Mercado Velho e sua praça. Por ser a maior da cidade, é nela que acontece o carnaval.
Ruelas de Diamantina. A direita, o beco da Tecla. A noite, várias pessoas pegavam seus bancos, colocavam na rua, ligavam o rádio e passavam a noite toda conversando. Pela manhã, era o ponto de venda de salgados e doces.
A foto a esquerda foi tirada como consequência do melhor passeio que é possível fazer na cidade: sair andando por aí.
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Antiga Rodoviária, hoje transformada em corpo de bombeiros, e Casa da Glória, da janela da minha sala de trabalho.
O primeiro movimento necessário é dar uma olhada no passado. Esse foi o 41º, e pelo que vi não foi dos melhores. Durante meu trabalho tive a oportunidade de sair a campo e conversar com moradores e turistas sobre o impacto do Festival na vida deles e na cidade. Quase todos disseram que o evento caiu drasticamente em todos os sentidos.
Uma moradora disse que no início o Festival durava um mês, depois começou a durar 20 dias, e hoje tem só 15. O número de eventos também caiu. Até o ano passado os artistas “brigavam” por espaço no jornalzinho impresso, pois eram 5 ou 4 matérias por dia e pelo menos 6 espetáculos. Esse ano ninguém ficou sem lugar. Em se tratando de verba então, nem se fala. Os coordenadores do Festival mostraram o tempo todo a dificuldade de conseguir patrocínio para realizar o evento. E sem verba tudo diminui. A principal atividade do evento esse ano, inclusive, foi um seminário que durou 2 dias e trazia para a roda dúvidas sobre como manter esse tipo de Festival e a cultura do patrocínio.
De toda forma, ele ainda e ótimo (e não estou ganhando nada pra falar isso, acreditem). O Festival de Diamantina é um dos mais antigos e maiores do estado. Foi ele que inaugurou esse formato – hoje tão comum – que traz, entre diversas características, duas que podem ser destacadas: oficinas para as pessoas se aprofundarem nas temáticas de sua escolha, como teatro, fotografia e vídeo, e uma série de espetáculos de rua e de palco de forma que o evento se transforma quase em um festival de cultura.
Os espetáculos do evento são muitos e de altíssimo nível. E uma curiosidade interessante: os grupos Corpo e Galpão, hoje internacionalmente conhecidos, começaram no Festival, há muitos anos atrás.
E mesmo que não seja tanto quanto nos anos anteriores, o Festival ainda movimenta – e muito – a cidade. Pousadas cheias, pontos turísticos movimentados e ruas acessas. Os comerciantes da cidade não tem do que reclamar, pois a renda sempre aumenta. Um vendedor me disse que o Festival ainda perde em quantidade de pessoas para dois outros eventos: o Carnaval e a Semana Santa, mas ainda assim é dinheiro entrando.
Se fosse para dar o veredicto final, eu diria que vale muito a pena. Por mais que a falta de investimentos e patrocínio atrapalhem, o Festival ainda é um dos melhores e mais interessantes Festivais de Inverno do estado e do país. Se possível, não só assista aos espetáculos a noite, mas encontre uma oficina do seu agrado e participe. Uma amiga minha fez uma oficina de teatro que diz ter sido excelente. E se estiver lá aproveite: visite a cidade, que é linda.
(Foto tirada aqui)
O final da noite estava reservado ao espetáculo Dolores, da Mimulus Cia de Dança. O espetáculo traz as temáticas de Pedro Almodóvar ao som dos vários ritmos da dança de salão. O cenário traz cores fortes e música bem marcada. Não há uma historia linear, mas varias histórias aos quais a platéia se identifica. É ótimo. Há quem diga que durou mais que o necessário. Pode ser, mas ainda assim foram uns 15 minutos de palmas ininterruptas.“Costumo sair pouco. Sei lá, vou para pizzarias. Quando você pergunta pra onde eu vou é difícil responder porque aqui na cidade não tem muito coisa pra fazer, tem mais é bar mesmo”, comerciante de Diamantina.
Dica: de fato, a cidade tem poucas atrações para a população local pois não tem cinema nem teatro. Mas há alguns eventos na cidade. Além da Vesperata, os mais famosos são o Carnaval, o Festival de Inverno e as festas religiosas, como a Semana Santa.
“A Livraria e Café Espaço B. é ótima. Tem música e livros, mas o melhor de lá é o clima, que é muito agradável”, trabalhador autônomo.
Dica: O lugar tem cara de caro, mas é acessível. E confira a programação: no sábado que chegamos aqui tinha música ao vivo. Uma mulher cantava MPB acompanhada de dois músicos.
“Há pouco tempo lançaram a casa de vinhos Athenas do Norte e ela é muito boa”, atendente de lanchonete.
“A bebida que mais vende aqui é caipirinha e cachaça”, morador.
Curiosidade: A presença da cachaça na cidade de Diamantina é notada ainda em 1840. Não bebiam só negros, mas também os brancos de ambos sexos e de todas as camadas sociais.
As comidas típicas daqui são comidas típicas mineiras: costelinha cm ora-pro-nobis, tutu de feijão, frango ao molho pardo”, atendente em restaurante.
