atua no trajeto Argentina-Uruguai e os preços são muito atraentes. Ida e volta em tarifa programada pode sair em torno de 200 pesos argentinos. Comprei os tickets da Seacat, mas a embarcação foi feita em um ferry construído pela Buquebus, ou seja, comprei uma passagem da Web Jet e voei de TAM.

(A paisagem depois de atravessar o Rio da Prata)

O Colonia Express é o competidor mais antigo da Buquebus em operação e tem preços bem acessíveis. Os barcos não são tão grandes quanto os do Buquebus, nem tão modernos quanto os da Seacat. Faz a travessia em uma hora e não transporta carros. Os preços variam entre 200 a 400 pesos argentinos dependendo do dia da semana.


Carol Lemos tem 28 e é formada em Engenharia de Alimentos. Nas suas últimas férias, foi para Buenos Aires com os amigos. Carol adora cozinhar, butecar e viajar e odeia, na mesma proporção, acordar cedo, fazer as malas e encontrar biscoito integral no avião. Ela também não gosta da palavra cerrado. Principalmente depois de ser barrada em um restaurante em pleno domingo a noite."Sabe de uma coisa que eu ODEIO nesse lugar? A palavra cerrado... eu gosto de abierto siempre". Carol continuou do lado de fora, mas fez amigos brasileiros que estavam por ali, rindo da situação. 

terça-feira, 10 de abril de 2012

O deserto, de fato - parte 2


Tours regulares. Esse é pacote mais recorrente na eleição dos turistas. Comento aqui basicamente o tipo de experiência que cada um deles oferece, e dicas para aproveitá-los melhor. Uma certeza é a de que todos os passeios valem a pena. Depois de algum tempo trabalhando na agência pude fazer a maioria, mais de uma vez e, sinceramente, nunca consegui escolher o que mais gostava.

(San Pedro oferece passeios tão diferentes quanto suas paisagens...! Foto tirada desse link)


Geysers del Tátio
 - Horário: de 4h30 às 12h30
 - Altitude máxima: 4.300m
 - Taxa de 5 mil pesos chilenos para entrada na reserva, além do preço na agência. Possui meia-entrada para estudantes.

O passeio mais extremo pelas transições bruscas de altitude e temperatura. Um dos mais impressionantes também. Nesse tour se conhece o terceiro maior campo geotérmico do mundo. É necessário ir bem cedo para ver as fumarolas dos geysers em seu momento de maior atividade. A impressão que se tem ao ver os geysers antes do nascer do sol é como entrar em um filme de suspense dos anos 60, ou na caverna do Batman. Para completar, ver o sol nascer e mudar completamente a paisagem do local é muito bonito.

(Piscina térmica aquecida pelo calor da terra. O cheiro de enxofre incomoda mas dizem que faz bem para pele)

Geralmente as agências oferecem um café da manhã bem básico e depois visita-se a piscina termal do campo geortérmico, o Rio Putana - que tem um vulcão ativo com o mesmo nome em seu horizonte - e o povoado de Machuca (um dos mais bonitos de se ver). Se tentarem vender o passeio após uma noite de chuva, não acredite. Você acordará às 4 da manhã e talvez alguém venha te avisar que infelizmente o tour não vai sair.

Importante levar: MUITA roupa de frio – no início do passeio as temperaturas geralmente estão abaixo de zero. Muita água, traje de banho e roupas leves para continuar o passeio depois que o sol nasce. É muito comum sentir-se mal por conta da altitude, inclusive há casos de desmaios. Folhas de coca, alimentação leve e um bom descanso no dia anterior ao passeio são muito bem vindos.

Valle de la Luna
 - Horário : de 16h às 20h30
 - Altitude máxima: 2.500m
 - Taxa de 2 mil pesos chilenos para entrada na reserva, além do preço da agência.

(Só observar para entender porque o local se chama Valle de la Luna. Foto tirada desse link)

Passeio de muita caminhada e observação geológica. Dos tours regulares, é o que mais proporciona a sensação de se estar em um deserto. São 50 km percorridos entre ida e volta, geralmente contempla o passeio pelo próprio Valle de la Luna (que tem esse nome por se parecer mesmo com uma superfície lunar), Valle de la Muerte (onde ninguém nunca morreu de verdade), caminhadas por cavernas de sal e visita à estruturas rochosas moldadas pelo vento. O final do passeio costuma presentear os turistas com um pôr do sol emocionante, na chamada “Quebrada de Cari”.

Importante levar: muita água, sapatos confortáveis para caminhada, um lanchinho para o final do dia e abrigo para vento.

Laguna Cejar
 - Horário: de 16h às 12h
 - Altitude máxima: 2.300m
 - Taxa de 2 mil pesos chilenos para entrada na reserva, além do preço da agência.

