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sábado, 20 de fevereiro de 2010

Carnaval atribulado

Um caos. Essa palavra resume a cidade de Diamantina no feriado do Carnaval: um verdadeiro caos. E não é um caos organizado, como naquelas cidades que ficam cheias por algum motivo qualquer, mas você ainda consegue um canto tranquilo pra sentar ou um espaço pra dar uma respirada. É um caos de pessoas, de música, de lixo no chão. Inclusive, pensei que a frase "para andar 50 metros na multidão as pessoas demoram 30 mintuos" que coloquei no post passado fosse exagero. Mas não: esse é o tempo médio que se leva mesmo.

A primeira razão para Diamantina virar um caos é o número de pessoas que vai para lá. A cidade, que tem cerca de 44 mil habitantes, recebe o triplo da sua população durante o feriado. Um dos resultados disso é a falta de água, que acomete grande parte das casas próximas ao centro. Perto do carnaval moradores da cidade já começam a fazer estoque de água, enchendo galões e baldes.

Outro problema é o cheiro de xixi. Como os banheiros públicos, ou "pipimódromos", são poucos e com grandes filas, as pessoas acabam se aliviando pelos becos da cidade. Nem a tática da polícia de bater e multar em quem fizesse xixi na rua funcionou. Um taxista nos disse que da quarta-feira de cinzas em diante a cidade é lavada diariamente e, mesmo assim, o cheiro dura por mais ou menos 15 dias. A quantidade de lixo nas ruas também é aterrorizante e as equipes de limpeza trabalhavam sem parar. Fiquei imaginando como ficaríamos se chovesse. Como todas as bocas de lobo estariam entupidas, a cidade se transformaria em uma corredeira só.

Enfim, a bagunça é tanta que nos últimos dias escutei um comentário engraçado: "A parte histórica de Diamantina nem é tão grande ne?" Heim? Como não? Diamantina é uma cidade histórica bastante grande em comparação com Tiradentes, Mariana e outras. Mas depois eu percebi que o comentário fazia sentido porque é praticamente impossível reparar na cidade, olhar pra cima, ver suas construções. A própria cidade vira outra, sem aquele charme de cidade histórica e vira uma micareta a céu aberto.

(Foliões desfilam na praça central. Juscelino Kubitscheck resolveu dar o ar da graça. Foto tirada desse link)

A compensação

E a parte boa, onde fica? Do jeito que escrevi lá em cima parece que tudo é ruim ne... Nada disso. Se tudo fosse tão ruim assim o carnaval de Diamantina não seria um dos mais famosos de Minas. Pra quem quer festa literalmente 24 horas é o lugar perfeito. Qualquer hora que você sair na rua vai ver gente pulando, dançando e bebendo. Como minha casa ficou bem longe da muvuca eu tinha que andar muito pra chegar no centro e a cada esquina tinha um som ligado com gente na rua ou uma casa oferecendo festa.

Alguns estabelecimentos que não fazem parte da programação oficial já viraram tradição. Um deles é o Bar do Titi. A festa lá começa de manhã e vai até o final da tarde. O local fica tão entupido que cheguei a ver pessoas daçando nos telhados das casas.

Dentro da programação oficial, há música em vários pontos da cidade. Perto da rodoviária um palco foi montado para a apresentação de grupos de pagode e de dança que ensinavam coreografias de axé. No largo Dom João, a festa era mais familiar, com blocos de rua tradicionais, marchinhas de carnaval e muito samba. Na rua da Quitanda, na frente do bar A Baiúca, grupos de samba tradicional e de raiz começavam a tocar às 15h. A partir das 20h, DJs animavam o local com samba rock e outras misturas.

Outros pontos da cidade também se prepararam para receber os turistas oferecendo de tudo, inclusive MPB. Mas o ponto alto do carnaval era mesmo na Praça do Mercado Velho, aonde as bandas Bat-Caverna (com direito a Batman atravessando a praça de tirolesa) e Bartucada animavam o batalhão de pessoas. Começavam às 20h e só paravam às 7h da manhã.

