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quarta-feira, 11 de julho de 2012

Jornada em busca de diversão

Depois de um divórcio de cortar o coração, Bob Sullivan decide jogar tudo para o alto e passar um ano fora do país até encontrar novamente a felicidade. E a sua, ele tinha certeza que podia recuperar fazendo as três coisas que o homem mais parece apreciar: bebendo até se esquecer do próprio nome, jogando sem se importar muito com o dinheiro, e transando com as mulheres que quisesse sem amarras sociais do matrimônio. Assim, ele decide passar quatro meses na Irlanda, quatro em Las Vegas e outros quatro na Tailândia. Essa história parece similar?

(Foto tirada desse link)

Para quem tem certeza já ter lido algo a respeito antes, não se preocupe: você tem razão. Em 2008, a estadunidense Elizabeth Gilbert lançou o Comer, Reza, Amar, livro que vendeu mais de 4 milhões de cópia em todo o mundo e ainda desembocou em um filme de mesmo nome. Nele, a autora conta o que aconteceu no seu divórcio e todos os detalhes que a fizeram decidir viajar pela Itália, Índia e Indonésia, em um ano sabático de prazer e auto-conhecimento.

Mas se o protagonista da história fosse um homem, para onde ele gostaria de ir? O que ele faria para recuperar a felicidade? Foi assim que surgiu a sátira Beber, Jogar, F@#er. O autor, Andrew Gottlieb, não fez a viagem para contar como tudo se passou, mas com uma imaginação fértil e a ajuda de todos os clichês masculinos possíveis, ele construir uma história que daria inveja a muitos marmanjos.

E atenção: quando digo que o livro é uma sátira é uma sátira mesmo. É preciso ter bom humor para rir dos clichês masculinos, das verdades inconvenientes e até dos momentos em que ele tira sarro descaradamente a narrativa de Liz Gilbert. E ele faz isso logo no capítulo 1, ao repetir a frase "Eu queria que Giovanni me beijasse", mas trocando o masculino Giovanni por Giovanna. Com a diferença, claro, que Liz Gilbert está comendo uma pizza na Itália e o protagonista Bob está em pub irlandês, completamente bêbado.

A partir daí, o autor faz diversas referências ao livro. Por vezes, dá a entender que ele é o próprio marido de Liz Gilbert, que inclusive tem pesadelos com o mais recente namorada da ex-esposa (Em Comer, Rezar, Amar, ela encontra um homem bem mais novo logo depois do divórcio). O momento mais hilário está na página 152, quando Bob vê um guru espiritual tendo aulas de ginástica em uma academia de Las Vegas: "Não sei o que surpreendeu mais, que Deepak Chopra tem um personal, que agora eu conhecia o personal de Deepak Chopra ou que Deepak Chopra estava agora em Las Vegas. Eu imaginava que ele estaria em algum lugar espiritual e elegante, como a Itália, ou a Índia ou, sei lá, Bali, talvez."

Eu, que não sou uma devoradora de livros, o li em algumas horas. As histórias são divertidas e a linguagem bem fácil. Chega a ser interessante algumas frases do livro que mostram claramente a forma de pensar masculina. Em alguns momentos, porém, o livro é bem fraco. A parte da Irlanda é, sem dúvida alguma, a mais divertida e a que tem as melhores histórias. Em Las Vegas, algumas histórias parecem forçadas demais e para que aquilo aconteça com uma pessoa real é preciso muita sorte. Mas ok, ele não está mesmo ligado à realidade.

Quando ele começa a descrever suas aventuras na Tailândia, porém, é decepcionante. Quem espera histórias picantes pode esquecer. Depois de passar alguns dias em um relacionamento se, compromisso com uma jovem indiana, ele larga toda e qualquer oportunidade sexual que sua estadia pudesse lhe oferecer para se entregar a uma mulher que ele conhecera na Irlanda. O livro termina no melhor estilo bobo-apaixonado que se pode imaginar. Apesar das piadinhas que permeiam a narrativa, é um final bem mulherzinha para um livro que tinha uma pegada mais masculina.