(Laguna Tebinquinche e sua crosta de sal)

Feito para nadar! Esse tour, na verdade, visita três lagoas. A primeira delas é a Cejar, lagoa que tem tanta concentração de sal que se flutua sim, ou sim (não é necessário saber nadar para entrar nela). Depois segue-se para os Ojos del Salar, lagoas quase gêmeas, que têm esse nome por se parecerem com dois olhos se vistas de cima. Essas lagoas têm uma concentração menor de sal  e permitem saltos e mergulhos (apesar de não terem profundidade conhecida). A terceira e última é a Laguna Tebinquinche, que não tem quase nenhuma profundidade e lembra a forma de um salar: a superfície é coberta de sal, onde se pode caminhar e tirar (típicas e) excelente fotos.

Importante levar: muita água, inclusive para tirar um pouco do sal do corpo. Traje de banho, toalha e chinelos - o sal geralmente destrói bons calçados mesmo com pouco tempo de exposição.

Lagunas Altiplânicas
 - Horário: de 7h às 14h
 - Altitude máxima: 4.200m
 - Taxa total de 5 mil pesos chilenos para entrada em duas reservas, além do preço da agência.


(Em uma das Lagunas Altiplânicas. No dia choveu granizo e o que está atrás de mim é um vulcão nevado, e não nuvens)

Tour de observação e caminhada. Não parece o melhor passeio à primeira vista, mas a mistura de deserto com o altiplano cria uma das paisagens mais impressionantes que eu já vi. Além do deserto, há vegetação, animais e lagoas imensas com vulcões ao fundo.Visita-se basicamente a reserva da laguna Chaxa (onde é possível ver muitos flamingos), onde a agência geralmente oferece café da manhã. Depois passa-se pelo povoado de Socaire e finalmente chega-se às Lagunas Miscantis y Miniques, com seus respectivos vulcões.


Importante levar: muita água, roupas leves e roupas de frio. Se escolher um dos tours que não oferecem almoço, vale a pena levar um lanche para o final do passeio.

Nem tão regulares...:


Termas de Puritama: águas termais que podem ser visitadas na parte da manhã ou da tarde. Basicamente para relaxar. Um hotel tem a posse das termas e a entrada na parte da tarde é bem mais barata que na parte da manhã.

(Cavalgada pelo Valle de la Muerte. Foto tirada desse link)

Salar de Tara: tour de um dia completo, incluindo café da manhã e almoço. Era o mais caro da agência que trabalhava. Infelizmente, não tive a oportunidade de fazer esse passeio, mas a recomendação geral é de que as estruturas gigantes de pedra moldadas pela erosão do vento são espetaculares e imperdíveis.

Cavalgadas: poucas pessoas procuram as cavalgadas, apesar de esses passeios terem um custo benefício impressionantes. Normalmente, são guiadas por pessoas que nasceram no povoado e revelam lugares menos visitados e segredos que só nativos sabem contar.

Vulcones: a escalada de vulcões é vendida por agências especializadas em tours de aventura e não podem ser feitas por qualquer pessoa, em qualquer ocasião. Mesmo para os mais experientes é recomendado fazer um trekking pela região antes de comprar a subida a um dos vulcões. Verifique muito bem a confiabilidade do guia e da agência antes de fechar negócio.

(Duna no Valle de la Muerte onde se pratica Sandboard)

Sandboard: o surf das dunas do Valle de la Muerte é uma ótima pedida para os que gostam de aventura. Não é preciso experiência prévia, mas é pré-requisito ter coragem e disposição para cair. É possível comprar o tour que inclui tábua, instrutor e transporte ou apenas alugar a tábua e uma bicicleta para ir sozinho ao local das dunas. O melhor serviço de sandboarding é vendido bem ao lado da praça principal do povoado.

Para ver todas as histórias da viajante Tamira, clique nesse, nesse e nesse link!

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O deserto, de fato - parte 1


Os diversos passeios nos arredores do povoado é o que leva tantos turistas à San Pedro de Atacama. As possibilidades são efetivamente impressionantes: os tours contemplam vistas que correspondem às imagens típicas de um deserto, mas oferecem também lagoas, salares, geysers e, quando chove, até neve.

(Um dos geysers do campo geotérmico de San Pedro)

O ideal é ficar no mínimo 3 dias na cidade para garantir que haverá tempo para aclimatar-se, conhecer mais de uma agência e escolher o passeio que mais gostar É impossível conciliar noitadas com uma maratona de passeios, já que muitos deles são feitos pela manhã e a altitude faz tudo ficar bem mais difícil.  Se não quiser escolher entre a balada e a vida de aventureiro, tem que passar mais tempo na cidade.

Pero hospedarse dónde?

A qualidade e o preço que você vai encontrar nos hotéis de San Pedro é bem variável. Geralmente os ônibus que chegam ao terminal do povoado são cercados pelos chamados “hunters” – pessoas pagas para levarem os turistas à determinados hotéis ou hostel. Se o hostel está vazio é possível negociar um bom preço. Caso contrário, geralmente se paga R$32 por noite sem café da manhã. A grande questão desse jogo é que comumente as pessoas se hospedam no primeiro lugar a que são levadas, até por dificuldades de mobilidade. Importante observar que as hospedagens mais próximas ao centro do povoado são mais caras e atendimento em inglês é menos comum do que se pode imaginar.