(Show da banda de percurssão Bartucada. Axé, samba e sertanejo em ritmo acelerado tomavam conta da noite. Foto tirada desse link)

Paquera, álcool e axé

Não foi só a festa que deixou a cidade animada. Me diverto muito com alguns foliões fantasiados de Amy Winehouse, Freddy Mercury Prateado, lutadores romanos e mais centenas de pessoas só de sunga ou fralda. Em questão de drogas, o carnaval de Diamantina 2010 foi o ano do loló. Vi muitos vendendo e usando a mistura. Também fiquei impressionada com a quantidade de álcool ingerida. Só na minha casa (com 35 pessoas) foi mais de 20 garrafas de vodka, fora rum, tequila, cerveja, catuaba... Apesar de pessoas bêbadas e incovenientes serem chatas, conheci algumas que estavam pra lá de Bagdá e só me fizeram rir.

Outra parte divertida também foram as cantadas ridículas que escutei. Algumas tão ridículas que chegavam a ser engraçadas. Para se ter uma ideia:

- Oi, meu nome é Arlindo. Mas quando te vi perdi o Ar.
- Se você fosse um peido eu não te soltava nunca.
- Você já fez aula de canto? Então vamo ali no canto pra eu te dar um aula.
- Seu short é espacial? Porque você é de outro mundo.

Fiquei até pensando com quantas meninas essa tática não funcionou... Mas em questão de paquera, é melhor ficar esperto. As típicas e eternamente repetidas recomendações dos pais são válidas: não aceite bebida de ninguém, não se deixe levar para a casa de qualquer um, use camisinha. E faça um bom alongamento antes de sair de casa para se esquivar dos marmanjos que tentam agarrar a força. No mais, a curtição é garantida!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Ó abre alas que eu quero passar!

Se tem uma cidade em Minas que o Carnaval não dá o menor ibope essa cidade é, pasmem, a capital: Belo Horizonte. Quem fica aqui no feriado pode se dar ao luxo de atravessar a rua sem olhar para os lados, não enfrentar filas para ir aos cinemas, pegar um bom lugar no bar que passa o jogo de domingo. Isso tudo porque a cidade esvazia!

Brincadeiras a parte, no Carnaval, BH fica um paradeiro só. E isso já é praticamente oficial, já que as comemorações da data acontecem uma semana antes. A tradicional Banda Mole - bloco no qual os homens saem vestidos de mulher - por exemplo, aconteceu no sábado passada. Outras festividades de bairro também tiveram seu espaço na semana passada.
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(Deusas do carnaval belorizontino. Foto tirada desse link)

A verdade é que já na sexta-feira as estradas enchem. São motos, carros e ônibus partindo para mil e uma cidades fora e dentro de Minas. Esse ano, escolhi a cidade de Diamantina. Alguns, depois de ler isso, perguntariam: "porque, meu Deus?". Vou explicar. Já passei Carnaval em mil lugares diferentes, mas nunca em uma legítima micareta. Se isso é bom ou se é ruim, só vou descobrir lá. Mas decidi descobrir pelo menos. Afinal, estou nova e ainda gosto de uma muvuca. Estou indo para lá antes que eu fique velha e com preguiça de ir pra esses lugares. Se gostar, inclusive, ainda terei vários anos pra voltar.

O que sei do Carnaval de Diamantina é que a cidade fica completamente entupida. Tão entupida que para andar 50 metros no meio da multidão as pessoas demoram 30 minutos. Também é comum faltar água nas casas mais centrais. O cheiro de xixi, pelo menos, é um problema do passado. Há alguns anos a polícia decidiu ser mais enfática: quem é pego tentando se aliviar pelas ruas da cidade ao invés de usar o banheiro público leva porrada.