Ainda assim, eu recomende o livro, principalmente para aqueles que querem algo leve, divertido e que já se perguntaram o que aconteceria com um homem que estivesse tentando juntar seu coração fazendo as escolhas mais inusitadas do mundo. Pode dar certo.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Interseções entre o jornalismo de viagem e a literatura

"Conta-nos como é a falta de ar no Karakoram, acima de quatro mil metros de altitude, e em Los Angeles, durante o smog. Testemunha a morte de escaladores no Annapurna. Quase morre durante uma nevasca perto do monte Whitney. Mergulha na beleza do mar de Bali. Acompanha mateiros no miolo da Floresta Amazônica. Resgata tradições de astecas, indianos, norte-americanos, chilenos e argentinos. Mostra o fatal encontro com uma tribo desconhecida de índios. Atravessa os contrafortes das Torres del Paine, do monte Fitzroy e do Cerro Torre. Compara comportamentos. Relembra livros e autores. Experimenta cardápios exóticos" (retirado do site da Editora Pulsar)


Algumas dessas experiências parecem loucura. Outras, parecem sonhos. A única certeza que se pode ter é que todas são únicas. E é exatamente isso que o escritor Luís Giffoni busca nas suas andanças pelo mundo: descobrir aquilo que é único em um país, uma cultura, um povo. Viajante inveterado, Giffoni já carimbou sue passaporte em mais de 50 países e já escreveu dezenas de crônicas sobre as experiências que viveu por aí. Algumas delas estão nos livros China - O Despertar do DragãoO Reino dos Puxões de Orelha e Outras Viagens e Retalhos do Mundo.

Mas o que diferencia o jornalismo de viagem da literatura viajeira? O que um escritor busca em uma viagem? É diferente do que busca um jornalista? Tive a oportunidade de conversar com o Luís durante a Bienal do Livro de Minas, que acontece dos dias 18 a 27 no Expominas, em Belo Horizonte. O evento busca falar sobre literatura e aproximar os leitores dos seus autores favoritos. Abaixo, a nossa conversa:



O jornalismo de viagem está caminhando para a literatura?
Se você quer fato de viagem você vai procurar um guia de viagem que possa dar todas as dicas. Se você quer uma experiência, um relato, você vai procurar um livro que fala sobre. É muito diferente, mas acho que há uma interseção entre eles sim. O que falta no jornalismo de viagem é tentar absorver a cultura estrangeira e colocá-la em um papel de percepção.

O que o senhor busca em uma viagem?
Eu não estou preocupado em citar locais, hotéis, roteiros. Estou preocupado com a cultura e como essa cultura interage com a minha. Não viajo meramente em busca de informações, mas é claro que uma viagem pode se transformar em ensaio, pois elas despertam uma curiosidade. Procuro ver a unicidade das culturas, o que há de comum e o que há de diferente. Também acho super interessante ver como as pessoas resolvem certas situações que, para nós, são coisas problemáticas. O convívio com a nudez e com o sexo em Bali é uma coisa muita tranquila. Eles têm estátuas espalhadas pelas cidades que seriam inadmissíveis no Brasil. Em compensação, nos países muçulmanos eles não permitem o consumo de álcool, algo quase banal por aqui.

O senhor passou por alguma situação que não conseguiu escrever?
Na Índia eu conheci uma pessoa que estava escravizada. Ela me suplicava para libertá-la, mas eu não podia fazer nada... Até hoje me lembro do seu olhar de súplica.

O senhor já sentiu um estrangeiro dentro do seu próprio país?
Eu nunca me senti um estrangeiro em lugar nenhum. Desde que você esteja aberto à cultura do outro você não vai passar por isso. O outro é diferente, isso não quer dizer que ele não é legal ou interessante. Mas uma coisa é certa: já estive em mais de 50 países, alguns eu atravessei de ponta a ponta, e sempre enxergo coisas novas.

(No dia 23 de maio, o Café Literário uniu Frei Betto, Luiz Ruffato e Luís Giffoni para discutir "A Construção do Romance")

A conversa com Luís Giffoni foi motivada por um debate interessante do qual ele era mediador. Durante o Café Literário, um evento que integra a Bienal e tem como objetivo realizar um bate papo informal entre autores e público, ele, Frei Betto e Luiz Ruffato discutiam "A construção do Romance". Durante aquele debate algumas coisas ficaram clara. A primeira foi que a maior dificuldade da literatura atual é construir uma narrativa inovadora e diferente do que já foi feito. A segunda é que para essa inovação acontecer não importa a história, é preciso saber contá-la de uma forma interessante.