(Caracoles, a principal rua da cidade é a que mais tem agências de turismo)

Além dos hostales, como chamam no Chile, San Pedro oferece também os outros extremos. existem dois campings e alguns hotéis de alto luxo no povoado. Os campings não oferecem grande estrutura, mas podem sair à R$16 por dia. Sobre a estrutura dos grandes hotéis, eu prefiro ilustrar com o link do Kunza.

Enfim, os tours

O valor dos passeios são sempre negociáveis e dependem da quantidade de pessoas do grupo, movimentação da cidade e necessidades das agências. A qualidade deles é quase circunstancial.

(Rua da Agência em que trabalhava em dia de chuva. Lama, literalmente)

Muitas questões relacionadas sobre a maneira como esses tours são organizados e feitos me impressionaram. Comecemos pelo fato de que basicamente qualquer pessoa que tenha dinheiro para investir em infraestrutura pode abrir uma agência de turismo lá. Se tomarmos em conta que eu comecei a vender os tours sem ter feito nenhum deles, dá pra entender a confiabilidade das informações que se pode receber.
Obviamente nem todas as agências são iguais. Muitas delas têm guias e vendedores realmente experientes, mas talvez o mais importante a ser revelado seja o fato de que escolher a agência que mais te agrada ou parece confiável nem sempre garante que o serviço será prestado por ela.

Sim, é absurdo e acontece. Pelo desgaste dos carros e custos gerais dos passeios, se o número de passageiros que compra um determinado tour não for considerado rentável, a agência geralmente transfere esses passageiros para outra, pagando um valor de mercado que chamam de trapaso e não comunicam o cliente. Como existe uma lista de tours regulares que não varia muito entre diferentes empresas, o que as agências fazem é contar com o serviço umas das outras para vender pacotes e não perder nenhum passageiro.

(Agência de tours em San Pedro. Foto tirada desse link)

Exemplo: se apenas uma pessoa compra um passeio a 20 mil pesos chilenos em uma agência x, uma agência y recebe essa pessoa como se fosse seu passageiro por 18 mil pesos chilenos pagos pela agência x.

Não é difícil prever os malefícios dessa estrutura: quando um passeio dá qualquer problema, geralmente as agências não têm muito como averiguar ao certo o que acontece e a responsabilidade nunca é “de ninguém”.


Como lidar?

Seguem algumas dicas que não garantem mas podem ajudar a fazer a melhor compra:

 - Tudo o que você quiser saber, pergunte. Não pense que nada está implícito na fala do vendedor e garanta que absolutamente tudo que você espera do passeio esteja acertado ou  seja possível de acontecer.

 - Simpatia não é profissionalismo. Assegure-se de que as informações que você recebe são verdadeiras. Conversar com outros turistas sobre os tours que fizeram pode ser muito útil.

(Mini vans, o trasporte mais comum dos passeios)

 - Agências grandes não costumam traspassar passageiros, mas recebê-los. Comprando com elas as chances de ter o serviço prestado por elas mesmas é bem maior.

 - Por outro lado, grupos muito grandes costumam fazer tours menos interessantes, ou personalizados. Como cada passeio depende da interação com o guia e conseguir um grupo fechado de 7 pessoas, por exemplo, pode ser muito útil para fechar um pacote e fazer todos os passeios com uma mini van. Além disso, se o grupo se repete a interação com o guia costuma ficar mais amistosa e possibilitar maiores negociações entre os roteiros formais e os interesses do grupo.

Quer saber mais sobre as aventuras de Tamira no deserto? Clique nesse e nesse link e aguarde o próximo post sobre os tours em San Pedro de Atacama

terça-feira, 3 de abril de 2012

Os temperos do deserto


“o verdadeiro charme das pessoas reside em quando
 elas perdem as estribeiras, quando elas não sabem
 muito bem em que ponto estão. (...). Aliás fico feliz de
 constatar que o ponto de demência de alguém seja a
 fonte de seu charme”. 

 Gilles Deleuze

Para explicar como foi viver um mês e meio no deserto é necessário explicar meu ponto de demência. Fui movida por paixões cheguei no Atacama sem saber muito bem onde estava e contava com a sorte para me estabelecer. Hoje, tenho plena consciência de que mudar-se para um lugar sem a perspectiva de poder voltar caso tudo dê errado não é o melhor tipo de adrenalina a se buscar na vida. No entanto, em dezembro de 2011, eu era só coragem, otimismo e espírito aventureiro – cheguei em San Pedro com dinheiro suficiente para durar uma semana e meia sem trabalhar.

(Porta de agência de turismo, em San Pedro de Atacama. Foto tirada desse link)

Toda a minha imprudência se baseava na promessa da minha amiga “que trabalho na cidade para quem fala três idiomas é ridículo de conseguir”. De fato, se você conhece alguém que já trabalha lá, encontrar emprego não é problema. Como tinha boas indicações em duas semanas arranjei dois empregos: trabalhava de 8h00 às 15h00 em uma agência de turismo e de 16h00 às 01h30 em um restaurante. Trabalhei vendendo tours sem ter feito nenhum deles e como garçonete sem nenhuma experiência prévia. Como? Aceitando ordens, sorrindo muito e falando português, inglês e espanhol. Muita disposição e domínio de mais de uma língua não raro é o suficiente para superar as burocracias de visto de trabalho e conseguir um emprego informal sem contrato – e isso é tão útil quanto perigoso.