(É pra essa zona aí que eu vou. Será que se eu tivesse no meio dessa multidão você me encontrava? Foto tirada desse link)
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Quanto a hospedagem, o mais comum é alugar casas ou quartos. Muitos moradores de Diamantina viajam nessa época exatamente para ganhar um dinheirinho extra. Quando não viajam, é costume alugar um ou mais cômodos para os turistas. A lógica, como rege o sistema capitalista, é a da oferta e procura: quanto mais cedo você procurar, mais oferta, mais barato. Quanto mais tarde, mais difícil encontrar e mais caro. Algumas fecham pacotes por verdadeiras pechinchas, cerca de 200 reais casa, almoço, transporte e limpeza. Eu, que fechei bem no início de janeiro, estou gastando 400 reais para isso tudo.
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Na mala, roupa de calor para manhã e frio para a noite, pois Diamantina é montanhosa e não escapa do vento frio nem no verão. Tênis e chinelo, roupa de cama, miojo e band aid. Acho que com isso dá pra sobreviver! Volto na quarta. Até sexta-feira no máximo conto as novidades.
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Bom carnaval para todos!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Ensaio fotográfico

Eu disse que a sessão Diamantina ia ter fim no último post. Eu sei, eu sei. Mas disse também, no ínício da viagem, que mais tarde ia postar uma seleção de fotos que tirei no Festival. Assim, peguei as fotos que achei mais interessantes e informativas para colocar aqui.

Mercado Velho e sua praça. Por ser a maior da cidade, é nela que acontece o carnaval.

Ruelas de Diamantina. A direita, o beco da Tecla. A noite, várias pessoas pegavam seus bancos, colocavam na rua, ligavam o rádio e passavam a noite toda conversando. Pela manhã, era o ponto de venda de salgados e doces.

A foto a esquerda foi tirada como consequência do melhor passeio que é possível fazer na cidade: sair andando por aí.













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Antiga Rodoviária, hoje transformada em corpo de bombeiros, e Casa da Glória, da janela da minha sala de trabalho.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Festival de Inverno de Diamantina. Vale?

Sempre que escuto sobre festivais e afins fico na dúvida: o que acontece nesses eventos? São artistas da cidade ou que vieram de fora? Como saber qual festival vale a pena? Assim, para fechar a sessão “Diamantina”, resolvi fazer uma reflexão sobre o Festival de Inverno da cidade.

O primeiro movimento necessário é dar uma olhada no passado. Esse foi o 41º, e pelo que vi não foi dos melhores. Durante meu trabalho tive a oportunidade de sair a campo e conversar com moradores e turistas sobre o impacto do Festival na vida deles e na cidade. Quase todos disseram que o evento caiu drasticamente em todos os sentidos.

Uma moradora disse que no início o Festival durava um mês, depois começou a durar 20 dias, e hoje tem só 15. O número de eventos também caiu. Até o ano passado os artistas “brigavam” por espaço no jornalzinho impresso, pois eram 5 ou 4 matérias por dia e pelo menos 6 espetáculos. Esse ano ninguém ficou sem lugar. Em se tratando de verba então, nem se fala. Os coordenadores do Festival mostraram o tempo todo a dificuldade de conseguir patrocínio para realizar o evento. E sem verba tudo diminui. A principal atividade do evento esse ano, inclusive, foi um seminário que durou 2 dias e trazia para a roda dúvidas sobre como manter esse tipo de Festival e a cultura do patrocínio.

De toda forma, ele ainda e ótimo (e não estou ganhando nada pra falar isso, acreditem). O Festival de Diamantina é um dos mais antigos e maiores do estado. Foi ele que inaugurou esse formato – hoje tão comum – que traz, entre diversas características, duas que podem ser destacadas: oficinas para as pessoas se aprofundarem nas temáticas de sua escolha, como teatro, fotografia e vídeo, e uma série de espetáculos de rua e de palco de forma que o evento se transforma quase em um festival de cultura.

Os espetáculos do evento são muitos e de altíssimo nível. E uma curiosidade interessante: os grupos Corpo e Galpão, hoje internacionalmente conhecidos, começaram no Festival, há muitos anos atrás.