"Literatura é a arte da linguagem. As vezes a narrativa é banal, mas a linguagem é de um sabor tão incrível que aquilo te prende", disse Frei Betto sobre o fazer literário. E ele está completo de razão. Existem histórias surpreendentes, mas grande parte da literatura passa por temáticas mais ou menos iguais. O mesmo acontece no jornalismo de viagem. As vezes escutamos alguém falar sobre os costumes de uma tribo indígena ou sobre as maravilhas daquela ilha o pacífico pouco explorada. Mas o grande volume de conteúdo gira em torno dos locais mais conhecidos como Paris, New York e Rio de Janeiro. O que faz desses relatos algo pouco ou muito interessante? A forma com que o autor fala sobre ele.

(Stands da Bienal do Livro de Minas)

O Brasil ainda é um país que está engatinhando no quesito crônicas de viagem e para quem quer se arriscar no caminho da literatura, os autores deram duas dicas valiosas:

1. Para ser um bom escritor é preciso ser um bom leitor. Assim, ande sempre com um livro mesmo que você tenha certeza que naquela dia não vai abrir nem uma página. No final da semana você vai se surpreender.
2. Nunca escreva pensando que a sua primeira redação vai ser a última. O importante é colocar no papel um início, um meio e um fim. Depois você vai burilando o texto até chegar naquilo que considera ideal. Afinal, o mais importante é a forma.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A favor do imprevisível

Toda viagem é um sonho. Sonhos devem ser perfeitos. Logo, uma viagem deve ser perfeita. Não é por menos que os futuros viajantes passam horas lendo guias de viagem, procurando resenhas em sites especializados e pedindo dicas para os amigos. Quando não conseguem fazer tudo sozinhos ou não têm tempo para isso, contratam uma excursão que saiba fazer daquele passeio uma viagem dos sonhos. Ou seja, perfeita. Mas alguma coisa sempre dá errado. E existem situações nas quais o mais comum é não dar certo. É sobre essas situações que Moacyr Scliar fala no livro Dicionário do Viajante Insólito.

(Foto tirada desse link)

Como o próprio nome diz, o livro é organizado em forma de dicionário. A de aeroporto, B de briga, C de cemitério e por aí vai. Quem lê todo o índice antes de começar acaba ficando intrigado com algumas letras, como K de kafka e Q de quando. Mas com um tempo é fácil perceber que qualquer coisa é motivo para o autor trazer indagações (e piadas) sobre o ato de viajar.

E isso acontece por dois motivos. Em primeiro lugar porque o livro é um dicionário. Com qual palavra ele ia preencher o Z? Eis então que ele conta a história do filho de um amigo que pediu uma Zebra para o pai que estava indo para a África do Sul. O autor poderia ter usado o mesmo texto para o E de Encomenda ou B de Bagagem... mas precisava de um Z. Nada mais justo.

Em segundo lugar porque ele já viajou muito. Nascido em Porto Alegre, Moacyr Scliar já morou em países como Israel e Estados Unidos e já visitou uma série de outros lugares, a trabalho e a lazer. O que não lhe falta são histórias, lembranças e casos de viagens para escrever - todos de forma bastante irônica e bem-humorada, claro.

Já na primeira crônica percebe-se que a ideia do autor é unir suas experiências pessoais às suas indagações sobre viagens. Ele quer, principalmente, que o leitor reflita. Por que viajar? Por que sair de casa para ver aquilo que eu já posso ver nos livros e filmes? Se o que mais se quer é ver uma coisa porque então as pessoas não aproveitam a paisagem ao invés de ficar disparando flashes para todos os lados? E, principalmente: por que esperar uma viagem perfeita se ela provavelmente não o será? As melhores surpresas não estão exatamente em viver o não programado?

("Ver, é o que o turista sobretudo deseja. Ver tal ou qual paisagem, tal ou qual museu, tal ou qual igreja. O turista é um grande e guloso olho que viaja pelo mundo. Um olho que não confia em si mesmo, daí a máquina fotográfica e a câmera de vídeo sempre a tiracolo" - no capítulo V de ver)

A verdade é que todo turista quer descobrir o desconhecido para contar aos amigos, mostrando assim como ele é desprendido, intuitivo e interessante. Enfim, um aventureiro nato. Mas todo turista quer também conhecer o que já foi descoberto. Afinal, você precisa contar aos amigos que já esteve lá. Ou você acha que eles gostariam mais de ouvir sobre a estátua que você descobriu há 10 quilômetros do centro de Paris ou sobre a grandiosidade da Torre Eiffel?