Eu, garzona

Trabalhar em um restaurante no exterior foi um grande aprendizado. Profissional e pessoal. Aprendi muito sobre a cultura e comida chilena, sobre como é difícil atender pessoas, sobre como é se sentir impotente quando você não sabe qual é o limite entre o absurdo, a hierarquia e a diferença cultural.

(O gay friendly Expor. Foto tirada desse link)

Trabalhei no Restaurante Expor, o único realmente gay friendly de San Pedro e um dos mais badalados. Quando dizia que trabalhava lá a maioria das pessoas fechava a cara e dizia que achava “pesado”. Com o tempo, descobri que eles não se referiam à grande carga de trabalho, mas à quantidade de drogas que alguns dos empregados de lá consomem. Além disso, para minha surpresa, essa fala existia em muito por um preconceito quase generalizado ao status “gay friendly” do bar.

Apesar do trabalho duro eu gostava muito de lá. Eu não ganhava muito dinheiro por falta de experiência, mas contava com o pagamento diário de uma média de $ 12 000 chilenos (algo em torno dos R$45,00 entre gorjeta e pagamento de turno). Por sorte os garçons simpatizaram comigo e me ensinaram tudo com muita paciência, foram as melhores pessoas que eu encontrei por lá. E eu tinha que aprender TUDO: desde como segurar uma bandeja até como explicar em inglês os ingredientes dos pratos (que eu tampouco sabia o que eram em português). Uma das cozinheiras me odiava e até que ela se acostumasse com a minha ignorância linguística e cultural fui vítima de bullying.  Tive que aprender a lidar com brasileiros que clamavam minha atenção, como se eu pudesse me sentar, dar todas as dicas da cidade enquanto eu me esforçava para não derrubar nada no chão.

(O aconchegante pátio do restaurante Adobe. Foto tirada desse link)

Mesmo tendo trabalhado em um restaurante - o que geralmente cria ojeriza na maioria das pessoas - eu acabei me apaixonando pelos pratos chilenos. Apesar de dependerem muito de importações, o cardápio básico do país apresenta ampla variedade de frutas, legumes e temperos. Ou seja: comer no Chile é caro, mas vale a pena.  Além disso, sou obrigada a reconhecer que os peixes e mariscos do Pacífico não só têm um aspecto diferente como um gosto excepcional.

Fica proibido não provar

Pan y pébre: Entrada servida em quase todos os restaurantes. Consiste em fatias de pão acompanhados por um molho picante de tomate com cebola, ají (espécie de pimenta grande que pode ser amarela ou vermelha), azeite, limão, sal e pimenta. Cada estabelecimento tem sua maneira de produzir o pébre (se lê pêvere), mas a receita não costuma variar tanto.

Completo: Cachorro quente chileno. O tradicional traz salsicha, um molho picante de tomate e muita palta (abacate chileno. É menor que o brasileiro e é sempre servido com comidas salgadas, ou até mesmo como manteiga no pão)

P.S.: Quando disse que comíamos abacate com açúcar alguns chilenos fizeram a mesma cara que você provavelmente acabou de fazer ao imaginá-lo em um cachorro quente.

Ceviche: Peixe cozido apenas em suco de limão. Geralmente leva cebola, sal, condimentos como salsa e pimentão. Dizem as más línguas sulamericanas que o ceviche chileno é muito diferente do peruano.

(Ceviche feito por uma amigo chileno em Valparaíso)

Cazuela: Espécie de ensopado com legumes como batata, cenoura, abóbora, cebola e macarrão ou arroz. Pode acompanhar carne de boi, frango e até mariscos. É muito leve e nutritivo, geralmente tem gosto de “comida de casa”.

Mojito con coca o albaca: Como encontrar hortelã é bem difícil nas redondezas do Atacama geralmente o Mojito é feito com folhas de coca ou de manjericão (albaca em espanhol). Honestamente prefiro com hortelã, mas provar esse Mojito (e quase toda lista de drinks abaixo) é uma questão de imersão cultural.

(Uma das minhas cazuelas preferidas)

Michelada: Chopp com limão, sal na borda do copo e Merken (uma espécie de pó de ají defumado e aromatizado com ervas).


Pisco: Os argentinos estão para o Fernet assim como os chilenos estão para o Pisco. Esse destilado de uva é incolor e muito apreciado nas formas de Pisco Sour (quase uma caipirinha, trocando cachaça por pisco) e  Piscola (pisco + refrigerantes de cola)

Fanchopp: Não era raro ver pessoas tomando as tradicionais cervejas Escudo ou Cristal misturada com fanta.

(Compartilhando uma Escudo com minha amiga chilena)

Top 7 – Restaurantes /Bares

San Pedro tem quase uma infinidade de bons restaurantes. Às vezes fica realmente difícil escolher um, principalmente quando não se tem um padrão de custo benefício como base de comparação. Segue abaixo uma lista dos meus favoritos em qualidade/preço/atendimento.