E mesmo que não seja tanto quanto nos anos anteriores, o Festival ainda movimenta – e muito – a cidade. Pousadas cheias, pontos turísticos movimentados e ruas acessas. Os comerciantes da cidade não tem do que reclamar, pois a renda sempre aumenta. Um vendedor me disse que o Festival ainda perde em quantidade de pessoas para dois outros eventos: o Carnaval e a Semana Santa, mas ainda assim é dinheiro entrando.

Se fosse para dar o veredicto final, eu diria que vale muito a pena. Por mais que a falta de investimentos e patrocínio atrapalhem, o Festival ainda é um dos melhores e mais interessantes Festivais de Inverno do estado e do país. Se possível, não só assista aos espetáculos a noite, mas encontre uma oficina do seu agrado e participe. Uma amiga minha fez uma oficina de teatro que diz ter sido excelente. E se estiver lá aproveite: visite a cidade, que é linda.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Ruas e ruelas

Em termos de pontos turísticos a serem visitados, Diamantina não perde para nenhuma cidade histórica. Se bobear ela até ganha: não é como Ouro Preto ou Tiradentes que tem um centro histórico, ela TODA é histórica.

Algumas atrações, porém, não valem a pena. A Casa do Intendente é uma delas. Ela está em restauração para abrigar o Museu de Arte Sacra. Não sei como o museu vai ficar, mas por enquanto a única coisa que a casa oferece ao visitante, além de muita poeira, é um teto não restaurado com pinturas que datam do final do século XVIII.

Há outros pontos turísticos que valem muito a pena, mas não gastam muito tempo, como as igrejas, de uma forma geral. Igreja por igreja, outras cidades históricas oferecem mais. A casa da ex-escrava Chica da Silva é outra. A fachada é linda e os turistas podem tirar ótimas fotos, mas não tem muitas coisas dentro da casa.

Alguns lugares recomendo fortemente. Um deles é a Casa da Glória. A casa é formada por duas edificações dos séculos XVIII e XIX ligadas por um passadiço (este sim, o cartão postal mais famoso da cidade). Anteriormente o local era o colégio das irmãs vicentinas e o passadiço foi construído para que elas pudessem passar de um edifício ao outro sem serem vistas. Hoje é propriedade da UFMG e não tem lá muita coisa para se ver. Mas tire um tempo para ficar sentado no pátio da casa. Ele é muito bonito e tem um pé de cajá-manga liberado para quem quiser catar uma fruta). Outra coisa legal para fazer é reparar nos vestígios que ficaram da época em que era um colégio. Tem uma sala de estudos, por exemplo, com potinho de água benta e confessionário: era a sala aonde elas rezavam.

(Foto tirada aqui)

Outro lugar bacana é o Mercado Velho. Mas atenção: visite-o nas sextas à noite, ou nos sábados pela manhã, quando acontece a feira de comidas e bebidas típicas. Nos outros dias o lugar fica vazio, mas ainda assim vale uma foto: dizem que os arcos do local inspiraram Oscar Niemeyer a desenhar a fachada do Palácio da Alvorada, em Brasília. E por falar em Niemeyer, é em Diamantina que fica a casa aonde Juscelino Kubitschek passou sua infância. Traz mobílias e outros acessórios usados pelo ex-presidente, mas faz parte da lista de coisas que não se gasta muito tempo para ver.

Em matéria de museu, o do Diamante é o melhor. O local tem um rico acervo da região de Diamantina e mostra muito da época em que a cidade vivia praticamente em função da extração de pedras preciosas. Lá dentro é possível encontrar arte sacra, mobiliário, armas, pedras preciosas, roupas e entre outros materiais.

Ir ao Mirante também vale a pena, e como disse o morador da cidade no outro post, escolha o horário do por do sol: a cidade ainda é visível e você vê o céu mudando de cor enquanto a cidade acende suas luzes.