Para a eterna dúvida "planejar ou se deixar levar" não há resposta. E nem ser humano que fuja à tentação.  Em diversos momentos o próprio autor conta sobre igrejas, museus e livrarias que estão no roteiro por serem lindas mas também por serem clichês. Locais que, logicamente, ele já tinha ido. Moacyr Scliar também é um viajante insólito. Mas com um pouco mais de bom humor.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Contos de viagem

Os contos são conhecidos por serem o par perfeito das pessoas que não gostam muito de ler. Para elas, ainda falta paciência para um romance inteiro. Assim, com um conto, em duas ou três páginas eles terminam um história e já pulam pra outra. Também é o preferido de quem não tem muito tempo. Imagine aquelas pessoas que vivem correndo, sempre parando uma atividade pra começar outra: como ler um livro inteiro em menos de 6 meses? Quando eles chegam ao fim, já não se lembram do início.

Essa é a realidade de alguns turistas. As pessoas que viajam as pressas, as que viajam a negócios, as que viajam e não deixam tempo nem pra tomar banho de tanto passeio que programam. Se você se encaixa em algum desses perfis - ou mesmo que não se encaixe em nenhum deles - que tal um livro de contos? Afinal, todo viajante precisa ter um livro a mão, seja para as horas de espera no aeroporto ou para os lanches preguiçosos de fim de tarde.

Há algum tempo vi uma matéria no Estadão sobre os melhores livros de conto com o tema turismo e viagens. Um deles é A Noiva da Canoa e outros amores embarcados, de Ronny Hein. O autor foi editor de revistas especializadas em turismo brasileiras por 15 anos. No livro, ele conta suas experiências de viagem. "Quem embarca sempre julga que conhece seu destino. Mas, muitas vezes, ele está só no meio do caminho." Palavras de expert.

(Foto tirada desse link)

A próxima dica é, na verdade, de uma história em quadrinhos. Nova York - A vida na grande cidade é o fruto de quatro contos escritos pelo estadunidense Will Eisner, artista conhecido por popularizar as graphic novels, longas histórias contadas através de arte sequencial. No livro, cheio de lindos desenhos, ele conta histórias do cotidiano do país que, muitas vezes, passam desapercebidas. A Nova York de Eisner não tem glamour. Ao contrário, é cinza, sombria e bastante irônica.
(Foto tirada desse link)

Lugares incomuns para mulheres que esperam algo a mais que um simples passeio. 100 viagens que toda mulher precisa fazer é o livro da viajante estadunidense Stephanie Elizondo Griest. São nove capítulos e 25 países, com cidades de Havana a Moscou. No fim de cada capítulo a autora dá dicas de sites, lojas, restaurantes e lugarzinhos especiais (aqueles que você só raramente encontra em guias turísticos).

(Foto tirada desse link)

O autor é um dos intelectuais brasileiros mais controversos das décadas de 1960 e 1970. José Carlos de Oliveira, mais conhecido como Carlinhos de Oliveira, escreveu matérias em diversos veículos da impressa sobre histórias que se passavam em capitais europeias como Londres, Paris e Amsterdã. Entre os temas, a efervescência cultural e a guerra dos sexos. A compilação de vários textos se transformou no livro Flanando em Paris, que mistura jornalismo, ficção e psicologia.
(Foto tirada desse link)

O aspecto é infantil, mas as histórias podem ser lidas por pessoas de todas as idades. Este é o Lá vem história outra vez, de Heloisa Pietro. O livro traz lendas do folclore de países como Austrália, Grécia e China. No total, são 30 fábulas que tratam de suspense e encantamento. O livro é a versão impressa - podemos dizer assim? - do programa da TV Cultura Lá Vem História.

(Foto tirada desse link)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Para ler e viajar

Há quem diga que só existem dois tipos de viajante: aqueles que lêem um livro para rodar o mundo e aqueles que rodam o mundo para escrever um livro depois. De toda forma, praticamente todos eles têm um bom exemplar na mala ou na mochila.