 - Restaurant Sol (Rua Tocopilla, entre Caracoles e Gustavo Le Paige)
Depois de minha experiência de “Supremacia da Carne” em Buenos Aires, mal pude acreditar na qualidade das saladas desse lugar. São grandes, variadas e bem feitas. Além disso, os hambúrgueres também são deliciosos e podem ser divididos por 2 pessoas com satisfação garantida. Preço médio por refeição: $ 4000 pesos chilenos, sem bebida.

(Nas Delícias de Carmen as empanadas são especialidade. Foto tirada desse link)

 - Delícias de Carmen (Rua Calama, entre Gustavo Le Paige e Licancabur)
A opção Legumbres del dia acompanha salada e deixa satisfeito qualquer pessoa da Terra que ama verduras e vegetais bem preparados. Surpreendentemente essa sopinha de legumes tem o melhor custo-benefício da região – sai apenas a $ 1800 pesos chilenos. Além da opção econômica, as carnes são deliciosas e a qualidade da entrada e do suco natural em jarra se destacam.

 - Pasteleria (Rua Ckilapana, nos Pueblos Artesanos)
Um pouquinho mais afastado do centro de San Pedro, essa confeitaria oferece os melhores doces pelos menores preços: nada custa mais que $1000 pesos chilenos! Guardo amor eterno pela Torta Tres Leches e pela Torta de Frutilla.

 - Café El Peregrino (Rua Gustavo Le Paige, perto da igreja da praça Central )
O “cafezinho”, como conhecemos, não é o melhor, mas o Café Helado e o Milk Shake de Frutas naturais são ideais para o fim de tarde. O ambiente é fresco e agradável, ótimo para curtir a praça central da cidade.

(Para passar a tarde sem compromisso. Foto tirada desse link)

 - Heladería Babalú (Rua Calama, quase esquina com Domingo Atienza)
Definitivamente o melhor sorvete artesanal de San Pedro. O preço da bola de sorvete é de $ 1300 pesos chilenos e a parte mais difícil é conseguir não se viciar. Destaque para os sabores Frutas del bosque e o tradicional Chocolate.

 - Expor (Rua Caracoles com Toconao)
Oferece o melhor clima “balada gringa” do povoado. O bar sempre fica cheio e eventualmente há DJs e, dependendo da animação do público, a noite pode ser dançante. O bar não pode ficar aberto além das 1h30, mas é uma boa opção para esperar e descobrir onde é a festa clandestina do dia. Destaque para o Mojito de Coca e para o Drink San Pedro en Llamas.

 - Chelacabur (Rua Caracoles)
Como boa mineira me encantei com o único boteco da cidade. Mais frequentado pelas pessoas que vivem na cidade o bar oferece serviço rápido e a cerveja litro mais gelada da região. Abre às 10h00 e empresta baralho para os quem precisa matar o tempo ou quer fazer amizades.

(Telão na parede, pizza e cerveja gelada. Um paraíso para uma mineira. Foto tirada desse link)


Para saber mais sobre essa deliciosa experiência de Tamira Marinho em San Pedro de Atacama acesse esse link.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Vivendo na poeira

O que motiva uma mocinha a ir morar no Deserto do Atacama? Pergunta difícil, eu começaria mais com a pergunta “o que motiva uma pessoa a viajar?”  Trabalho, passeio, a busca de um amor distante, a viagem em si. Os motivos podem ser variados e eu achei que tinha todos esses para sair do Brasil e partir em busca de trabalho e de qualquer aventura diferente da que eu tinha.

(Quem ia duvidar de uma linda experiência numa paisagem como essa? Foto tirada desse link)

Na verdade, a ideia foi surgindo da congruência entre desespero e inspiração e, apesar de possuir apenas 600 reais na minha conta bancária, a convicção de que poderia dar certo culminou na minha partida para o deserto mais árido do mundo, sem nenhuma garantia de moradia, trabalho ou estrutura.  Ah, e sem passagem de volta.

A ideia parece absurda, mas analisando os ingredientes que me convenceram a ir sei que os mais animados podem considerá-la razoável:
- eu era uma jornalista recém formada e sem perspectiva de emprego;
- tenho uma paixão louca por viajar e  escrever sobre isso;
- tinha uma paixão louca por um namorado e sair do Brasil poderia nos unir depois de 5 meses separados;
- tinha uma amiga mochileira que acabou se instalando em San Pedro de Atacama e ganhava bastante dinheiro trabalhando por lá.

(Valle de la Luna. Foto tirada desse link)

Foi com esses argumentos que comecei a buscar uma passagem mais barata de ida a partir das milhas aéreas de alguém que as tivesse sobrando. Nessa saga cara de pau uma amiga se compadeceu e me presenteou com uma passagem para Santiago do Chile. Nem me vendeu, nem me emprestou, me deu mesmo. De Santiago eu partiria para minha vida no deserto. E eu parti.  