Mas gaste muito tempo mesmo é dando uma volta pela cidade! As ruelas de Diamantina com seus becos e casas históricas são lindas. Faça isso todos os dias. Alguns são especiais. Nos fins de semana no Largo da Baiúca (centro), por exemplo, além dos habituais vendedores de bijuterias há mulheres vendendo quitutes como bolo e salgados em algumas ruas. Vez ou outra tem até músicos, de todos os ritmos. Quando se cansar pare em algum dos vários bares do local. Mas vá para outros cantos da cidade também. Os bairros mais afastados são residenciais, mas são bonitos, tranqüilos e muitos deles (como sempre) históricos. Dá pra ficar cansado pois a cidade é cheia (bem cheia) de morros. Não desista!

















(Fotos de Foca Lisboa)

terça-feira, 28 de julho de 2009

O vendedor de jóias - Personagens (1)

Sentado no Largo da Baiúca, em Diamantina (MG), o Peruano Daniel Ramos, 55 anos, se difere dos demais. Sem dúvida, ele não tem cara de brasileiro. Isso a gente vê na hora. Nem o ofício dele se parece muito com o nosso. Aqui o negócio é na improvisação: colar de cerâmica, de pena, artesanato com cabaça. Mexer com pedras e prata é diferente. Não que no Brasil o oficio com jóias não exista. Mas os colares, brincos e anéis de Daniel tinham formas diferentes. Eram mais duros, pesados, trabalhados de uma outra forma.

Em pouco tempo minha dúvida sobre sua nacionalidade se dissipou. Primeiro foi com o sotaque: um ‘não’ mais para ‘non’ e entonações diferentes. Um migrante da América do Sul. “Cheguei no Brasil em 84”, ele disse. De lá pra cá, morou 7 anos no Rio de Janeiro, 2 em São Paulo e está a 16 em Belo Horizonte. Porque a escolha da capital mineira? “Casei e fiquei por BH. Hoje tenho dois filhos”, conta. A mulher, infelizmente, já morreu.

A ele restou os filhos. Um está na 6ª serie do Ensino Fundamental “Gostar de estudar ele não gosta não. Se eu não puxo, ele fica o dia inteiro soltando pipa, jogando bola ou no vídeo-game”, diz rindo bastante. O outro tem 19 anos e prestou vestibular para Biologia no ano passado. “Passou em 4º na Uni BH. Falei com ele ‘fico muito feliz meu filho, mas não vou ter dinheiro para pagar não’. Pena que ele não passou na federal”.

Para Daniel o estudo é muito importante: é o filho mais novo de seis irmãos, nenhum deles formados. Por isso mesmo faz de tudo para incentivar os filhos. “Falo com eles que estudar é muito importante. Não deu pra gente estudar que a gente era muito pobre, minha mãe já tava mais idosa e todo mundo foi trabalhando. Ninguém me incentivou. Mas eu falo sempre para eles o tanto que estudar é importante”.

Em Diamantina ele está só de passagem. Chegou domingo, dia 19, e foi embora no sábado. Daniel não tem um lugar fixo em BH para expor suas peças, mas quando não tem para onde ir marca ponto no Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. “Lá é tranquilo. Gosto de ficar por ali”. E gosta do Brasil. “Todas as mulheres são vaidosas, mas na Argentina, no Chile, as mulheres compram em loja. Aqui no Brasil elas compram muita coisa de rua. Gostam muito”. E olha que suas peças de prata com pedras preciosas são dignas de boutique. O mesmo pode de dizer do preço: um anel grande com uma pedra no meio adivinha quanto? 80 reais.