(O livro Medo e Delírio em Las Vegas foi adaptado para o cinema. O ator Johnny Depp ficou com o papel principal - e idêntico ao Hunter Thompson. Foto tirada desse link)
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Em abril de 2009 o jornal inglês Telegraph elegeu os 20 melhores livros de viagem de todos os tempos. A lista foi feita para celebrar o Dia Mundial do Livro, celebrado em 23 de abril.

Apesar de a lista não estabelecer uma relação de melhor ou pior, o primeiro título é On the road (tradução: Pé na estrada), do escritor estadunidense Jack Kerouac, um dos maiores marcos da geração beat. O livro conta a história de dois amigos que atravessam a América pela rota 66 anos depois da Segunda Guerra Mundial. O encanto do livro é a sensação de liberdade que ele deixa. Foi com essa mesma sensação que milhares de jovens partiram em aventuras similares em todo o mundo.

Outro título de destaque é Fear and Loathing in Las Vegas (tradução: Medo e Delírio em Las Vegas), do jornalista estadunidense Hunter Thompson. A narrativa do livro é feita em jornalismo gonzo, gênero aonde o repórter abandona qualquer pretensão de objetividade e se mistura a ação. Em Medo e Delírio, Thompson conta como caiu no mundo das drogas dia e noite numa cidade desconhecida. O número de alucinógenos usados pelo autor foi tão alto que nem sequer sabemos o que podemos considerar real ou ficcional dentro da narrativa.

A lista também conta com outros títulos de peso. Um deles é a obra The Great Railway Bazaar, de Paul Theroux. Feitos para amantes de viagens de trem, o autor descreve suas aventuras pelos trilhos da Europa, da Ásia e do Oriente Médio. Outro é o The Road to Oxiana, de Robert Byron. Considerada por muitos o primeiro exemplar de narrativa de viagens modernas, a obra traz os caminhos percorridos pelo autor através do Oriente Médio.

A lista completa com o resumo das obras você encontra no site do Telegraph.

*Essa matéria saiu pela primeira vez no site FUNtástico, nesse link.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Nuances de uma Europa Oriental

Um livro escrito a dois tempos. O primeiro se passa em 1911, quando o desenhista Charles-Edouard Jeanneret, apenas com 23 anos, escreve um diário narrando sua viagem. O segundo se passa em 1965, quando esse mesmo jovem resolve revisar o livro para, então, publicá-lo. Nessa época, o jovem já tinha 77 anos e era conhecido como Le Corbusier, um dos mais importantes arquitetos do século XX. Assim é A viagem do oriente (Le voyage d'Orient).


A obra foi o primeiro e o último texto escrito pelo francês Le Corbusier, que morreu meses depois do lançamento. O relato do artista começa em Berlim, na Alemanha, e passa por Dresden, Praga, Viena, Budapeste, Constantinopla, Monte Athos, Atenas, Brindisi, Nápoles, Pompéia e Roma. A meta era ir até o Egito. Entretanto, quando ele e seu amigo chegam a Atenas acabam tendo que encurtar a viagem por questões de saúde.

De toda forma, o que lemos no livro é um relato apaixonado de um jovem pela arte. Mas pela arte remota, primária. Le Corbusier se encantava, por exemplo, com jarros a moda antiga, aqueles que ainda não foram contaminados pelo "gosto ocidental". Em uma passagem do livro ele narra que ao entrar em um mercado procurou algo que fosse representativo dessa estética. Não encontrava: tudo parecia igual, criado para atrair turistas, feito em série para vender mais e mais. Até que resolveu ir nos fundos de uma lojinha. Lá no fim, perdida entre as estantes, uma peça lhe chamou a atenção. Aquela sim, pela sua forma e tons, parecia trazer de volta as raízes daquela cultura.