O plano era passar rapidamente pela capital do Chile, seguido de Valparaíso e Viña del Mar e depois  encontrar minha amiga em San Pedro de Atacama. Lá ela me ajudaria a conseguir um emprego e eventualmente me reencontraria com meu namorado. Juntando dinheiro, viajaríamos pela América do Sul até onde “la plata” permitisse. No fim das contas passei um pouco mais que um mês morando em San Pedro e 20 dias na Bolívia. Parece pouco tempo mas essa viagem foi o que se pode chamar de long way.

O que vocês lerão aqui sobre minha estadia no deserto é muito diferente do que eu pensava que escreveria quando parti. Não foi nada fácil chegar a todas as conclusões, e, para o bem ou para o mal, acabei conhecendo a fundo como funciona esse povoado tão turístico, cheio de mistérios e paradoxos. Contarei sobre San Pedro do ponto de vista de quem trabalhou em duas agências de turismo e um restaurante, ou seja: nas duas atividades que mais movimentam a cidade além da mineração. E acredito que saber os “bastidores” pode mudar em muito sua passagem por lá.

(O flamingo, sempre assediado pelos turistas-paparazzi. Foto tirada desse link)


Basicão de San Pedro

San Pedro de Atacama é uma comuna localizada na Região de Antofagasta, ou II Região do Chile, no deserto de Atacama. Ela é considerada capital arqueológica do país e se encontra a 2.438 metros acima do nível do mar, na foz do Rio San Pedro (o maior rio que chega no Salar de Atacama). 

(Rio San Pedro, contra as montanhas. Foto tirada desse link)

O clima de um lugar pode afetar absurdamente a vida das pessoas e o deserto mais árido do mundo é pra ser levado a sério nesse sentido. O clima de San Pedro é desértico de altitude, caracterizado por mudanças bruscas de temperatura, ventos fortes, alta radiação solar e pouquíssimas chuvas. Pela baixa umidade no ar e altitude da cidade, é muito difícil se sentir suado e na sombra a sensação térmica é até agradável, mas com pouco tempo de exposição ao sol e sem água, você pode ganhar uma insolação facilmente. Respirar é difícil no deserto e aclimatar-se à aridez pode ser uma tarefa um pouco custosa.

No verão (de dezembro a março) a temperatura varia entre 30°C de dia e 16°C à noite, mas a sensação térmica é sempre de mais calor ou mais frio. Nessa época do ano o sol se aproxima do Trópico de Capricórnio gerando máxima radiação e alta evaporação, o que resulta em fortes chuvas. Ainda que não tão regulares, as chuvas podem atrapalhar bastante a viagem, já que nem sempre os tours podem ser feitos devido à possibilidade de neve e más condições das estradas.

(Cavernas de sal no Salar de Atacama. Foto tirada desse link)

O chamado invierno boliviano (fenômeno que apesar de acontecer no verão da Bolívia é tão chuvoso e frio que justifica ser chamado de inverno) também afeta o clima da região: nessa época, a neve no topo dos vulcões e serros ao redor da cidade torna a paisagem ainda mais impressionante. No inverno de verdade (julho a agosto) o clima é muito seco, mas os dias são mais agradáveis (com médias de 22°C) e noite geladas, chegando abaixo de 0°C.

O que não posso deixar de saber?
  • Para fazer a mala
É necessário preparar-se para grandes oscilações térmicas. Para o dia, roupas brancas e frescas que não exponham demais o corpo são ideais. Chapéus, óculos escuros, protetor solar e labial (muito importante!) são indispensáveis. Um pós-sol e creme hidratante podem aliviar eventuais desconfortos. Para a noite, cachecol, blusa de frio e calças compridas.

(Pensava que no deserto não tinha água? Pois tem de tudo! Foto tirada na Laguna Cejar. Foto tirada desse link)

Uma parte importante de visitar San Pedro de Atacama é fazer pelo menos um dos tours oferecidos pelas numerosas agências da cidade. Prepare-se para nadar, caminhar muito, sujar suas roupas e até encontrar temperaturas como menos 10°C. Não esqueça: sapato confortável e resistente para caminhar, chinelo, traje de banho, se possível roupa térmica, gorro, cachecol e luvas. Lanterna e binóculos não são essenciais, mas podem ser úteis.
  • Para sobreviver
Manter o corpo sempre hidratado é essencial não só pela secura do ar como também ajuda com a questão da altitude. Beba sempre água mineral e tome cuidado para não exercitar-se demais sem ter a certeza de que está aclimatado. É muito comum sentir cansaço, náuseas e dor de cabeça enquanto o corpo se acostuma com a baixa pressão do ar e cada organismo reage de forma diferente à altitude. Evite comidas muito pesadas ou grandes bebedeiras, e não tenha medo de recorrer aos “caramelos” ou folhas de coca para evitar o mal de altitude.