Cara de peruano, mas jeito de brasileiro. Daniel mistura sua própria simpatia a malandragem necessária a um vendedor, típica de quem já se aclimatou a essas bandas. Mas apesar do amor ao nosso país, vai com os filhos ao Peru todo ano. Sem se esquecer: “era minha mulher que adorava aquele lugar...”

domingo, 26 de julho de 2009

Cobertura cultural

Um dos meus primeiros posts sobre a cidade de Diamantina trazia a cobertura de um dos eventos do 41º Festival de Inverno, a apresentação do grupo de percussão Iukerê. O evento continua e hoje decidi dar uma geral do que vi aqui na cidade em termos de apresentações até agora para vocês terem uma ideia do tamanho do festival (em termos quantitativos e qualitativos).

Na quarta-feira asistimos a uma peça que se chama Eu ainda tenho leite. A peça é resultado de uma disciplina do curso de Teatro da UFMG e traz a vida de cinco mulheres (algumas reais e outras não): um fantasma, uma vítima dos campos de concentração nazista, uma prostituta aposentada com câncer, uma virgem de 60 anos e uma mulher que casou por convenção. A peça se passa em uma casa: começa fora dela e somos conduzidos por uma das personagens ao longo das cenas.


No mesmo dia fomos assistir ao show de Jards Macalé. Pergunta pertinente: alguém já escutou falar nesse cara? Meu Deus, todo mundo na fila do ingresso falando dele e eu: “Quem?”. Para mim se resume a uma frase: compositor da música Vapor Barato. O show foi, digamos, interessante. Ele é um cara meio estranho e com uma voz muito boa, mas desgastada pelo cigarro.

Na quinta-feira foi a vez do Circo do Só Eu: a história de um palhaço que foi abandonado pela sua trupe e veio sozinho fazer o show. Estava lotado, a ponto de eu ficar em um morro atrás do palco a metros consideráveis de distância! A noite teve um espetáculo chamado Musicosfera, do Mauro Rodrigues Quarteto. Show instrumental que misturava jazz e blues. A todo momento lembrava de músicas conhecidas, mas adaptadas.

Sexta-feira fui ver o filme Ressaca. E ele é assim: o cara criou um painel redondo com imagens virtuais. Quando ele clica nos pontos luminosos do painel eles se abrem para algumas imagens e vai montando o filme ali, de acordo com a reação da platéia. São 120 imagens sobre a história de um adolescente nos anos 80. Até agora a técnica é um mistério para mim, mesmo ele montando o filme na nossa frente. O filme em si não ficou maravilhoso. A idéia de edição ao vivo é mais interessante do que a história.

O final da noite estava reservado ao espetáculo Dolores, da Mimulus Cia de Dança. O espetáculo traz as temáticas de Pedro Almodóvar ao som dos vários ritmos da dança de salão. O cenário traz cores fortes e música bem marcada. Não há uma historia linear, mas varias histórias aos quais a platéia se identifica. É ótimo. Há quem diga que durou mais que o necessário. Pode ser, mas ainda assim foram uns 15 minutos de palmas ininterruptas.
Ao longo do Festival ainda vão acontecer apresentações de teatro e de música, lançamentos de livro e exposições. Como destaque desses próximos dias há o Grupo Galpão e o Duo Eisenberg Adour, de violão e flauta.

sábado, 25 de julho de 2009

Diamantina na voz de quem é da cidade - comes e bebes

“Costumo sair pouco. Sei lá, vou para pizzarias. Quando você pergunta pra onde eu vou é difícil responder porque aqui na cidade não tem muito coisa pra fazer, tem mais é bar mesmo”, comerciante de Diamantina.

Dica: de fato, a cidade tem poucas atrações para a população local pois não tem cinema nem teatro. Mas há alguns eventos na cidade. Além da Vesperata, os mais famosos são o Carnaval, o Festival de Inverno e as festas religiosas, como a Semana Santa.

“A Livraria e Café Espaço B. é ótima. Tem música e livros, mas o melhor de lá é o clima, que é muito agradável”, trabalhador autônomo.

Dica: O lugar tem cara de caro, mas é acessível. E confira a programação: no sábado que chegamos aqui tinha música ao vivo. Uma mulher cantava MPB acompanhada de dois músicos.