Essas situações faziam o jovem refletir sobre o passado e o futuro. O progresso tem de ser feito em cima da supressão de certas culturas? E a partir desses questionamentos o arquiteto traz profundidade ao livro. A outra boa surpresa do livro é a noção artística de Le Corbusier. Com apenas 23 anos ele mostra já entender como ninguém de profundidade, estrutura, disposição de volumes, nuances de cores.
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E ele não escreve só sobre a arte dos tapetes, das peças artesanais, dos panos, mas também dos degradês do céu e das incríveis paisagens, narradas com precisão. Precisão até demais... e aí um problema: é tanto detalhe que a leitura se perde. Confesso que, por vezes, tive vontade de parar de ler. Foi cansativo terminar e só o fiz por teimosia. Páginas e páginas falando sobre um único pedaço de pano. A narrativa flui lentamente e, por vezes, as histórias pessoais ou os relatos das pessoas de um país são bem mais interessantes.
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Acredito que para uma pessoa da área o livro seja bem melhor. Pelo menos é o que mostra a resenha de A viagem do oriente feita pelo arquiteto Artur Rozestraten. Leia também e forme a sua opinião.

sábado, 3 de outubro de 2009

O sonho da volta ao mundo

Até hoje, dar a volta ao mundo parece uma grande aventura, mesmo se pensarmos que é possível fazê-la em dois dias com as tecnologias atuais. Mas foi pensando em uma viagem como esta que o francês Júlio Verne escreveu A volta ao mundo em 80 dias em 1873.


O livro conta a história de um inglês impassível e imperturbável, um verdadeiro Gentleman, chamado Phileas Fogg. Milionário, Fogg vivia com seu criado e seus hábitos regulamentares, repetidos todos os dias com extrema pontualidade. Em uma conversa com amigos do clube que freqüentava diariamente, o gentleman apostou 20 mil libras que seria capaz de dar a volta ao mundo em apenas 80 dias, com afirmava um jornal inglês. Assim, partiu com seu mais novo criado, o francês Jean Passepartout para uma viagem que começa e termina em Londres, mas antes passa por Suez, Bombain, Calcutá, Hong Kong, Iocoama, São Francisco e Nova York.

Claro que essa viagem não teria nada de contemplativo. Eles não iriam visitar museus e praias, não iriam comer em famosos restaurantes nem comprar um souvenir a cada cidade. Eles iriam de um trem a outro, de um barco a outro, parando apenas para esperar o próximo meio de transporte e carimbar seus passaportes.

Desde o início a viagem é cheio de imprevistos. Dias antes da partida houve um roubo no Banco da Inglaterra e o detetive Fix está certo de que o ladrão foi Fogg. Por qual outro motivo um gentleman tão obstinadamente correto sairia de casa para dar a volta ao mundo? Fix, então, o segue por todo caminho. E o detetive é só um dos obstáculos. Entre um navio e outro eles arranjam inimigos, companheiros de viagem, tempestades e meios de transporte malucos, como trenós e elefantes.

Fato ou ficção?

O livro é tão ficcional que o excesso de imaginação surpreende. Eu me peguei fazendo perguntas do tipo: será que esse caminho, dar a volta o mundo em 80 dias, era mesmo possível em 1873? Júlio Verne imaginou tudo isso ou pesquisou intensamente até construir uma narrativa “ficcional verdadeira”?

Outra dúvida que me veio ao fim do livro: ele mesmo já foi para todos esses lugares? Pergunto isso porque muitas partes do livro pareciam reais demais para alguém que nunca esteve no local. Talvez muito do que Júlio Verne tenha escrito tenha vindo de relatos de outras pessoas ou até mesmo de clichês que construímos sobre algumas sociedades e países. Talvez seja mentira e nós, que estamos tão distantes daquela época, achamos que é tudo verdade.

Outra coisa que me chamou a atenção – e me irritou bastante em alguns momentos – é a forma como a narração foi feita. Parece Júlio Verne pensava que os leitores não estavam entendendo absolutamente nada do que ele estava dizendo. Há dois sinais claros disso. O primeiro é o título dos capítulos. Em um momento que o detetive Fix estava fora da narrativa, o suspense de sua volta ou não é suspendido pelo título “aparece novamente Fix” sem antes sabermos se ele vai voltar. Outro sinal são as diversas vezes em o autor e narrador onisciente fala diretamente com o leitor. Isso poderia ser um recurso interessante, se não fosse o tom professoral com que Júlio Verne explica a trama do livro.

Para mim, não é o melhor livro do mundo. Talvez porque, hoje, o modelo de narrativa de aventura e viagem já tenha se aprimorado. Mas entendo o entusiasmo da época com o nome de Júlio Verne e suas narrativas fantásticas.