 San Pedro tem duas farmácias: uma delas só funciona depois das 16h30 e a outra funciona de 9h às 14h, e de 17h às 22h. Aliás, o horário comercial de bares, restaurantes, agências e demais serviços depende da boa vontade dos comerciantes e muitos deles realizam sua siesta entre 14h e 17h. O posto de saúde oferece pronto-atendimento a estrangeiros, mas é necessário chegar às 7h da manhã e aguardar. A consulta não é grátis e geralmente sai a 10.000 pesos chilenos (algo como 35 reais). A compra de antibióticos e remédios mais específicos é feita apenas com receita médica.
  • Para disfrutar 
No Chile, o consumo de álcool nas ruas é proibido e especificamente em San Pedro de Atacama, os bares são obrigados a fechar até 1h30 da manhã. Eventualmente os forasteiros que vivem na cidade organizam o que chamam de carretes clandestinos, que nada mais são que festas ilegais no meio do deserto. Essas festas não podem ser divulgadas com muita antecedência e a melhor forma de ser convidado ou descobri-las é fazer amizade com alguém que trabalha na cidade ou aguardar até meia-noite/uma da manhã e seguir as pessoas que saem para esses eventos. Não será difícil perceber os agrupamentos que se organizam geralmente em vans que levam e trazem os baladeiros.

(Pôr do sol em San Pedro. Foto tirada desse link)

Não se esqueça de olhar para o céu estrelado de San Pedro e observar eventuais mudanças de paisagem. Qualquer passeio no deserto reserva surpresas.
  • Para não ser enganado
Tudo em San Pedro de Atacama é caro. A cidade vive de turismo - pra não dizer da exploração de estrangeiros. Como trabalham com super faturamento, quase todos os tours e serviços são passíveis de negociação e baixa de preço. Não aceite a primeira oferta que te fizerem.

Nos bares e restaurantes o costume é deixar 10% de gorjeta (ou propina, como se diz em espanhol) ainda que não venha previsto na conta. Brasileiros são conhecidos como “mão de vaca” no quesito propina e a surpresa de uma boa gorjeta pode garantir atendimento diferenciado tanto em restaurantes como para guias turísticos e prestadores de serviços.

(Praça principal em festa religiosa que precede o carnaval )

Tamira Marinho é jornalista pela UFMG. Estudou letras por um semestre em Buenos Aires e desistiu de um retiro espiritual na Tailândia para correr atrás de uma paixão e morar no deserto do Atacama. Ela diz que só se envolve com o que se apaixona, e sabe que se envolve com coisa demais. Entre um trabalho e outro, ela tenta ser nadadora, meditante e bailarina de fim de semana. Para saber mais sobre a Tamira é só clicar aqui.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Nostalgia à bolognesa

Eu costumo dizer que a partir do momento em que resolvemos fazer um intercâmbio, viajar para fora, para estudar ou trabalhar, estamos fadados a sentir saudade. E ouso dizer que isso é pra sempre. O bom é que, pelo menos pra mim, essa saudade não é daquelas doídas, costuma vir como uma cosquinha gostosa e me deixar com um sorriso bobo no rosto.

(Ruela do Mercado Velho em Bologa. Só saudades... Foto de Juli Borsa - Mochila da Juli)

Escrevendo sobre Bologna, procurando fotos para ilustrar os posts, tantas lembranças vieram a minha cabeça. Pessoas, lugares, conversas, comidas, festas, sensações. Acho que esse sentimento independe do local para o qual se foi, mas tenho certeza que cada lugar deixa na gente marcas, experiências e saudades bem específicas.

De Bologna guardo coisas que só Bologna poderia ter me oferecido. Não que eu não queira morar em outras cidades por uma temporada ou que eu ache que não existam outros lugares maravilhosamente bons pelo mundo. É só porque, pra mim, morar em Bologna foi especial (talvez também por ter sido a primeira vez em que morei fora de casa).

(Um pisolino depois do almoço não faz mal pra ninguém. Foto tirada desse link)

Levo não só as paisagens e sabores, mas também a tranquilidade e a calma com que as pessoas andavam e viviam. Não sei dizer se é coisa de italiano, mas pelo menos em Bologna as pessoas pareciam não ter pressa. Desde os passos lentos nos passeios largos até as 3 horas de almoço, que permitiam uma boa siesta ou pisolino (em português, cochilo), a qualquer cidadão de bem. No horário de almoço fecha-se tudo: bancos, lojas, até farmácias. Acho que só os restaurantes não se incluíam nessa. E foi bom perceber que ninguém morre com isso e que tem coisas sim que podem ser deixadas para depois, sem nenhum dano.

Na Europa os próprios italianos dizem ter fama de preguiçosos, mas não acho que seja bem assim. O que sei é que a mim fez bem viver em marcha mais lenta, com tempo para cafés e sorvetes no final da tarde (que não são luxos apenas de turistas e intercambistas), tempo para admirar os já falados pórticos e até tempo para o doce “bel far niente”. Eu adoro essa expressão italiana e, como eles, acho mesmo que existe beleza no ócio.