“Há pouco tempo lançaram a casa de vinhos Athenas do Norte e ela é muito boa”, atendente de lanchonete.

“A bebida que mais vende aqui é caipirinha e cachaça”, morador.

Curiosidade: A presença da cachaça na cidade de Diamantina é notada ainda em 1840. Não bebiam só negros, mas também os brancos de ambos sexos e de todas as camadas sociais.

As comidas típicas daqui são comidas típicas mineiras: costelinha cm ora-pro-nobis, tutu de feijão, frango ao molho pardo”, atendente em restaurante.

Curiosidade: Para alguns, a melhor comida típica de Diamantina é feita pelo chef Vandeca, reconhecido como melhor cozinheiro da comida tropeira do Brasil. Vandeka trabalha na Pousada do Garimpo e criou um prato que é sucesso na região há 25 anos, o Bambá do Garimpo
Dica: Por serem comidas mais difíceis de serem preparadas, pois levam um tempo considerável, elas costumam ser encontradas em restaurantes a la carte. Aqui em Diamantina até os restaurantes self service oferecem essas variedades. Obviamente, a qualidade cai.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Diamantina na voz de quem é da cidade - lugares

Hoje de manhã, minha função era sair por Diamantina. Aproveitei o trajeto para descobrir melhor a cidade e perguntar para as pessoas locais que estão aparentemente fora do percurso turístico comum e que valem a pena visitar. Alguma (e boas) dicas foram aparecendo:

“O mais interessante da cidade é a Vesperata, que acontece em certos sábados”, comerciante de Diamantina.

Curiosidade: Em 1999 Diamantina recebeu o título de Patrimônio Cultura da Humanidade. A Vesperata aconteceu em dezembro daquele ano, como comemoração ao título.
Dica: Programe-se. As Vesperatas costumam encher os hotéis. É prudente reservar um quarto com cerca de um mês de antecedência.

“Para sair a noite tem o Mercado Velho, toda sexta-feira. Lá tem comidas e bebidas típicas da região”, comerciante de Diamantina.

Curiosidade: Esse evento é conhecido pelo nome provisório de Sexta Cultural. Enquanto o pessoal vende, artistas diamantinenses tocam músicas de variados estilos.

“As cachoeiras daqui são ótimas. A dos Cristais, em Biri Biri, é a melhor”, taxista.

Curiosidade: O povoado é um distrito de Diamantina e formou-se em torno de uma fábrica de tecelagem que se instalou lá em 1876. O conjunto arquitetônico é tombado pelo EPHA.
Dica: A alimentação é um problema, pois está restrita a dois únicos bares. Além disso, almoços durante a semana só mediante reserva no Biri Biri Bar.

“Eu gosto de ir a Milho Verde. Daqui até lá tem uma paisagem linda. Sou suspeito para falar porque nasci lá”, taxista.

Dica: Para Milho Verde são só 40 km de Diamantina, mas não tem asfalto.

“Eu indicaria a Gruta do Salitre. E quem vai lá tem a oportunidade de conhecer Curralinho e também a estância do Salitre”, dona de lanchonete.

Curiosidade: Escravos usavam a Gruta do Salitre como esconderijo. Hoje, ela abriga concertos de bandas de música devido à ótima acústica do local.
Dica: A estância do Salitre é um hotel, mas as pessoas que não estão hospedados podem visitar o local.

“Eu indico o Cruzeiro. Dá pra ver a cidade toda de lá. É muito bonito quando vai anoitecendo e as luzes vão se acendendo”, estudante.

Curiosidade: Mirante da cidade em uma altitude de 1.300 metros. A cruz é o marco comemorativo do centenário da fundação de Diamantina (1838-1938).

“Vá no Pico do Itambé. É o maior pico da região. Dá pra ver a montanha de quase todos os pontos de Diamantina”, estudante.