Curiosidade: Para alguns, a melhor comida típica de Diamantina é feita pelo chef Vandeca, reconhecido como melhor cozinheiro da comida tropeira do Brasil. Vandeka trabalha na Pousada do Garimpo e criou um prato que é sucesso na região há 25 anos, o Bambá do Garimpo
Dica: Por serem comidas mais difíceis de serem preparadas, pois levam um tempo considerável, elas costumam ser encontradas em restaurantes a la carte. Aqui em Diamantina até os restaurantes self service oferecem essas variedades. Obviamente, a qualidade cai.
Hoje de manhã, minha função era sair por Diamantina. Aproveitei o trajeto para descobrir melhor a cidade e perguntar para as pessoas locais que estão aparentemente fora do percurso turístico comum e que valem a pena visitar. Alguma (e boas) dicas foram aparecendo:
“O mais interessante da cidade é a Vesperata, que acontece em certos sábados”, comerciante de Diamantina.
Curiosidade: Em 1999 Diamantina recebeu o título de Patrimônio Cultura da Humanidade. A Vesperata aconteceu em dezembro daquele ano, como comemoração ao título.
Dica: Programe-se. As Vesperatas costumam encher os hotéis. É prudente reservar um quarto com cerca de um mês de antecedência.
“Para sair a noite tem o Mercado Velho, toda sexta-feira. Lá tem comidas e bebidas típicas da região”, comerciante de Diamantina.
Curiosidade: Esse evento é conhecido pelo nome provisório de Sexta Cultural. Enquanto o pessoal vende, artistas diamantinenses tocam músicas de variados estilos.
“As cachoeiras daqui são ótimas. A dos Cristais, em Biri Biri, é a melhor”, taxista.
Curiosidade: O povoado é um distrito de Diamantina e formou-se em torno de uma fábrica de tecelagem que se instalou lá em 1876. O conjunto arquitetônico é tombado pelo EPHA.
Dica: A alimentação é um problema, pois está restrita a dois únicos bares. Além disso, almoços durante a semana só mediante reserva no Biri Biri Bar.
“Eu gosto de ir a Milho Verde. Daqui até lá tem uma paisagem linda. Sou suspeito para falar porque nasci lá”, taxista.
Dica: Para Milho Verde são só 40 km de Diamantina, mas não tem asfalto.
“Eu indicaria a Gruta do Salitre. E quem vai lá tem a oportunidade de conhecer Curralinho e também a estância do Salitre”, dona de lanchonete.
Curiosidade: Escravos usavam a Gruta do Salitre como esconderijo. Hoje, ela abriga concertos de bandas de música devido à ótima acústica do local.
Dica: A estância do Salitre é um hotel, mas as pessoas que não estão hospedados podem visitar o local.
“Eu indico o Cruzeiro. Dá pra ver a cidade toda de lá. É muito bonito quando vai anoitecendo e as luzes vão se acendendo”, estudante.
Curiosidade: Mirante da cidade em uma altitude de 1.300 metros. A cruz é o marco comemorativo do centenário da fundação de Diamantina (1838-1938).
“Vá no Pico do Itambé. É o maior pico da região. Dá pra ver a montanha de quase todos os pontos de Diamantina”, estudante.
Curiosidade: Em 1998 foi criado o Parque Estadual do Pico do Itambé e abrange os municípios de Serro, Itambé e Serra Azul.
Dica: O próprio estudante disse já ter visitado a região duas vezes. Na primeira foi e voltou no mesmo dia, na segunda dormiu por lá. O Pico fica no distrito do Serro e são cerca de 5 horas de caminhada até o ponto mais alto.
O grupo foi criado em 2003 por dois professores do Conservatório Estadual de Música Lobo de Mesquita, de Diamantina. O nome antigo era Maracatuk, mas por acharem que se tratava de um grupo que só tocava maracatu, ritmo típico de Pernambuco, eles trocaram o nome por Iukerê: um instruento africano de chacoalhar muito usado por escravos em Diamantina.
O local estava cheio e antes do show os presentes assistiram a um documentário aonde os integrantes do grupo e alguns convidados (como o vocalista do Berimbrown, grupo que serviu de inspiração ao Iukerê) falaram sobre sua história e composição. Depois veio o show.
A mim, seria mais um grupo de percussão como qualquer outro. Duas coisas neles, porém, me chamaram a atenção. Primeiro: no espetáculo que assistimos, que se chama Era U Ditu, eles misturam música erudita com sons contemporâneos. Ótima idéia. Ficou bem interessante e nada cansativo. Segundo: Eles usam instrumentos reciclados, como latões e canos PVC. Ok, todo grupo de percussão hoje faz isso. E pior, parece que alguns fazem de propósito, para dar um ar mais sofrido a sua história de superação, sabe como é? Mas no Iukerê esses instrumentos são coadjuvantes, eles repartem a cena com bateria, tambor e chocalho. A diferença é que não fica cansativo.
Outro momento interessante foi quando eles chamaram o público para participar. Na palma da mão e com folhas de papel, um dos integrantes puxou os movimentos que a platéia deveria fazer enquanto o grupo continuava tocando. Mais do que fazer a platéia se divertir, isso mostrou que até as pessoas com menos “ritmo” podem fazer música.
O grupo tem 5 anos de vida e a eles ainda falta um pouco de presença de palco, sorrir mais, tocar de forma mais natural. Mas o grupo mostra que Diamantina não tem só serestas e vesperatas.