(A mãozinha balançante... tão necessária quanto a própria língua. Foto tirada desse link)

Além de amar a sonoridade da língua italiana, tem diversas expressões nesse idioma que eu adoro, a maioria pela criatividade. As que eu mais gosto, por serem super divertidas, são as utilizadas para desejar sorte a alguém que enfrenta uma circunstância difícil: uma prova, um jogo disputado, uma entrevista de emprego. Nesses momentos os italianos costumam dizer In bocca al lupo!, o que significa “Na boca do lobo!”. A pessoa que recebe os auguros de sorte responde, então, Crepi! É como se a pessoa estivesse dizendo algo do tipo “Matarei o lobo” ou “O lobo já era”. Veja bem a situação: você está na boca do lobo e ainda assim consegue matá-lo. Isso, de fato, só pode ser muita sorte. Usando essa mesma lógica, porém de forma um pouco menos delicada, existe também a expressão In culo alla balena! ou “No cú da baleia!”. E se você está lá e sobrevive, é mesmo um cara de sorte.

Também adoro a palavra ubriaco, que significa bêbado. Quando está no aumentativo então, fica mais legal ainda: ubriacone. Aliás, o aumentativo e o diminutivo em italiano são uma delícia de dizer: one (ão) como em bacione (beijão) e etta (inha) como em casetta (casinha). Existem várias outras palavras que eu sinto grande prazer em pronunciar: zucchero (açúcar), cucchiaio (colher), coniglio (coelho) e marciapiede (calçada) são algumas delas. Não me canso de me apaixonar pelo idioma italiano. Antes de começar a aprendê-lo jamais pensei que estudar línguas pudesse ser tão gostoso. Todo início de mês uma das italianas que morava comigo pegava um calendário que tínhamos na cozinha, com fotos de frutas, verduras e legumes, e fazia uma arguição comigo e com a nossa coinquilina francesa para ver se sabíamos os nomes dos alimentos, e até isso era legal.

(Frisbees pela madrugada)

De Bologna sinto ainda saudade do corredor da casa onde morei, único, enorme, quase sem fim. Era um apartamento com nove quartos distribuídos por um longo corredor. E o mais engraçado: o patrono da casa (como se diz proprietário por lá), que pra mim não batia muito bem das ideias, não alugava todos e deixava cinco dos quartos trancafiados. Lembro do trenzinho que fizemos no corredor durante uma festa. Jogávamos até frisbee ali, como se fosse um grande parque. Recordo-me ainda, porém sem tanta saudade, da preguiça que tinha de ir ao banheiro quando acordava no meio da noite. Como já disse, o corredor era infinitamente longo e o banheiro, lá no final, bastante longe do meu quarto.

Da casa, guardo na memória também a cozinha, com quatro geladeiras e dois fogões - afinal, nos tempos áureos, com os nove quartos ocupados, onze mulheres chegaram a morar lá ao mesmo tempo. Acho que a cozinha era o lugar onde mais ficávamos. Fazíamos almoços e jantares coletivos, onde cada uma contribuía com o que tinha na geladeira ou no armário e macarrões maravilhosos surgiam.

(Violões e cantoria. Foto tirada desse link)

Ainda guardo o gostinho bom de falar que era brasileira. Não sei se é assim com todo mundo que vai pra fora, mas não me recordo de uma vez em que disse vir do Brasil e a pessoa não abriu um sorriso ou elogiou a alegria e a beleza da nossa gente. Conheci sim, e infelizmente, pessoas que achavam que a capital do Brasil era Buenos Aires, mas isso é recompensado por outras tantas pessoas que realmente se interessam pelo nosso país, nossa cultura, comida e nossa língua.

Sinto falta também do ar musical de Bologna. Deixava o dia mais leve trombar com artistas de rua nas esquinas, entoando canções nessa língua que já é melodia. Domingo na Piazza Maggiore vários deles se reuniam, fazendo de mágica à acrobacia, além de música, é claro.

(A Europa e sua antiga relação com os artistas de rua)

Uma das maiores saudades que sinto da vida em Bologna são das tardes e noites passadas nas praças e parques. Acho que isso não é algo específico da cidade, é coisa de europeu (e das boas). Admiro como o espaço público ali é de fato público, como as pessoas o utilizam de verdade. No verão, quando o calor em Bologna é absurdo, as praças e parques ficam lotados. De dia era parque, pic nic, sol, violão, baralho, bola e, às vezes, cerveja. À noite sentávamos nas praças, ao pé de suntuosas igrejas, e era mais violão, mais cerveja e muito, muito papo. O melhor é que no verão a noite ainda é dia. O sol dura até umas 20h30, o que faz a gente perder a noção do tempo de um jeito delicioso e achar que é sempre mais cedo do que realmente é. Tinham ainda as festas na rua, em meio às belas construções, e aquelas que ocupavam até os prédios da universidade.

(As praças quando a noite se fazia noite, por volta das 21h30 ou 22h)

De Bologna só guardo gostosas lembranças e as doçuras de um intercâmbio, que para mim é um parênteses na vida, um parênteses bem recheado de coisas boas e novas experiências. Bologna foi minha segunda casa e acho que será sempre essa a sensação que terei ao visitá-la. É uma delícia saber que não temos apenas um lugar no mundo.

Se quer saber mais sobre as experiências da saudosa Júnea Casagrande em Bologna, entre nesse, nesse e nesse link.