Curiosidade: Em 1998 foi criado o Parque Estadual do Pico do Itambé e abrange os municípios de Serro, Itambé e Serra Azul.
Dica: O próprio estudante disse já ter visitado a região duas vezes. Na primeira foi e voltou no mesmo dia, na segunda dormiu por lá. O Pico fica no distrito do Serro e são cerca de 5 horas de caminhada até o ponto mais alto.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Tudo vira música

Ontem foi a abertura oficial do 41º Festival de Inverno da UFMG, aqui em Diamantina. De manhça houve uma palestra com prefeito da cidade, reitor da universidade, secretário estadual de cultura e outros pessoas do alto clero. Depois houve um seminário para discutir o Festival. O espetáculo da noite ficou na responsabilidade do Grupo de Percussão Iukerê.

(Foto: Foca Lisboa. Nesse link)

O grupo foi criado em 2003 por dois professores do Conservatório Estadual de Música Lobo de Mesquita, de Diamantina. O nome antigo era Maracatuk, mas por acharem que se tratava de um grupo que só tocava maracatu, ritmo típico de Pernambuco, eles trocaram o nome por Iukerê: um instruento africano de chacoalhar muito usado por escravos em Diamantina.

O local estava cheio e antes do show os presentes assistiram a um documentário aonde os integrantes do grupo e alguns convidados (como o vocalista do Berimbrown, grupo que serviu de inspiração ao Iukerê) falaram sobre sua história e composição. Depois veio o show.

A mim, seria mais um grupo de percussão como qualquer outro. Duas coisas neles, porém, me chamaram a atenção. Primeiro: no espetáculo que assistimos, que se chama Era U Ditu, eles misturam música erudita com sons contemporâneos. Ótima idéia. Ficou bem interessante e nada cansativo. Segundo: Eles usam instrumentos reciclados, como latões e canos PVC. Ok, todo grupo de percussão hoje faz isso. E pior, parece que alguns fazem de propósito, para dar um ar mais sofrido a sua história de superação, sabe como é? Mas no Iukerê esses instrumentos são coadjuvantes, eles repartem a cena com bateria, tambor e chocalho. A diferença é que não fica cansativo.

Outro momento interessante foi quando eles chamaram o público para participar. Na palma da mão e com folhas de papel, um dos integrantes puxou os movimentos que a platéia deveria fazer enquanto o grupo continuava tocando. Mais do que fazer a platéia se divertir, isso mostrou que até as pessoas com menos “ritmo” podem fazer música.

O grupo tem 5 anos de vida e a eles ainda falta um pouco de presença de palco, sorrir mais, tocar de forma mais natural. Mas o grupo mostra que Diamantina não tem só serestas e vesperatas.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Diretamente de Diamantina

As lembranças mais remotas que tenho de Diamantina são: frio. Muito frio. Fui em 2004 para a cidade com meus pais. Era julho, e apesar dos 2 graus, a sensação térmica era de -2, devido ao vento. A noite, usava tênis, meia fina, calça, cinco blusas, luva, cachecol e gorro e o vento ainda cortava meu rosto. Ficamos em um hotel no alto da serra, perto do mirante. Lá não tinha aquecedor e minha mãe passava secador de cabelo na cama para esquentar. Certa noite chegamos a dormir com jornal. O lugar mais quente da cidade, definitivamente, era nosso carro.

Julho de 2009 e estou aqui de novo. Vim para Diamantina com uma equipe de alunos e funcionários da UFMG para cobrirmos o 41° Festival de Inverno. Esse ano o Festival conta com apresentações de teatro, dança e música, exposições de arte e oficinas sob os diversos temas (artes cênicas, artes literárias entre outras). No site oficial do evento é possível achar a programação completa.

Chegamos no sábado e vou tentar ao máximo postar diretamente daqui, como se fosse um diário de bordo mesmo. Infelizmente esqueci o cabo da minha máquina fotográfica então vou postar fotos de outras pessoas e quando chegar a BH faço tipo um ensaio fotográfico.

E posso adiantar que, por enquanto, não está frio: a temperatura mínima até agora foi de 9 graus.